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Para diretor, reforma do ensino médio deve atender alunos e não indústria

Miguel Thompson acredita que modelo atual não une as disciplinas de maneira estimulante

Entrevista com

Miguel Thompson, chefe executivo do Instituto Singularidades

Luciana Alvarez, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Miguel Thompson, chefe executivo do Instituto Singularidades, que dá formação superior para professores, defende que a reforma do ensino médio deve atender os estudantes e não o mercado ou a indústria.

O modelo atual é de fato ruim? 

Ele é fruto da visão enciclopedista do Iluminismo, que visava a acumular todos os conhecimentos. Hoje não responde às necessidades. As informações são fluidas, estão em todos os lugares. O mundo é complexo e a divisão por caixas de disciplinas, que traz uma visão fragmentada da realidade, não responde mais aos problemas. 

As trilhas podem ajudar? 

Cada vez mais as pessoas se conectam por relações emocionais, por gostos. Um exemplo é a Comic Con: os meninos estudam, pesquisam, se encontram para trocar ideias sobre quadrinhos, séries, cinema. Tem a moçada da batalha do passinho, das peças de Lego. Informalmente as pessoas se separam em grupos que buscam diferentes conhecimentos. E até agora a escola não os abrigou. É uma possibilidade positiva se a escola entender as culturas juvenis e partir delas. O problema é a flexibilidade ser usada para fornecer modelos focados nas indústrias. Para serem verdadeiras, as trilhas têm de responder aos interesses dos jovens. 

Eles têm maturidade para escolher? 

Os jovens têm determinados perfis. Eles precisam fazer um exercício de autoconhecimento e seguir o caminho que mais lhes agrada. Essas decisões não fecham o que vai ser a carreira porque uma coisa é a formação inicial, outra é a função social que a pessoa vai exercer. Por exemplo, eu sou biólogo e já fui executivo de Marketing. Pais e escolas têm de tirar o peso dessas decisões. Os jovens de hoje vão viver uns cem anos, vão mudar o rumo da carreira algumas vezes durante a vida. O gosto tem de ser o motivador porque, quando a gente faz algo de que gosta, faz bem. 

Como essa mudança no ensino afeta a rede particular? 

Nas escolas privadas, já é comum haver atividades à tarde, muito mais interessantes. Mas ainda há uma certa vergonha... Com a mudança, essas atividades podem ser incluídas na grade. Faz 20 anos que a lei fala em flexibilizar a oferta. Não se faz mais por uma questão cultural. O Enem, que supostamente veio para mudar, faz perguntas sob a perspectiva disciplinar. A gente precisa mostrar para as famílias porque é melhor, e ver o quanto isso vai custar.

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