País tem baixa participação no ensino médio, diz analista britânico

Michael Davidson, que trabalhou por 20 anos no serviço de estatísticas do governo do Reino Unido ? nos últimos dez anos, com estatísticas sobre educação ?, atua agora no Departamento de Educação da OCDE e processou grande parte dos indicadores financeiros contidos no relatório de 2003. Ele falou com exclusividade ao Estado, de Paris, sobre os dados referentes ao Brasil no documento Education at a Glance - 2003, da OCDE.A seguir, os principais trechos:Estado - O Brasil tenta se aproximar de países como Coréia, Espanha e Irlanda nos indicadores sociais, para não perder competitividade no mercado mundial, mas o relatório mostra que14 entre 19 países da OCDE postos em comparação elevaram em pelo menos 5% seus investimentos em educação entre 1995 e 2000. Além disso, 20 entre 21 países comparados tiveram alta na expectativa de permanência dos estudantes no ensino formal. Devemos concluir que o Brasil está ficando ainda mais para trás?Michael Davidson - Sim, há evidências de que, na média, o gap entre o Brasil e os países da OCDE está aumentando. O Brasil tem taxas de expectativa de vida escolar mais baixas que a média e isso pode ser atribuído em grande parte à baixa participação no ensino médio: só 26% dos brasileiros de 25 a 64 anos chegaram a este nível. É um dos porcentuais mais baixos entre os países comparados (no relatório) e bem abaixo da média da OCDE, de 64%. Não há dúvida de que o quadro é influenciado pela idade relativamente baixa com que as pessoas encerram o ensino fundamental. As estatísticas mostram que os brasileiros estão hoje chegando ao ensino médio em maior número do que antes, mas o progresso é menor do que em outros países. Na Coréia, entre a população de 25 a 34 anos, 98% concluíram o ensino médio, o que é o dobro das pessoas de 45-54 anos com o mesmo grau de escolaridade, que chegam a 49%. No Brasil, estes porcentuais são, respectivamente, de 31% e 23%.Estado - E isso reflete o investimento financeiro em educação? Davidson - O nível de investimento brasileiro em educação por estudante nos ensinos fundamental e médio é muito baixo se comparado à média da OCDE, o que contrasta com os gastos no nível superior, muito acima da média da OCDE. De modo geral, quando os gastos em educação são examinados em porcentagens do PIB, o Brasil chega perto da média da OCDE: os investimentos públicos dos níveis fundamental ao superior representam 3% do PIB, contra uma média de 3,4% da OCDE. Esses dados contrastantes são atribuídos em parte à juventude da população brasileira, onde 21% tem de 5 a 14 anos, 11% de 15 a 19 e 18% de 20 a 29. Isso empurra os indicadores de gastos por estudante para níveis relativamente baixos. Quanto à capacidade de investimento de cada país, ilustrada através dos gastos por estudante relacionados ao PIB per capita, o Brasil está bastante abaixo da média da OCDE e com baixas taxas de crescimento, apesar de ter um PIB per capita acima do de outros países em desenvolvimento. A capacidade de encontrar recursos para a educação é claramente mais desafiadora.Estado - Maior escolaridade representa maior renda para cidadãos de países da OCDE. Isso continua valendo para os países em desenvolvimento, onde maior escolaridade costuma representar apenas a chance de substituir um trabalhador menos qualificado num emprego de baixo salário? Davidson - Isso também parece ser verdade no Brasil. Apesar de não existirem dados neste relatório, outro estudo ? na base de dados de 1999 ? mostra que a renda aumenta a cada nível educacional atingido, com os níveis (de ensino) médio e superior representando marcas significantes. O que nós não sabemos ? para países membros e não-membros da OCDE ? é como esses ganhos variam com o tempo. Você está certo em enfatizar que o nível de escolaridade é uma vantagem na procura por emprego. De fato, homens e mulheres com nível médio ou superior completos têm uma taxa de desemprego mais baixa que a de seus colegas com baixos níveis de escolaridade. No entanto, uma forte característica do Brasil é que esse tipo de relação ? que é um padrão típico nos países da OCDE em todos os níveis de educação ? não se aplica a pessoas que não passaram da quarta-série do ensino fundamental, onde a taxa de desemprego tende a crescer com a escolaridade. Economistas do trabalho geralmente vêem esse padrão como característica ?dual? das economias em desenvolvimento. Isto é, onde existem redes de pobreza social, pessoas com nenhuma ou muito baixa escolaridade não têm outra chance senão trabalhar ? mesmo que no setor informal ? enquanto aquelas com maior escolaridade (ainda abaixo da quinta-série) têm maiores expectativas e, às vezes, preferem ficar desempregadas até conseguirem um bom trabalho no setor formal.Estado - China e China e Sudeste Asiático enviam a maior parte dos estudantes extra-OCDE que atualmente vivem nos países-membros da OCDE. Por que os estudantes de países asiáticos em desenvolvimento são mais numerosos ali do que os sul-americanos? Davidson - Não há uma resposta definitiva, mas alguns fatores estão envolvidos, como a oportunidade e custos da educação superior no países dos estudantes (nós já notamos o alto custo do ensino superior no Brasil), as capacidades lingüísticas dos estudantes (países de língua inglesa tendem a ser preferidos como destino dos estudantes) e aspirações profissionais (em qual país o estudante pretende procurar emprego). Outros fatores podem ser a existência de relações comerciais entre países (estudantes asiáticos estudam principalmente em países com os quais seus países têm fortes laços comerciais) e a mistura racial nos países hospedeiros (existem grandes comunidades asiáticas na maioria dos países da OECD, tornando a adaptação e a busca por informação mais fácil para potenciais estudantes estrangeiros).

Agencia Estado,

06 de outubro de 2003 | 16h54

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