FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Para diretor de Bacurau, redação do Enem sobre acesso ao cinema foi ‘inesperada’, mas 'positiva'

Kleber Mendonça Filho e outros cineastas brasileiros dizem ter se surpreendido com temática da prova

Milena Teixeira, Especial para o Estado

04 de novembro de 2019 | 00h12

SÃO PAULO - O tema da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 surpreendeu cineastas ouvidos pelo Estado. Este ano, o Ministério da Educação (MEC) sugeriu que os candidatos escrevessem uma dissertação sobre a democratização do acesso ao cinema no Brasil. A prova foi aplicada na tarde deste domingo, 3, assim como 90 questões de Linguagens e Ciências Humanas.

O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor de filmes como Bacurau, Aquarius e O Som ao Redor,  afirma que o tema foi "inesperado" devido ao atual cenário de "incerteza" vivido por quem trabalha com audiovisual no Brasil.

“Há uma movimentação que parece sugerir o desmonte do audiovisual. É muito curioso que a redação seja sobre esse tema, mas eu acho que foi um dia muito positivo para o cinema brasileiro”, disse o diretor. 

Responsável por levar seu último filme, Bacurau, para várias cidades do Brasil, o cineasta fala que é importante que estudantes discutam o acesso ao cinema no País.

“O que aconteceu com Bacurau foi realmente interessante. A gente fez parte do mercado mas tentou realmente exibir o filme onde outros lugares de grande exibição não chegam. Então, houve maior acesso. A gente consome muita coisa estrangeira e os jovens podem refletir sobre o que estão vendo”, declara. 

A  cineasta Anna Muylaert, diretora de filmes como Que Horas Ela Volta e Mãe Há Só Uma, disse que também ficou surpresa com o tema da redação. A roteirista ainda avaliou o assunto como “complexo”. 

“Primeiro lugar, eu achei surpreendente a partir do presidente eleito. Acho que o tema valoriza o cinema e instiga o aluno a pensar, especialmente porque questiona a democratização. Por outro lado, eu acho que o tema não é fácil, porque o aluno dessa faixa etária, de uma maneira global, ainda não tem uma direção para pensar sobre isso”, diz a diretora. 

Como Anna Muylaert, Felipe Barbosa, cineasta e diretor do filme Casa Grande, disse que a redação teve um tema complexo. Para ele, o assunto escolhido pelo MEC foi positivo porque  foi possível falar de diferentes áreas. 

“É difícil para um adolescente de 17 anos falar sobre o assunto, mas achei o tema maravilhoso. Dá para falar sobre educação e gerar interesse do aluno em cinema”, afirma. 

O cineasta Daniel Ribeiro, diretor do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, explica que um dos assuntos que poderiam ser explorados na dissertação é a questão da quantidade de salas de cinema que o Brasil tem. De acordo com o roteirista, há poucos espaços e, segundo ele, esses lugares são monopolizados pelo cinema americano. 

Outra questão que, conforme Ribeiro, também poderia ser usada na redação é o próprio acesso ao cinema. “Quem não tem acesso ao cinema certamente já pensou sobre essa questão, então, já tem a noção que o cinema é muito concentrado e elitista. Seria interessante que o estudante dissertasse sobre isso”, sugere. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.