Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Paralisação de professores divide pais de escolas particulares de São Paulo

Pelo menos 32 colégios devem ser afetados hoje; categoria teme redução de direitos em negociação trabalhista. Algumas famílias criticam transtornos causados pelo movimento; outras apoiam manifestação e prometem até ajudar os colegas dos filhos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - A paralisação dos professores da rede particular de São Paulo, marcada para hoje, pegou muitos pais e diretores de surpresa. Enquanto alguns colégios decidiram suspender as aulas, outros buscaram soluções para manter pelo menos parte dos serviços. As famílias de alunos se dividem sobre o movimento, que também teve adesão no interior. Há 15 anos a categoria não faz greve no Estado.

+ Professores da rede particular anunciam paralisação 

Segundo o Sindicato dos Professores (Sinpro-SP), docentes de pelo menos 32 escolas da capital pretendem parar. A categoria aprovou a medida após mais de dois meses de impasse para aprovar a convenção coletiva. O sindicato patronal, Sieeesp, propôs uma série de mudanças em direitos, como redução do recesso escolar do fim do ano e restrição das bolsas de estudos para filhos de professor.

A paralisação foi aprovada mesmo em escolas que anunciaram a manutenção desses benefícios, independentemente da convenção. Os professores dessas unidades dizem temer que, sem o documento, os direitos sejam cortados no futuro. É o caso da Escola Vera Cruz, em Pinheiros, na zona oeste, que suspendeu as aulas após a decisão do corpo docente. 

Para a engenheira Mariana Mirella, de 42 anos, mãe de dois estudantes de 10 e 16 anos, os professores do colégio deveriam pensar em outras formas de se manifestar sem prejudicar os pais e alunos. “A escola já disse que vai manter os direitos, então não acho que têm motivos para parar. E, se querem manifestar apoio aos colegas, deveriam buscar outras formas, um ato no sábado.”

A advogada Débora Barros, de 41 anos, diz considerar “legítima” a paralisação, mas não dessa forma. Ela tem um filho de 5 anos no Santa Cruz e outro, de 2 anos, no Vera Cruz. “Vou deixá-los com uma parente porque foi a alternativa que encontrei de última hora. Todo mundo tem direito de se manifestar, mas poderiam fazer isso em um sábado ou algum dia que não tivesse aula", diz. O Santa Cruz, que manterá os benefícios, já informou que o dia letivo será reposto.

Já a arquiteta Adriana Ferraro, de 42 anos, diz acreditar que a posição da escola e dos professores está alinhada com a proposta pedagógica que busca. "Se fala tanto em ensinar empatia e colaboração para as crianças e essa é uma lição prática. São os professores mostrando que, apesar de terem seus direitos assegurados nesta escola, estão lutando para garantir que todos os outros também tenham", diz Adriana que é ex-aluna do Santa Cruz e mãe de três alunos, de 14, 11 e 9 anos

Apoio. Em alguns locais, os pais até se ofereceram para cuidar dos amigos dos filhos. É o caso da produtora cultural Tamara Perlman, de 36 anos, que combinou com outros pais do Santa Cruz para cuidar de três colegas de sua filha, de 5 anos. “É só uma questão de se organizar, a gente faz isso quando o filho adoece e precisa ficar em casa.”

No Colégio Grão de Chão, na Água Branca, zona oeste, os professores avisaram à direção, por carta, sobre a paralisação. Ontem, no horário de entrada dos alunos, pais foram informados sobre a suspensão das aulas. 

O engenheiro Luiz Boffa, de 42 anos, diz que vai ficar em casa com a filha de 4 anos. “Neste momento, é mais importante que os professores lutem por seus direitos como categoria. Não adianta que eles estejam assegurados só nessa escola, acho fundamental essa consciência coletiva em quem está ensinando minha filha.” 

A psicóloga Cristina Paschoal, de 40 anos, também é favorável ao movimento. “A categoria está com seus direitos ameaçados, acho justo e fundamental a paralisação de todos. Eu vou tentar ir ao protesto para dar meu apoio”, afirma ela, que tem um filho de 4 anos no Grão de Chão. 

Segundo a diretora da unidade, Lucília Franzini, o cancelamento das aulas foi necessário por não saber quantos dos docentes vão aderir. Mas disse ter achado “desleal” a participação dos professores da unidade, uma vez que a escola vai manter os direitos da última convenção e deu reajuste salarial de 7% para todo o quadro. 

Na escola Politeia, também na Água Branca, segundo os professores, apenas pais de dois dos 200 alunos reclamaram da suspensão das aulas. Essas famílias criticaram por não terem sido avisadas com antecedência.

Na Politeia, os docentes convidaram os pais para um debate hoje, pela manhã, sobre a paralisação e a educação no País. O Colégio Equipe, em Higienópolis, na região central, também marcou aula pública para debater o tema. Em outras escolas, como Gracinha, Santa Clara, Escola da Vila, Escola Viva e Oswald de Andrade, as aulas foram suspensas e os pais escreveram cartas abertas de apoio. No Santa Maria, na zona sul, só professores do ensino médio vão parar. Segundo a direção, haverá aplicação de simulado, já previsto no calendário.

Interior. Também houve adesão em colégios privados do interior. Segundo a Federação de Professores de São Paulo, docentes de Campinas, Santos, Ribeirão Preto e Presidente Prudente também devem parar.

Para entender - Audiências não tiveram acordo

Com o impasse na negociação, o Sinpro-SP, sindicato dos professores, recorreu à Justiça do Trabalho. Mas as duas audiências de conciliação terminaram sem acordo. 

Segundo o sindicato patronal, o Sieeesp, a oferta de bolsas para filhos de professores tem impacto financeiro grande nas escolas menores e a redução do recesso é necessária para que haja mais tempo para formação continuada e atividades de planejamento. 

Os professores dizem não aceitar que os benefícios sejam mantidos só para algumas escolas e não sejam registrados na convenção. 

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