DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Rosely Sayão
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Para tirar o fardo dos pais

Às vezes parece que foram eles que criaram a pandemia, tamanha a culpa que carregam

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2021 | 05h00

Os pais enfrentaram, e ainda irão enfrentar por um bom tempo, situações difíceis com os filhos nesta época de pandemia. Se, antes de as escolas fecharem, muitas mães chegaram a dizer “Eu já fiz de tudo” ao se referirem a comportamentos ou reações dos filhos, hoje elas reconhecem que já inventaram soluções e estratégias inimagináveis anteriormente. E podem - e terão - de criar outras mais, ainda. As preocupações, angústias, inseguranças e dúvidas - muitas dúvidas - habitam hoje a cabeça dos pais.

Para alguns, uma pequena mudança de comportamento do filho já sinaliza algum possível problema; para outros, o atraso na aprendizagem em mais de um ano sem escola presencial é um tormento para o qual não encontram soluções que considerem produtivas. A saúde física e mental dos filhos é mais um motivo para sustentar o sinal amarelo piscando na cabeça deles o tempo todo. E o sinal vermelho acende com muita frequência, pelo tédio e pela solidão que observam os filhos passarem. De vez em quando, parece que foram os pais que criaram a pandemia, tamanha é a culpa que carregam. Estão carregando um peso enorme nas costas tanto por acompanharem o tempo presente na vida dos filhos quanto sobre o que imaginam que será do futuro deles. Estão fragilizados. Vejamos, então, como eles podem ajudar os filhos para melhorar a própria vida.

A primeira questão são os estudos. Muitas crianças, mesmo tendo todos os recursos necessários em casa e pais dispostos a acompanhar o estudo remoto, não conseguiram aprender, prestar atenção, fazer os trabalhos passados. Precisamos entender algo importante: estudo remoto não é adequado para a criança. “Mas algumas crianças aprenderam”, me disse a mãe de um garoto de 9 anos que pouco aproveitou o estudo remoto. Sim, caro leitor, algumas crianças aprenderam, mas não sabemos o custo familiar e pessoal dela para que isso ocorresse e as possíveis consequências dessa conta. Saberemos mais tarde. 

O aluno, tanto da educação infantil quanto do ensino fundamental 1, precisa de um local designado para aprender - a escola -, precisa de um adulto presente preparado e disposto a ensinar - o professor -, e companhia na árdua tarefa de aprender - os colegas. O ensino remoto não consegue substituir esses requisitos para a maioria das crianças.

O que fazer, então? Primeiramente, ter paciência e tolerância com as dificuldades ou recusa do filho nos estudos. Adianto: pressionar, dar broncas, fazer discurso moral, além de não adiantar nada, pode piorar a situação. Conversar com a escola é uma ótima providência, apesar de que muitas não se comovem nem um pouco com a situação apresentada. Sabe por quê? Porque elas também não têm soluções a oferecer. É, não existe escola perfeita. Entretanto, há escolas que estão sensibilizadas com o contexto vivido por seus alunos e suas famílias no estudo remoto. E, lado a lado com a família, em um diálogo, ganham maiores chances de encontrar boas soluções.

Enquanto isso, estimule a inteligência e o raciocínio de seus filhos. A afetividade entre pais e filhos é importante para isso, sabia? Dê atenção a eles sempre que for possível, conversando, fazendo trabalhos domésticos juntos, ouvindo com interesse real o que falam, mostrando o mundo a eles por meio de livros, filmes, histórias. Desafie seus filhos a conseguirem algo que para eles é difícil, apresente jogos de tabuleiro.

E como fazer a criança pequena entender e respeitar o trabalho remoto dos pais feito de casa? Lembre-se: o concreto ajuda mais do que o abstrato, do que a explicação falada. Repetir a rotina anterior à pandemia de quando os pais saíam para o trabalho pode ajudar: despedir-se deles e dizer que vai ao trabalho. 

Uma mãe me contou o que fez e eu adorei. Ela fez um adesivo com o nome da empresa em que trabalha e coloca na porta do dormitório em que vai se dedicar ao trabalho profissional. Fecha a porta e, como antes, diz aos filhos que, caso precisem de algo, ela está com o celular e a avó - que ficava e fica com as crianças na ausência agora simbólica da mãe - irá acioná-la. 

E o tédio das crianças sem escola, sem colegas para brincar, sem viajar, sem passear? Agora, precisamos devolver a autonomia de brincar às crianças. Em vez de brincar com os filhos, sugerir algumas brincadeiras diferentes é uma possibilidade. Seus filhos estão sofrendo? Sim. Vocês também? Sim. Essa é a nossa realidade, sobre a qual não temos controle, e não somos nada mais do que humanos com dores, dissabores, mas também com possibilidades e potenciais diversos. Que façamos bom proveito. 

* É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

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