Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

País tem dificuldade para identificar e desenvolver alunos ‘superdotados’

Estudo encomendado pelo MEC aponta falta de infraestrutura, material pedagógico, formação de professores e até de transporte para atender corretamente os estudantes; Brasil tem 10 mi de pessoas com altas habilidades, a maioria sem diagnóstico

Luiz Fernando Toledo, Impresso

08 Abril 2018 | 03h00

Os gêmeos Felipe e Mariana Bagni, de 17 anos, nunca tiveram uma aula de música na vida. Mas, em poucos meses, desenvolveram um robô capaz de ler partituras e tocar, na íntegra, o tema de Star Wars em um teclado. Para tanto, foram pesquisar na internet. Programar nem era tão difícil, já que a dupla adquiriu a habilidade ainda no ensino fundamental. Eles participam de um grupo seleto do Colégio Objetivo Integrado, na região central de São Paulo, que identifica, desde os anos iniciais, estudantes que tenham altas habilidades – também conhecida como superdotação.

Este tipo de ação de identificar e preparar alunos com altas habilidades ainda é uma rara exceção. Segundo avaliação de uma consultoria a pedido do Ministério da Educação (MEC), a qual o Estado teve acesso, o Brasil está muito longe de identificar quem são esses alunos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados no documento, a estimativa mais conservadora aponta que 5% da população brasileira – ou 10 milhões de pessoas – são superdotados.

O porcentual já foi confirmado, na prática, por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista. O Censo Escolar, porém, registrava até 2016 só 15,9 mil pessoas com altas habilidades na educação básica – a maioria (15,7 mil) em classes comuns, ante 244 em exclusivas. O País tem 48,8 milhões de estudantes.

Mesmo quando os identifica, diz o relatório, o País tem um “grave problema de infraestrutura” para atendê-los. Faltam professores preparados e há “estrutura inadequada quanto ao tamanho, ventilação e iluminação”, além da “impossibilidade de atendimento e de oferta de cursos de capacitação no turno noturno”.

A análise foi encomendada pelo MEC em 2017 para avaliar as ações em todo o País dos Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (Naah/S), equipamentos públicos sob responsabilidades dos Estados, com apoio financeiro do governo federal. A proposta era criar um cadastro nacional desses alunos, finalizado no início deste ano, bem como oferecer formações para professores e equipamentos para as atividades.

Diferentes legislações tratam do atendimento para esses estudantes. A mais recente delas é uma alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 2015, que inclui um artigo que obriga Estados, Distrito Federal e municípios a estabelecerem “diretrizes e procedimentos para identificação, cadastramento e atendimento, na educação básica e na superior, de alunos com altas habilidades ou superdotação”.

Em São Paulo, por exemplo, uma resolução da Secretaria Estadual da Educação (SEE) prevê, desde 2012, “aprofundamento e/ou enriquecimento curricular” em horário de aula ou turno diverso, processo de “aceleração” dos estudos e também “possibilidade de matrícula em ano mais avançado”. Apesar da determinação, no entanto, o estudo aponta que o mais comum é que os pais consigam avançar os estudos do filho apenas por meio de decisões judiciais.

Dificuldade

Na prática, a identificação, tanto na rede pública quanto na privada, ocorre quando um professor ou os pais desconfiam do comportamento do estudante e pedem uma avaliação. Foi o que ocorreu com o filho da pediatra Paula Sakae. “Ele aprendeu a ler com menos de 4 anos”, conta. Aos 7 anos, o menino tinha atritos constantes com professores e colegas. “Cheguei a levá-lo a um psicólogo.

Foi só depois de diversas tentativas que a mãe encontrou, pela internet, a possibilidade de fazer um teste em uma entidade privada na zona sul da capital, a Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação. Após o diagnóstico, o menino passou a ter encontros semanais com outras crianças também identificadas como superdotadas, para desenvolver habilidades de concentração e trabalho em grupo. “Uma minoria das escolas tem interesse em atender. Infelizmente o Brasil joga seus talentos no lixo.”

Especialista em educação em altas habilidades na Unesp, Vera Capellini conta que a área ainda é nova no Brasil, mas que a literatura aponta que a falta de atendimento adequado pode levar a processos de bullying e até depressão. “O aluno não vê sentido em ficar na escola. Se a criança tem uma habilidade acima da média e nunca ninguém a observou, é muito provável que ela estacione e nunca venha a contribuir de maneira significativa para a sociedade.”

Para a presidente da Associação Paulista Para Altas Habilidade/Superdotação, Ada Toscanini, os colégios têm dificuldade de ligar com as exceções. “Escolas, em geral, têm em mente uma educação massiva, mas não entendem os extremos.”

Em nota, a SEE diz que “foi pioneira na implementação da educação especial” e a cada ano amplia o atendimento. O governo afirma que há capacitação de docentes e salas de recursos especializados no contraturno, além de um serviço itinerante em que o professor especialista vai à unidade ajudar um aluno. Apesar das ações apontadas, a rede relata, hoje, só 649 estudantes identificados com altas habilidades. O Estado tem uma rede de 3,5 milhões de alunos.

Como identificar altas habilidades

1. Criatividade aguçada: a criança é curiosa e sempre quer “esgotar” os assuntos que tem interesse.

2. Inquietação na escola: nem sempre o aluno tem boas notas. Isso depende do interesse na aula.

3. Desempenho acima da média: a alta habilidade não precisa aparecer necessariamente em uma disciplina. Pode se manifestar, por exemplo, na música.

4. Avaliação: os testes de QI caíram em desuso. Hoje, as avaliações são globais, com entrevistas com pais e até atividades lúdicas.

 

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Garoto 'superdotado' chegou a ser medicado por transtorno de comportamento

Escolas o tratavam como indisciplinado ou hiperativo e ele só foi identificado como alguém com altas habilidades aos 7 anos; hoje, aos 15, ainda enfrenta falta de apoio no ensino

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2018 | 03h00

A líder de limpeza Luzia Ribeiro dos Santos, de 39 anos, frequentou reuniões semanais na escola do filho durante anos para tratar de questões de indisciplina até descobrir que ele tem altas habilidades. O garoto, hoje com 15 anos, chegou a ser diagnosticado com transtorno de comportamento por um psiquiatra de um hospital público e a tomar remédios de faixa-preta. 

Também foi confundido com uma criança com hiperatividade – problema apontado no relatório do Ministério da Educação sobre as dificuldades que existem no Brasil hoje para identificar e desenvolver alunos superdotados. Desde os 6 anos, entra em atrito com colegas e até mesmo com professores. “Ele era muito agitado e até um pouco agressivo”, relata Luzia. Até um abaixo-assinado foi feito contra o menino. “Achavam que era falta de disciplina, um problema de família.”

Por sugestão da escola municipal onde estudava, a mãe procurou a Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação para realizar testes para identificar superdotação – processo que só se efetivou quando o garoto já tinha 7 anos. No entanto, mesmo com o diagnóstico, diz ela, o colégio não mudou a abordagem. “Não havia profissionais preparados para trabalhar com ele.”

O problema na escola se estendeu até o último ano do ensino fundamental. E continua até hoje, com o adolescente já matriculado em uma escola estadual no extremo sul da capital paulistana, onde cursa o ensino médio. “Não tem nenhum apoio. Ele só está lá porque não posso deixá-lo fora da escola. Se pudesse, o deixaria nas mãos de pessoas realmente preparadas.”

Luzia afirma que entregou todos os laudos do filho no início de 2017. Procurada, a Secretaria Estadual da Educação diz que não recebeu o documento. A pasta e a Secretaria Municipal de Educação informaram que não receberam o laudo que identifica altas habilidades no aluno. A entrega do documento não é obrigatória por lei.

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MEC quer desenvolver cadastro nacional de estudantes 'superdotados'

Diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação, Patrícia Raposo, explica objetivos do estudo sobre atendimento a estudantes com altas habilidades no Brasil

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2018 | 03h00

A diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação, Patrícia Raposo, disse ao Estado que o objetivo do estudo foi cumprido: entender melhor a situação dos núcleos de atendimento e desenvolver o cadastro nacional. Como resultado, foram desenvolvidas ações de formação de professores e também aquisição de kits de robótica.

Por que o estudo foi feito?

Uma mudança na LDB em 2015 previa um cadastro de altas habilidades para estudantes da educação básica e superior. Quando chegamos aqui, em 2016, soubemos que isso ainda não havia sido implementado. O resultado da consultoria ajudou a conhecer como está sendo a identificação e o atendimento desses estudantes, levantando subsídios para a elaboração do cadastro.

Todos os Estados têm núcleo de atendimento hoje?

Segundo a pesquisa, há tanto organizações da sociedade civil quanto instituições de ensino superior com projetos para a comunidade. Dados de 2017 apontam que pouco mais de 30% dos estudantes com altas habilidades matriculados nas redes pública e privada têm atendimento educacional especializado. O número é pequeno, mas convergente com dados gerais da educação especial. Os dados apontam que 46% dos professores que realizam esse atendimento têm formação em educação especial, mas não se sabe se são especializados em altas habilidades.

O governo federal dá apoio financeiro a esses núcleos?

Os Estados são os responsáveis por manutenção e funcionamento dos núcleos, mas o governo federal fornece apoio contínuo. O atendimento especializado se caracteriza como uma segunda matrícula do estudante e, portanto, o Estado acaba recebendo mais recursos. Também cabe ao MEC oferecer apoio por meio de programas ou ações próprias. No ano passado, solicitamos aquisição de equipamentos de robótica educacional para todos os núcleos, que os alunos deverão receber em breve.

Existe alguma metodologia única para identificar os alunos com superdotação?

Não. São diferentes métodos, fundamentados por diferentes linhas teóricas. É claro que há algumas mais utilizadas, com reconhecimento nacional e internacional, e são essas que devem subsidiar a identificação e o trabalho pedagógico.

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Reconhecer altas habilidades de estudantes é o maior obstáculo

Unesp de Bauru desenvolve projeto para identificar e estimular os ‘superdotados’

Luiz Fernando Toledo, ENVIADO ESPECIAL

08 Abril 2018 | 03h00

BAURU - Entre as falhas apontadas pelo estudo encomendado pelo Ministério da Educação (MEC) está a confusão no reconhecimento de uma criança com altas habilidades. O relatório aponta que há “ausência de técnicas mais modernas para identificação” desses estudantes, fazendo com que pessoas com superdotação sejam confundidas com outros diagnósticos, como déficit de atenção, hiperatividade, transtorno desafiador opositor, entre outros.

Segundo o documento, há “descrédito dos professores na superdotação apresentada pelos alunos”, por causa do despreparo dos profissionais das escolas regulares para lidar com a área, bem como falta de prioridade nos municípios.

O relatório estabelece 12 principais problemas no atendimento oferecido pelos serviços públicos de altas habilidades no Brasil. Entre eles estão a falta de material didático-pedagógico adequado e a ausência de equipamentos e de recursos tecnológicos, além de poucos profissionais capacitados. Há até dificuldade em locomover os alunos para essas salas de recursos, o que seria motivo para eles não participarem de atividades.

Estudo

O despreparo para descobrir e tratar os alunos adequadamente foi analisado pela professora Vera Lúcia Capellini, do Departamento de Educação da Unesp em Bauru. A especialista investigou, a partir de 2003, se as escolas de educação básica do município atendiam alunos com superdotação. “Descobri que não havia nenhuma identificação nem atendimento.” Dez anos depois, em 2013, a pesquisa se repetiu. A situação continuava igual.

Foi aí que a Unesp, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e o governo do Estado, deu início a um projeto-piloto de identificação e atendimento a esses estudantes. A professora analisou um colégio de periferia com 289 alunos e, entre eles, 11 foram identificados com altas habilidades, por meio de uma avaliação multimodal, que utiliza diferentes instrumentos pedagógicos e psicológicos.

O resultado – 3,8% do total – indicou proximidade dos 5% de superdotados apontados pela Organização Mundial da Saúde em qualquer população. “Comprovamos que qualquer escola, mesmo na periferia, pode ter esses alunos”, diz Capellini. A especialista quer tentar expandir as avaliações para todas as escolas do município nos próximos anos.

Como ainda não foi possível ampliar o atendimento, os pesquisadores decidiram dar início a um projeto de extensão universitária atendendo à demanda espontânea. Se um pai desconfia que o filho possa ter altas habilidades, pode solicitar os testes na instituição.

Atendimento

As atividades ofertadas para as crianças identificadas com altas habilidades vão de ioga a aulas de música e robótica, dependendo da área em que se destacam e têm interesse.

A auxiliar-geral de produção Niegin Prado, de 29 anos, recebeu de um professor a suspeita de que seu filho, Symon, de 10 anos, poderia precisar de acompanhamento para altas habilidades. Após mais de um mês de testes na Unesp em Bauru – que incluem até um extenso questionário com os pais –, o menino começou a fazer um acompanhamento semanal no local. “Sempre percebi que ele tem um gênio muito forte e se foca muito nas coisas que pensa e gosta, além de facilidade para decorar.”

A vendedora Michelle Mendonça, de 36 anos, também leva a filha Maria Clara, de 10 anos, para atendimento na universidade há um ano, por indicação de uma professora de artes que identificou grande facilidade da garota para desenhos. Após os testes, descobriu-se que também tem altas habilidades em escrita. “Eles ficaram mais focados e sabem lidar melhor com atividades em grupo”, conta Niegin. 

As principais irregularidades apontadas pelo relatório do MEC:

1 - Falta de espaço físico adequado e material didático-pedagógico

2 - Falta de mecanismos de manutenção, suporte técnico para reposição e recursos para aquisição de equipamentos e tecnologia compatíveis com nível de desenvolvimentos dos alunos

3 - Falta de profissionais capacitados

4 - Dificuldade de locomoção dos alunos até a sala de recursos; alunos deixam de participar por não ter transporte

5 - Não há financiamento para contratar recursos para projetos de enriquecimentos em áreas específicas;

6 - Falta de fiscalização, supervisão e regulamentação nos municípios

7 - Escolas se negam a prestar atendimentos específicos, sobretudo sobre aceleração; maioria dos casos é realizada por meio de liminar

8 - Descrédito dos professores na superdotação apresentada pelo aluno

9 - Formação de professor ineficaz

10 - Confusão no reconhecimento de uma criança que tem altas habilidades com outros diagnósticos, como déficit de atenção e hiperatividade

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