Reprodução
Reprodução

Para inglês entender

Não é só por causa da Copa e das Olimpíadas: se quiser ocupar um lugar de destaque no mundo, brasileiro terá de dominar a língua universal

Felipe Mortara e Carlos Lordelo, Estadão.edu

25 Abril 2011 | 23h22

Já virou lugar-comum dizer que o Brasil está na moda. Investidores inundam nosso mercado de dólares, a respeitada revista The Economist pôs na capa a imagem do Cristo Redentor decolando, Barack Obama derramou-se em elogios na visita feita ao País em março, a Copa e as  Olimpíadas estão logo aí. Tudo muito bom, mas, se o brasileiro quiser mesmo mudar seu status no mundo, vai precisar entender e ser entendido. Isso passa pelo  domínio da língua universal, o inglês, objetivo que hoje parece bem distante.

 

Há várias razões para essa deficiência. Entre elas estão a baixa qualidade do ensino na rede pública, a escassez de professores qualificados nas escolas privadas e o fato de o inglês não ser disciplina obrigatória até o 6.º ano do ensino fundamental.

 

Uma pesquisa divulgada em março pela empresa de ensino de idiomas Education First colocou o Brasil na 31.ª posição entre 44 países num ranking de proficiência (competência) em inglês. O estudo usou testes aplicados a 2,3 milhões de pessoas. Curiosamente, os Brics, grupo de países emergentes, ficaram agrupados, todos com grau baixo de proficiência. A China puxou a fila, na modesta 29.ª colocação, seguida de Índia, Brasil e Rússia. Na América Latina, ficamos atrás de Argentina (16.º) e México (18.º).

 

“Falta no País a consciência de que políticas públicas para o ensino de inglês são essenciais”, diz a mestre em políticas educacionais pela Universidade Harvard Ana Gabriela Pessoa, dona da EZ Learn, empresa de ensino a distância de inglês. “Independentemente da Copa e das Olimpíadas, inglês é a  língua mundial. É difícil se colocar no mercado de maneira competitiva sem dominá-lo.”

 

Para a coordenadora das disciplinas de língua estrangeira nas graduações da Unicamp, Inês Signorini, o problema transcende o aprendizado do idioma. “O déficit de falantes em inglês é a ponta do iceberg do problema maior, a qualidade da educação brasileira.”

 

Desinteresse. Fica difícil ter qualidade sem docentes bem formados, escassez ligada ao baixo apelo da carreira para os jovens.  “Tem poucos interessados em fazer licenciatura em faculdades públicas e as particulares estão jogando alunos com formação deficiente no mercado”, afirma  a professora do cursinho Anglo Sirlene Aparecida Aarão, doutora em Língua Inglesa pela PUC de São Paulo.

 

Problemas estruturais também prejudicam o aprendizado. Um exemplo é o fato de a lei só definir como obrigatório o ensino de idiomas estrangeiros a partir do 6.º ano do fundamental - época em que os alunos já têm, em média, 11 anos de idade. De quebra, no ensino médio muitas escolas incluem a alternativa do ensino de espanhol como língua estrangeira. Com isso, não se aprende bem nada, acredita Julio de Angeli, vice-presidente da Education First. Muitos alunos fazem espanhol por comodismo, pela semelhança com o português. Aprendem, no máximo, portunhol. “O inglês fica à margem.”

 

Talvez isso explique por que mesmos os jovens, acostumados a navegar nas redes sociais em que o inglês é requisitado a toda hora, tenham dificuldades com o idioma. Vagas para trainees e estagiários não são preenchidas por falta de candidatos que atendam ao pré-requisito de fluência em inglês. “O idioma continua sendo um filtro na seleção. Mais do que nunca, quem tem inglês fluente sai na frente”, diz Manoela Costa, gerente da consultoria de recrutamento Page Talent.

 

O apagão do inglês não poupa nem a elite do sistema educacional. Nas universidades, alunos com baixo domínio do idioma são regra, não exceção. Para o coordenador de Relações Internacionais da Unicamp, Leandro Tessler, esse quadro prejudica a produção científica brasileira. “Não vamos avançar no impacto de nossas pesquisas sem uma comunidade acadêmica fluente em inglês. Pesquisador que não sabe inglês está em desvantagem em relação ao que escreve e lê  bem.”

 

Foi pensando nas portas que o inglês poderia abrir que a relações públicas Maria Cecília Mantovanini Aguiar matriculou aos 3 anos a filha Ana Thereza,  hoje com 18, na Chapel School, na zona sul de São Paulo. Lá, as únicas aulas em português são de história e geografia do Brasil, língua portuguesa e  literatura. “Há 15 anos já se falava de globalização. Como falo inglês e meu marido também, sentimos que a educação bilíngue seria um plus para a Ana.”

 

Outra opção é a dos intercâmbios, que juntam ao aprendizado da língua a chance de conhecer de perto a cultura (e o sotaque) dos nativos do idioma. Mas se engana quem pensa que basta um mês no exterior para resolver problemas com o domínio do inglês, alerta o gerente de Marketing da agência Student Travel Bureau (STB), Samuel Lloyd. “Para potencializar o investimento, recomendamos que, antes de viajar, o aluno faça um curso no Brasil. As pessoas têm a ilusão de que só ficando um mês fora voltam falando, e isso não é verdade.”

 

A coordenadora do Senac SP Thaís Lisboa, de 32 anos, seguiu esse caminho. Antes de passar um mês em San Diego, Califórnia, em 2009, estudou inglês por um ano e meio. Aproveitou o período no exterior para conhecer a cidade e, nas visitas a museus, parques e restaurantes, puxar papo com moradores. “Queria praticar o  idioma com pessoas dali”, diz. “Senti a evolução quando voltei. Hoje, estou muito mais segura.”

 

De olho nas necessidades do público adulto, escolas de ensino do idioma têm apostado em programas de 18 meses, mais voltados para a expressão oral. O modelo virou, por exemplo, o principal negócio da rede Wise Up, que, no embalo da Copa e das Olimpíadas, pretende chegar a 3 mil unidades nos próximos cinco anos. “A maioria das pessoas que nos procuram precisa do inglês para melhor prestar seus serviços”, diz o diretor de pesquisa e desenvolvimento da Wise Up, Sérgio Barreto.

 

Gerente de recrutamento da rede de hotéis Estanplaza, Fabiano Orsini, de 35, investia em cursos de inglês desde a época da faculdade de Hotelaria, nos anos 90. A fluência na língua ajudou Orsini, que começou como recepcionista, a subir na empresa. Mesmo assim, não descuidou do idioma. Em janeiro, aproveitou as férias para fazer um curso em Londres. “Entrevisto candidatos a vagas no Estanplaza em inglês. Preciso manter a fluência.”

 

No trabalho, Orsini vê muitos currículos de candidatos que dizem ter inglês intermediário. “É uma palavra chata, que engana. A pessoa pode simplesmente dominar o inglês instrumental.” Segundo ele, estudantes de hotelaria e turismo não podem ser negligentes com o idioma. “Quem faz isso arrisca seu projeto de vida. Queremos profissionais que dominem inglês para melhor atender ao visitante. Assim, eles se tornam referência.”

 

Para o vice-presidente de Recursos Humanos do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil, Francisco Garcia, o turismo é a típica indústria na qual funcionários de todos os níveis deveriam aprender inglês. “Vamos receber muita gente para os eventos esportivos, mas não podemos esquecer dos estrangeiros que têm vindo em massa fazer negócios”, afirma.

 

Sedes da Copa. O governo federal está tentando minimizar o apagão do inglês oferecendo cursos básicos a quem lida diretamente com  turistas. Com investimento de R$ 17 milhões, o Ministério do Turismo selecionou 80 mil profissionais das 12 sedes de jogos da Copa para o Programa Olá,  Turista! Eles aprendem o idioma pela internet, em um curso de 80 horas.

 

Nelson Santonieri, gerente-geral de tele-educação da Fundação Roberto Marinho, parceira do governo na execução do programa, diz que o objetivo do Olá, Turista! é ensinar conceitos básicos. “Damos os fundamentos para introduzir os profissionais no espírito de uma nova língua, o que servirá de ponte para um acolhimento mais forte dos estrangeiros.”

 

Um dos beneficiados pela iniciativa é o agente da Polícia Federal Eduardo Pizzoli, de 43, que trabalha no setor de imigração do Aeroporto de Guarulhos. Ele fez curso de inglês na adolescência, mas sentia a necessidade de se aprimorar. “Já queria retomar os estudos, então o Olá, Turista! veio em boa hora. Estou atendendo melhor”, diz. “Lido com pessoas do mundo todo e o inglês é imprescindível. Quem tiver condições deve estudar a  língua.”

 

NÚMERO DE TURISTAS POR ANO EM SÃO PAULO E O EFEITO COPA

 

11,7 milhões

Em 2010, dos quais 1,6 milhão estrangeiros

 

15,8 milhões

Previsão para 2014

 

FRASES

 

"Acho que o índice não vai mudar muito em três anos. Mas a Copa e as Olimpíadas vão provar que o inglês é importante"

Júlio de Angeli, vice-presidente da EF

 

"A ideia não é que o garçom e a camareira saiam lendo Shakeaspeare, mas que se comuniquem de forma básica"

Francisco Garcia, do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil

 

"Fugi dos brasileiros para não perder o foco em aprender inglês naqueles 30 dias em San Diego"

Thaís Lisboa, coordenadora do Senac

 

BRASIL FICA EM 31º LUGAR EM RANKING DE DOMÍNIO DO IDIOMA

 

O Brasil ficou na 31ª posição entre 44 países que não têm o inglês como  idioma oficial. O Índice de Proficiência em Inglês foi elaborado após pesquisa feita pela empresa English First (EF) com mais de 2 milhões de pessoas entre 2007 e 2009. Foram aplicados testes online com cerca de 80 questões de gramática, compreensão oral, leitura e vocabulário.

 

INGLÊS AJUDA NA ASCENSÃO EM REDE DE HOTÉIS

 

Durante o curso de Hotelaria, nos anos 90, Fabiano Orsini começou a estudar inglês e nunca mais parou. Contratado como recepcionista em um hotel da rede Estanplaza em São Paulo, ele definiu como meta pessoal ser fluente no idioma. “O seu nível de domínio da língua afeta a forma como você atende ao turista. Quanto melhor você fala, mais atenção consegue dar ao visitante”, diz. “Assim, você acaba virando referência de serviço para quem vem de fora.” A desenvoltura no idioma ajudou Orsini a subir na hierarquia do Estanplaza. Hoje, aos 35 anos, ele é gerente de recrutamento e seleção da rede. Em janeiro, fez sua primeira viagem ao exterior e, mesmo em férias, aproveitou para estudar inglês. “Passei 15 dias em Londres para entender como o nativo fala a língua.”

 

ESCOLAS ESTADUAIS TÊM CENTROS DE IDIOMAS EM SÃO PAULO

 

Alunos da rede estadual de São Paulo podem estudar inglês no contraturno  desde o ano passado. Os estudantes recebem material grátis e têm três horas de aula por semana, em um curso de um ano.

 

Desde 1987, a Secretaria Estadual da Educação mantém o Centro de Ensino de Línguas. O centro tem 105 unidades, 20 delas na capital. Instalados em escolas de ensino médio, os centros atendem a cerca de 58 mil alunos por semestre. Além de inglês, os estudantes podem aprender, em cursos de três anos, espanhol, francês, italiano, alemão e japonês.

 

Segundo a professora de inglês Marta Unterleitner, que ensina na Escola Estadual Rui Bloem, em Mirandópolis, zona sul de São Paulo, o perfil dos alunos da rede pública mudou. “Antes, os estudantes questionavam a necessidade de aprender inglês. Hoje, dizem que não gostam da língua, mas sabem que precisam aprendê-la.”

 

Aluno do 3.º ano do ensino médio na Rui Bloem, André de Gennaro, de 17 anos, está aprendendo inglês. Seu objetivo é tirar notas boas no colégio, mas também se comunicar no idioma. “Um tio de minha namorada que mora nos EUA veio visitá-la e eu não consegui entrar na conversa.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.