Para interno, exame é chance de mudar a vida

Na Fundação Casa há 1 ano, Pedro sonha com faculdade

Paulo Saldaña, Especial para O Estado de S. Paulo,

07 Outubro 2009 | 13h11

Pedro tem 17 anos e estuda todos os dias. Não perdeu nenhuma aula no último ano nem sequer chegou atrasado. Sonha em cursar Educação Física. Como milhões de jovens, estava ansioso para o Enem. O cancelamento da prova, no entanto, pode ter um peso maior para ele. Pedro é interno da Fundação Casa (antiga Febem) de Osasco e o resultado do Enem pode acelerar os programas socioeducativos para que ele volte pra casa. "Eu estava contando que faria o exame agora. Será difícil esperar, mas fazer o quê?" Pedro está detido há um ano por ajudar um tio a controlar a venda de drogas em Barueri (SP). Durante seis anos da sua vida conviveu com a ausência da mãe, presa por assalto a banco. Ele mesmo vê sua ida para a Fundação como uma salvação do mundo do crime. "Poderia nem estar vivo. E aprendi muita coisa aqui dentro", diz ele, que já colocou em seu projeto de vida até uma pós-graduação. Dos 40 internos na unidade de Osasco, apenas Pedro e Alex (nomes fictícios) estão aptos para fazer a prova neste ano. Alex também tem 17 anos e sonha alto: quer medicina. "Espero ter uma boa nota no Enem, estou estudando com livros e um simulado", diz ele, levado à Fundação por assalto. No Estado de São Paulo, 390 internos inscreveram-se para o Enem. Eles farão a prova nas unidades. Professores da rede estadual de ensino ministram diariamente as aulas para os menores. Para o professor Paulo Paterlini, de 67 anos, engenheiro aposentado e professor há cinco anos para menores infratores, só o fato de eles fazerem a prova já é importante. "Os jovens se sentem valorizados com isso", diz. Já nas prisões do Estado, 7.808 detentos estão inscritos no Enem. O paulista Marcio Nakayama, de 32 anos, cumpre pena de 12 anos por homicídio na Penitenciária de Bauru, interior de São Paulo. Preso desde 2003, está no regime semi-aberto. Nakayama já é formado e pretende conquistar em breve um segundo diploma. Ele permanece otimista com o Enem. "Além de minha liberdade definitiva, quero reconquistar o respeito da sociedade, família, amigos, o que, através do Enem 2009 acredito ser o primeiro passo para essa conquista", escreveu ele em entrevista por e-mail mediada pela assessoria de imprensa da Fundação de Amparo ao Preso (Funap). A lei não prevê remissão de pena para quem estuda. Mas, segundo a Funap, alguns juízes passaram a equiparar o estudo ao trabalho: a cada 3 dias de escola, 1 dia a menos na prisão. De uma população total de 150 mil presos, 15 mil estudam. Amazonas A merendeira Rosane Camarão da Silva, de 36 anos, também encara o Enem como primeiro passo para uma nova vida. Ela mora na comunidade de Valha-me Deus, de 350 habitantes, isolada entre a floresta e rio Amazonas. Para fazer a prova, vai enfrentar uma viagem e tanto, que começa um dia antes. Depois de uma caminhada de trinta minutos, um barco vai cortar o rio por mais de cinco horas até chegar a Parintins, onde fará o exame. Como são dois dias de prova, vai dormir na casa de parentes, e voltar pra casa só na segunda. Se vale a pena? "Essa é a oportunidade de eu conseguir chegar na faculdade de Medicina", diz Rosane.

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