Marcio Fernandes
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Pais tentam ‘driblar’ alta de mensalidades

Aumento médio no Estado ficou em 12%, segundo sindicato; descontos e bazar de uniformes estão entre medidas para atenuar reajustes

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Antes mesmo de o ano virar, famílias começam a fazer as contas para encaixar as mensalidades escolares no orçamento. Levantamento do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp) mostra que o aumento médio das mensalidades no Estado ficou em 12%. Na capital, pesquisa feita pelo Estado em 20 escolas particulares mostra que o reajuste ficará em 14%. Os aumentos estão acima da inflação – o acumulado dos últimos 12 meses chegou a 10,48% em novembro, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

“As escolas sabem que não podem fazer um reajuste muito alto, caso contrário, perderão alunos. Mas o contexto financeiro deste ano e a perspectiva para o próximo fizeram com que a alta ficasse um pouco acima da inflação”, afirma Benjamin Ribeiro Silva, presidente do Sieeesp.

Para Silva, os custos das escolas foram influenciados pelo o aumento de salários dos professores, de 11%; dos serviços (como manutenção), em 12%; e o reajuste das tarifas de água e luz. “O mercado de escolas particulares é muito consolidado, os pais não aceitam reajustes abusivos. Se sentem que isso aconteceu, eles trocam de escola”, diz. 

Dessa forma, a melhor saída ainda é negociar com o colégio – além de tentar economizar com outros itens, como material escolar e uniformes.

Com dois filhos matriculados no colégio Santa Maria, no Jardim Marajoara, zona sul da capital, Luciana Grandmaison, de 43 anos, diz que economizar com os gastos educacionais já se tornou um hábito na família, mas sem prejudicar a qualidade do ensino dos filhos. Desempregada há um ano, ela planeja procurar a escola para conseguir um desconto nas mensalidades, que para o próximo ano terão reajuste de 14%.

“Gosto muito da escola e os meninos também. Mas estou preocupada com o próximo ano. Nossa prioridade é a educação deles, por isso, vou tentar negociar”, conta.

Ações. As escolas também ajudam a dar uma mãozinha no orçamento com ações para a troca de materiais escolares e até de uniformes. Luciana disse que o bazar de livros no colégio Santa Maria já a ajudou a economizar muito com os dois filhos.

“No ano passado, de uma lista de 24 livros que precisava comprar para um dos meus filhos, 19 eu encontrei no bazar. Paguei R$ 3 por livros que custariam mais de R$ 50. Também não compro uniformes para os meninos mais, só troco.”

Na escola Santi, no Paraíso, zona sul, a direção também promove uma feira para a troca de materiais e uniformes. Cada aluno pode trazer suas peças, em bom estado, e depositá-las nos postos de arrecadação. De acordo com a direção, a feira estimula os alunos e pais a pensarem de forma sustentável.

Seguro.  Prevendo uma piora no cenário econômico, o colégio Humboldt, em Interlagos, na zona sul de São Paulo, incorporou o seguro-desemprego na mensalidade de todos os alunos – antes, era opcional. O reajuste lá foi de 12,6%.

O seguro pode ser acionado por até seis meses, caso um dos responsáveis pela criança fique desempregado, por exemplo. Neste ano, apenas sete pais acionaram o instrumento.

“O número foi baixo, mas, para o próximo ano, esperamos que aumente um pouco, porque há um acúmulo dos reflexos da crise para as famílias. Mas não nos preocupamos, porque temos o seguro e não devemos ter problema com a inadimplência”, diz Harold Groenitz, diretor executivo do Humboldt.

De acordo com levantamento do Sieeesp, a inadimplência média no Estado em 2015 foi a maior dos últimos cinco anos. Em setembro, dado mais atual, 8,82% dos pais estavam com mensalidades atrasadas. No mesmo mês do ano passado, o índice era de 7,44%.

Educação financeira entra na grade e surpreende alunos

Há dois anos, Vitória Hergolin, de 16, ganhou um cartão de crédito com a conta vinculada à da mãe. Mas ela só teve noção do quanto gastava neste ano, quando começou a ter aulas de educação financeira no colégio Mary Ward, onde estuda, na zona leste da capital.

“Eu nunca passei do limite, mas não fazia ideia dos gastos. Na aula de educação financeira que eu percebi o quanto é difícil administrar os gastos”, diz.

O colégio oferece aulas dentro da grade curricular sobre finanças, com o objetivo de mostrar aos alunos a aplicabilidade de alguns conceitos de matemática e economia.

Ana Maria Magri Andolfato, professora da disciplina no colégio Pio XII, na zona sul, afirma que a maioria dos alunos chega ao ensino médio sem ter noção do valor do dinheiro.

Por isso, a escola começou a oferecer aulas de educação financeira uma vez por semana. “Os alunos fazem uma tabela para calcular o quanto custam por mês aos pais. A maioria se assusta”, diz Ana.

Aluno do Pio XII, Leonardo Honório Crelier, de 16 anos, está, desde pequeno, acostumado a controlar os gastos. Tem dinheiro aplicado em ações e discute com o pai o melhor investimento. “A decisão final é do meu pai, mas a gente conversa antes.”

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