Colégio Brasil Canadá
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Na hora de escolher a escola, pais devem observar valores ensinados nos colégios

Para quem busca mais do que desempenho acadêmico para os filhos, há uma variedade de inclinações filosóficas entre as instituições, que vão de visão humanitária à religião

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 07h25

Entre as escolas particulares da cidade de São Paulo, há muitas que abraçam valores morais, éticos e, às vezes, religiosos de forma enfática. Incentivam trabalhos voluntários, incluem no currículo temas como respeito ao próximo, acrescentam na sua missão principal fatores para além das aprendizagem acadêmica, como a promoção de justiça social e da cultura de paz. Outras instituições não abordam a questão de valores de forma tão clara, preferindo dar destaque para seu papel de levar aos estudantes os conhecimentos acadêmicos acumulados pela humanidade.

O comerciante Alexandre de Almeida Alarcon se encontra neste momento em um “dilema” sobre onde matricular o filho para o ensino médio. Aos 15 anos, Gabriel é um atleta de alto rendimento da natação e treina todas as tardes. “A escola em que ele está tem um lado social muito forte, o que eu gosto muito. Vejo que ela forma pessoas para o bem. Mas, no ensino médio, ela passa a ter alguns dias com tempo integral, o que atrapalha os treinos”, conta. 

A alternativa que se encaixa para a família Alarcon em termos de mensalidade, localização e horário, fica devendo na questão dos valores. “É uma escola boa no lado acadêmico, mas apenas, sem o enfoque nos valores. Ainda não decidimos o que fazer”, explica o pai.

Natural. Seja qual for a proposta pedagógica, uma escola sempre tem alguns valores, afirma César Nunes, professor de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Toda escola, assim como qualquer instituição social, tem um certo conjunto de valores em seu substrato. Quando nos estabelecemos como uma sociedade, estabelecemos também alguns valores comuns de cidadania, dignidade, respeito”, explica o professor da Unicamp. 

Juntamente com esses conceitos, há também os determinados nas leis que regem a educação brasileira: a Constituição de 1988, os diversos parâmetros curriculares e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de 2018, que define os direitos de aprendizagem desde a etapa infantil até o ensino médio. “Para seguir essas determinações, todos os colégios têm de se pautar pela tolerância, pela liberdade”, cita Nunes. 

No dia a dia das escolas, contudo, o educador reconhece que os valores previstos em leis ou mesmo aqueles prometidos nos projetos pedagógicos podem acabar sendo deixados de lado. “Tem escola que se diz preocupada com o meio ambiente, elabora projetos, mas faz uso desbragado do plástico, não se preocupa com a obsolescência das coisas”, afirma. Para os pais entenderem quais são os valores reais de cada instituição, mais vale observar as condutas do que os discursos, recomenda o professor. 

Nunes alerta ainda que não existem colégios absolutamente “neutros”. “Há escolas que mantêm preconceitos, em que o valor é a competição desenfreada e a atualização tecnológica a qualquer preço, embora não digam isso de forma clara. Mas comunicam isso nas entrelinhas, nas propagandas que falam dos ‘vencedores’, nas metáforas de seus símbolos com leão, águia”, avalia. 

Atualmente, as nomenclaturas estão diferentes em relação ao que se usava há 20 ou 30 anos. “A geração que viveu a ditadura falava de uma escola com democracia, ética, multiculturalismo. Hoje fala-se na resiliência, na luta antirracista, na educação afetiva. A história vai nos pautando, mas todos esses valores passam pelo conjunto de ideias de comportamento pautados no respeito ao outro e a mim”, explica o professor da Unicamp.

Atualidade. Nos últimos anos, passou a ser comum encontrar escolas que buscam desenvolver habilidades socioemocionais como autoconhecimento, autogestão, consciência social, comunicação e tomada de decisão responsável. São todos conceitos intimamente ligados com valores. “Nosso projeto desenvolve muito valores. Não é necessário fazer trabalho voluntário para desenvolver a empatia”, afirma Carolina Lemos, orientadora educacional do Colégio Brasil Canadá. 

Carolina, contudo, destaca que não basta a escola trabalhar o “respeito” para que tenha uma visão semelhante à da família. “O respeito é central. Mas de que respeito estamos falando? Tem escola que desenvolve o respeito à autoridade. Aqui nos focamos nos respeito ao outro, independentemente de hierarquias”, diz. Para as famílias, é mesmo a observação que vai mostrar as diferenças. “Você vê as relações entre pares, entre o diretor e o porteiro, na forma como o professor dá o turno para um aluno falar, como respeita o ritmo de cada um.” 

Nem sempre os responsáveis se dão conta dos valores de uma instituição de ensino antes da matrícula. Quando escolheu o Colégio Santa Maria para seu filho mais velho, Fernanda Lobo focou mesmo na parte acadêmica. Mas descobrir mais tarde que a instituição estava em plena sintonia com a família foi uma grata surpresa. “No fim das contas, a gente acabou se identificando muito com os valores da escola, que está sempre convidando toda a comunidade a participar de suas ações”, afirma. Hoje, os três filhos estudam na instituição - e toda a família está satisfeita.

Fernanda imagina que famílias diferentes da sua poderiam não gostar das propostas sociais da escola. “Meu filho já foi em cooperativa de catadores de lixo, visitou assentamentos, conheceu uma ocupação no centro da cidade”, cita a mãe. Mais do que aprovar o posicionamento do colégio, os pais acabaram também se tornando voluntários na instituição. Fernanda se tornou no ano passado professora voluntária de português para estrangeiros e o marido presta consultoria jurídica para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) oferecida gratuitamente pelo Santa Maria. 

Bem comum. Coordenador pedagógico do Santa Maria, Wallace Marante, sabe que nem todas as famílias se preocupam com os valores, e olham mais para os resultados acadêmicos de crianças e adolescentes. Marante ressalta que o posicionamento da instituição é sempre transparente e explícito. “Quando a família vai entrar na escola, a gente apresenta todos os nossos projetos, nossa visão. A escola se interessa por construir um mundo mais justo e solidário. Nosso currículo é pautado por valores humanos e cristãos”, afirma o coordenador.

A orientadora educacional Sandra Braga, do Colégio Franciscano Pio XII, explica que as famílias podem ter princípios diferentes dos da instituição, sem que isso cause conflitos. “Os princípios são no que eu acredito: a religião, a cultura familiar. Mas os valores que a escola trabalha são universais: humildade, respeito, amor, solidariedade, determinação”, afirma.

Pluralidade pode evitar polarização nas aulas

Já se foi o tempo em que as declarações dentro de sala de aula ficavam apenas entre alunos e professores. Um marco dessa mudança foi o surgimento em 2004 do movimento político chamado Escola Sem Partido, com o objetivo de acabar com uma suposta doutrinação ideológica promovida por professores de esquerda. A polarização política que o Brasil passou a viver nos anos seguintes serviu de combustível para a discussão.

Em 2015, o Estado de Alagoas – assim como alguns municípios – aprovou uma lei para impedir que docentes expressassem opiniões particulares em sala de aula, como forma de promover uma “educação moral livre de doutrinação política, religiosa ou ideológica”. Em agosto deste ano, o Supremo Tribunal Federal considerou essa lei inconstitucional. O entendimento deve se repetir em todas as semelhantes já aprovadas, caso sejam questionadas na Justiça.

Independentemente da disputa judicial, a sociedade e as famílias passaram a se preocupar mais com o que dizem os professores para crianças e jovens. No ano passado, uma deputada chegou a pedir que alunos gravassem vídeos para denunciar professores. O livro Meninos Sem Pátria, de Luiz Puntel, que conta a história de uma família exilada do País pela ditadura, foi retirado da lista de leitura de uma escola tradicional do Rio de Janeiro a pedido de algumas famílias.

Para o educador e filósofo César Nunes, era inevitável que a polarização da sociedade chegasse às instituições de ensino básico. “Toda escola tem por trás de si uma sociedade, e ela reflete esse valores.” Ele acredita que o País vive um momento histórico de refluxo, mas que se trata de uma parte de um ciclo. Portanto, tem esperança de que os embates mais fortes sejam temporários – e a sociedade, em breve, dialogue e avance. “Primeiro, afirma-se uma tese, aí vem a antítese e, depois, chega-se a uma síntese.” 

Muitas famílias, contudo, sentem-se deslocadas nessa discussão, sem ter certeza se devem ou não se preocupar com as opiniões que os professores expressam em classe, sem saber como considerar essas questões na hora de escolher um colégio. Professor universitário e dono da escola The Hub, Thiago Almeida garante aos pais: “Não existe nenhum projeto de doutrinação”. Mas reconhece que alguns professores acabam sendo pouco cuidadosos na forma de emitir suas opiniões. “A profissão do professor é solitária, de forma geral falta espaço regular para trocar experiências. Às vezes, ele erra a mão, sem ter a noção exata do poder de influência que tem sobre os alunos.”

Pode até ser instigado pelos próprios alunos. Há dois anos, antes de começar sua aula na universidade, um grupo de estudantes discutia política e um perguntou a Almeida em quem ele iria votar. “Tenho o direito de declarar meu voto, mas senti que, naquele momento, minha decisão pessoal serviria para legitimar um lado e deslegitimar ou outro. Preferi não dizer”, conta, acrescentando que, com alunos mais novos, o peso de opinião de um professor é ainda maior. “O pré-adolescente e o adolescente ainda estão construindo sua identidade, tem menos experiência de vida.”

Uma orientação clara da The Hub sobre como tratar questões polêmicas pode ajudar a minimizar os conflitos. “Há professor de esquerda, de direita, de centro. Em muitas escolas, acaba se criando uma rivalidade entre eles, com os alunos tomando partido. Isso ocorre pela falta de uma definição de como o debate deve acontecer”, afirma.

Quando buscam uma escola, sobretudo a partir do 6.º ano, os pais podem perguntar como a instituição lida com esse tema. “Nenhuma escola pode garantir que as crianças não serão expostas a discussões políticas. O que ela precisa assegurar é como procede em situações de conflito e polarização”, diz. Na The Hub, a orientação de Almeida é abrir espaço para a pluralidade e o contraponto. “Não tenho problema no professor trazer sua opinião, se apresentar seu viés. Isso significa contar sua história, emoções, mostrar de onde parte a visão que ele tem.”

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