EPITACIO PESSOA/ESTADÃO
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Pandemia acirra desigualdades educacionais no Brasil

Ideia da pandemia como ‘tempo perdido’ é realidade na educação brasileira, e algumas regiões sofreram ainda mais do que outras

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

24 de setembro de 2021 | 05h00

Na medida em que se acumulavam os dias, os meses e os semestres sem aulas presenciais, o que surgiu como percepção se tornou fato comprovado por dados e pesquisas. Para muitos estudantes, a pandemia foi um tempo perdido.

“Houve perda de aprendizagem mesmo, vemos isso nas avaliações. Não podemos ‘dourar a pílula’, precisamos encarar a situação do jeito que ela é para poder construir as soluções”, afirma Priscila Cruz, presidente executiva da organização Todos pela Educação. É uma fala que reflete o consenso entre especialistas sobre os prejuízos que a pandemia causou no sistema educacional do País.

Em São Paulo, por exemplo, estima-se que serão necessários de 1 a 11 anos para recuperar o aprendizado em português e matemática na educação básica da rede pública.

Para medir o impacto, foram aplicadas provas a 20 mil estudantes do 5º e do 9º ano do ensino fundamental, e do 3º ano do ensino médio. Foi constatada uma queda geral de aprendizagem na comparação de 2019 com 2020, sendo o prejuízo maior em matemática e mais evidente no início do ensino fundamental, com alunos mais novos. E isso é em São Paulo, um dos Estados que mais se estruturou para o atendimento remoto. País afora, a realidade tende a ser mais cruel.

“As perdas constituem a parte mais evidente da pandemia. Mas a gente não precisava perder mais em alguns lugares do que outros. Mas isso está acontecendo. Vamos perder aprofundando as desigualdades regionais”, explica Vitor de Angelo, secretário de Estado da Educação do Espírito Santo e também presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação, o Consed.

“As desigualdades que já existiam, de natureza econômica, terão sido decisivas para criar outra camada de desigualdade, só que agora na educação. Um cenário que vem a desfavor do Norte e do Nordeste, que já são regiões com muitos desafios sociais”, diz Angelo.

Pesquisas corroboram essa desigualdade educacional. O relatório Retratos da Educação no Contexto da Epidemia do Coronavírus – Um Olhar sobre Múltiplas Desigualdades, publicado por um grupo de entidades que incluem a Fundação Lemann, a Fundação Roberto Marinho e o Itaú Social, mostra que muitos estudantes sequer tiveram acesso ao ensino durante a pandemia.

De acordo com o documento, 98% dos estudantes com renda familiar superior a cinco salários mínimos tinham acesso a computadores com internet. O índice cai para 74% entre aqueles com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos e despenca para 30% em famílias com renda de até dois salários mínimos. O estudo também mostra que, em 2020, 90% dos alunos da rede privada do ensino médio participaram de aulas remotas mediadas por professores. Na rede pública, o porcentual cai para 35%.

O que se vê agora, nesse contexto com desigualdades educacionais ampliadas, é o retorno do modelo presencial de maneira irregular, com datas e formas de retomada definidas isoladamente por cada Estado e implementadas desigualmente nos municípios.

“Na medida em que as redes estaduais têm retomadas diferentes, o produto disso, em termos de País, é uma educação que vai sair torta no final”, acredita Angelo, do Consed. Um descompasso que reflete a falta de coordenação e suporte do governo federal. “Não há uma instância, um fórum que olhe nacionalmente. O Consed, por exemplo, é um arremedo. Tentamos ir o mais longe possível, mas não é um ato voluntarista. A gente não tem orçamento, não tem capilaridade, não tem base jurídica e nem instrumentos técnicos.”

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