Parcerias com a escola pública: um cavalo de Troia

Para especialista da Faculdade de Educação da USP, modelo não garante melhorias das unidades

Ocimar Alavarse*, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2016 | 11h48

SÃO PAULO - Pode-se compreender a motivação de gestores de escolas públicas em recorrer a parcerias em busca de auxílios financeiros externos, usualmente premidos pela escassez de recursos. Contudo, esse expediente é um verdadeiro Cavalo de Troia. Paradoxalmente, essas parcerias podem servir muito mais para a legitimação de quem as concede do que realmente contribuir com a melhoria da escola pública.

Para confrontar essa ameaça, não nos parece adequado recorrer ao argumento de que esses mecenas poderiam contribuir diretamente para secretarias de educação, instâncias que têm a responsabilidade política de garantir as condições de todas as escolas, pois isso nos eximiria de aprofundar o debate sobre impostos e orçamento públicos. O cerne do problema repousa no fato de que essa ajuda, praticamente, em nada contribui para o enfrentamento dos enormes desafios visando uma educação pública de qualidade.

Essas parcerias, ao contrário, não bastando a diferenciação de atendimento que estabelecem, afrontam o princípio de equidade e muito mais o da igualdade de resultados que se deveria almejar para algumas aprendizagens. Introduzem no seio da escola pública princípios de gestão que podem transformar resultados de avaliações externas em instrumentos meritocráticos, algo que, ademais de não possuir consistência estatística, dada a impossibilidade de se dimensionar com a devida precisão a quem atribuir a origem desses resultados, reiteram a ideia de que alguns, inexoravelmente, devem ser melhores do que outros, incluindo a capacidade de buscar parceiros.

A necessária parceria é com o compromisso político de uma escola universalmente dotada de condições para seus alunos.

* É professor da Faculdade de Educação da USP

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