Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Palestra sobre gênero em tradicional escola de SP cria polêmica

Evento com Drauzio Varella motiva críticas ao Colégio São Luís na internet; reitor diz ter apoio de pais e confiança da Arquidiocese

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2017 | 03h00

Uma palestra sobre gênero e sexualidade oferecida aos pais de alunos do Colégio São Luís, tradicional escola católica da capital, provocou polêmica nas redes sociais e fez a instituição de 150 anos ser alvo de críticas de internautas, que chegaram a organizar um abaixo-assinado online contra o evento. A repercussão levou o reitor do colégio, padre Carlos Alberto Contieri, a enviar uma carta aos pais, prestando esclarecimentos, mas ressaltando que a atividade seria mantida.

O convite para a palestra, ministrada pelo médico Drauzio Varella, foi publicado na página do colégio no Facebook na segunda-feira. O evento faz parte de uma série de conferências voltadas para pais de estudantes do 6.º ano do ensino fundamental ao 3.º ano do ensino médio sobre temas diversos, como bullying, drogas e internet. O colégio tem mais de 2,5 mil estudantes. 

Após a postagem do evento, alguns internautas começaram a acusar o colégio de promover a chamada ideologia de gênero. As críticas, no entanto, eram minoria. A maioria dos mais de 2 mil comentários era de pais de alunos parabenizando o colégio pela iniciativa e reprovando o posicionamento dos que discordavam do evento. 

As críticas, porém, não ficaram restritas às redes sociais. No site O Fiel Católico, ligado à Fraternidade Laical São Próspero, um texto fazia a mesma acusação ao colégio e criticava Varella. Pedia que os católicos incomodados enviassem e-mail para a Arquidiocese de São Paulo, solicitando que o evento fosse cancelado.

Os críticos também criaram uma petição online endereçada à Rede Jesuíta de Educação e à Comissão de Cultura e Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nela, afirmam que a palestra vai “promover a agenda de gênero – cultura de morte, assim são João Paulo II chamava –, que já foi condenada pelo Santo Padre o Papa Francisco, por atacar à identidade humana naquilo que o ser humano tem de mais belo, a sexualidade”. 

Até as 23h30 desta quinta-feira, a petição já contava com 1,8 mil das 2 mil assinaturas almejadas pelos organizadores.

Resposta

Na carta elaborada pelo reitor e enviada aos pais na noite desta quinta, em resposta às queixas, o padre Carlos Alberto Contieri destaca que não há intenção de tratar de ideologia de gênero e critica os internautas que puseram o colégio como alvo. “Todos sabemos que os humanos são uma espécie que se divide apenas em dois gêneros, por razões genéticas. Portanto, a palestra não tratará de ideologia de gênero, apenas de questões que afetam a vida humana, especialmente os jovens, relacionadas à sexualidade”, disse. “O apoio declarado ao evento supracitado, vindo de todas as partes, é infinitamente maior do que o ataque rancoroso, agressivo e ofensivo oriundo de um grupo ‘sem rosto’ que talvez pretenda uma religião sem Deus e a fé cristã sem o Evangelho da Misericórdia.”

Em sua mensagem, o reitor utiliza o conceito de um historiador italiano para definir os grupos que atacaram o colégio como “cibermilícias católicas”. Ao Estado, ele diz que todas as críticas vieram de pessoas não ligadas ao colégio. “Não registramos nenhuma reclamação de pais, alunos ou ex-alunos. Os ataques vêm de fora, de pessoas que não falam a verdade e não são capazes de mostrar o rosto nem sua verdadeira identidade”, afirmou ele, referindo-se a supostos perfis falsos no Facebook.

Ele contou que, com a repercussão, foi procurado pelo bispo auxiliar de São Paulo e vigário episcopal para a Educação, dom Carlos Lema Garcia, para dar esclarecimentos. “Acordamos que manteríamos o assunto em pauta e o encontro. A Companhia de Jesus goza de confiança e de credibilidade. Jamais faríamos algo que contrariasse a Igreja”, disse o reitor. 

Em grupos de WhatsApp de pais de alunos, a palestra tinha apoio maciço, segundo um pai ouvido pelo Estado, que não quis se identificar. “Essas palestras são promovidas há anos e costumam ser interessantes. Não vi nenhuma manifestação negativa nos grupos. Pelo contrário, os pais ficaram revoltados com as críticas porque queriam ter a oportunidade de ver a palestra”, contou ele.

Contieri afirmou que o apoio foi “tão grande” que as 300 vagas oferecidas para a palestra de Varella se esgotaram rapidamente e tiveram de ser ampliadas para 500.

Procurado pelo Estado, o diretor do O Fiel Católico, Henrique Sebastião, afirmou, em nota, que a palestra incomodou o grupo porque, em sua opinião, a rede pública já está "completamente tomada por professores ideologizados" contra a igreja e a família e a alternativa que alguns pais vinham buscando era matricular os filhos em colégios pagos para "livrá-los deste mal". "Aí vem um colégio católico promover um evento que de fato será, claramente, uma apologia à ideologia de gênero, já que o palestrante é um dos seus principais promotores", declarou.

Sebastião afirma que a intenção do grupo não é promover discurso de ódio nem se intrometer na vida privada de quem quer que seja, mas, sim, combater "ideias perniciosas". "Insiste-se incansavelmente na ideia de que é muito importante trazer essa questão do gênero para o 'debate', mas isto já foi debatido e a população brasileira, em sua esmagadora maioria, manifestou-se contrária. O Plano Nacional de Educação, por exemplo, após uma série de manifestações populares, retirou do seu corpo o termo 'gênero'", afirmou.

 

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