Escola do Bairro
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Pais devem contribuir para o aprendizado de seus filhos

Colégios convidam a família a colaborar com a construção do conhecimento, com atividades e não apenas indo a reuniões e festas

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estado

30 Outubro 2018 | 04h00

SÃO PAULO - Era uma vez uma escola na qual os pais eram informados sobre a metodologia na hora da matrícula e acompanhavam o desenvolvimento dos filhos nas reuniões bimestrais, únicas ocasiões em que pisavam no colégio. Essa cena, comum na maioria das instituições até há algum tempo, tem dado espaço a outro roteiro. Neste, a participação frequente da família é prevista no projeto pedagógico, construído de forma flexível para se adaptar a demandas e rotinas da atualidade.

É uma mudança de mentalidade que inclui desde o agendamento de reuniões de pais em horários fora do expediente de trabalho até o engajamento da família em atividades pedagógicas. “No Brasil, quando se fala de pai ajudar a escola, se pensa em mutirão de limpeza, festa junina, relação de assistencialismo”, afirma Neide Noffs, professora titular da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Não é disso que se trata mais. Agora a lógica é que a família participe da construção do conhecimento com a escola, seja proponente de atividades e não só receptora passiva de um projeto político pedagógico que não contempla essa interação.”

Na Politeia, escola de ensino fundamental, os pais são avisados desse compromisso de interação desde o momento em que vão conhecer o espaço. “A manutenção do projeto pedagógico depende dessa participação. Pais e mães dialogam sobre os percursos tanto individuais quanto coletivos de conhecimento e de gestão da escola”, diz Carol Sumie, uma das fundadoras da instituição.

Mãe de Murilo, de 13 anos, a editora Denise Yoshie Niy lembra de ao menos três situações bem distintas em que participou efetivamente. Em uma, compôs a banca de qualificação de pesquisa de uma estudante - na Politeia, os alunos fazem semestralmente uma pesquisa individual sobre um tema de seu interesse e a escola convida pessoas externas para auxiliar e avaliar a pesquisa. Em outra, conduziu uma oficina para produção de carteiras de tecido, depois vendidas para arrecadar fundos para as bolsas de estudos concedidas pela escola. Por fim, foi convidada a contar um pouco sobre sua história em um grupo de estudos sobre família. “Falei sobre meu pai no Japão durante a 2.ª Guerra e o testemunho dele da explosão da bomba atômica em Hiroshima.”

Afinidade

Se a ideia é participar da vida escolar, no entanto, não basta escolher um colégio aberto a essa construção coletiva. Mais do que atividades inclusivas, a parceria da escola com a família deve nascer do compartilhamento de valores e princípios. “Compreender o projeto político pedagógico da escola é fundamental para aproximar as famílias da expectativa em relação aos processos de construção de conhecimento e de como ocorrem as relações e as dinâmicas de ensino-aprendizagem”, explica Rafael Martins, coordenador-geral da Escola Bakhita, que tem educação infantil e fundamental. “Isso dá a possibilidade de participação real, e não só no surgimento de problemas.”

Recentemente, toda a comunidade escolar foi convidada a discutir sobre a obrigatoriedade do uniforme. Foi convocada uma assembleia geral, realizada à noite na quadra da escola com famílias e alunos, para trocar opiniões e dar um posicionamento deliberativo. “Foi um momento muito rico, principalmente pela participação ativa das crianças. Como possuem assembleias fixas em sua grade, no currículo, estavam muito apropriadas dessa modalidade de encontro e fizeram um lindo papel em como opinar e construir sua visão a partir da fala das outras pessoas”, diz Martins. Decidiu-se que o uniforme seria opcional.

Rede

Como a rotina das grandes cidades muitas vezes não permite uma proximidade com avós, tios e primos, a comunidade escolar pode ser a “aldeia” necessária para criar uma criança. Ao propor atividades com as famílias, a instituição promove uma integração que extrapola muros e apostilas. “A gente trabalha de maneira a constituir uma comunidade de aprendizagem, mas também de convivência”, diz Gisela Wajskop, diretora pedagógica da Escola do Bairro, que oferece educação infantil e os primeiros anos do fundamental.

Periodicamente, a escola organiza refeições com a participação das famílias, além de reunir todos em eventos como a Festa da Primavera e o Dia do Brincar. Os pais também são convidados a acompanhar os filhos em visitas a museus, parques, bibliotecas e outros equipamentos. O contato frequente acaba por estimular a criação de amizades perenes. 

É com essa naturalidade que a escola instiga o relacionamento entre direção, professores e famílias. Em vez de recebidas no portão, as crianças são levadas até a sala, na meia hora que antecede a entrada - o mesmo ocorre na saída. “Esse fato, intencional, é um paradigma da nossa instituição. A família partilha diariamente das atividades das crianças, conversa com professores e parentes dos outros alunos”, diz Gisela. 

E, se escola é lugar de aprender, os pais também podem se tornar alunos. No Colégio Concórdia, a Festa da Família é o espaço em que os papéis se invertem. Na última edição, os estudantes deram aula de Badminton. “As crianças aprenderam regras, origem e curiosidades na Educação Física. No evento, ensinaram a modalidade aos pais”, conta Edson Eller, diretor da escola. Durante o ano inteiro, a instituição oferece à família palestras com especialistas, sobre estudos pedagógicos e outros temas que permeiam a formação.

“Se a educação é um trabalho conjunto, a escola tem de ser um locus de aprendizado para os pais”, afirma Maria Angela Barbato Carneiro, da Faculdade de Educação da PUC-SP. “Em cada fase da criança, há desafios em que os pais precisam de ajuda. Na educação infantil, por exemplo, a escola pode ajudar os pais com conteúdos e conversas para lidar com a birra. Já na adolescência a tarefa árdua tem sido controlar a internet em excesso.”

Promover uma educação que integra a família começa por alterações como reuniões de pais à noite e um novo olhar para as datas comemorativas e estende-se a uma parceria que diversifica e enriquece o conteúdo. Para o bem de todos.

Aplicativos para interação com a família

Na era da conexão ininterrupta, a tecnologia também facilita a participação dos pais na jornada escolar. Tanto colégios privados como redes públicas de educação têm usado aplicativos que facilitam essa interação entre escola e família. 

O governo de São Paulo lançou em agosto o aplicativo Minha Escola, que permite que alunos da rede pública estadual e seus responsáveis tenham acesso em tempo real à frequência e às notas nas disciplinas, além de informes sobre as reuniões. Já nas instituições privadas cresce a contratação de aplicativos que permitem aos pais acompanharem a rotina dos filhos a distância de um clique na tela do celular. 

“A função mais utilizada em nosso aplicativo é a comunicação via chat. Os pais conversam diretamente com os professores para saber sobre ocorrências ligadas a saúde, disciplina e diários emocionais dos alunos”, afirma Nickolas Sertek, diretor comercial do Escola Direta. O aplicativo permite, entre outras funções, que a agenda escolar seja integrada ao calendário do telefone e as trilhas de aprendizagem sejam acessadas em poucos toques.

A maioria das instituições atendidas por esses recursos é de educação infantil, que têm uma demanda mais intensa de interação com os pais. Os especialistas apoiam esse dinamismo, mas advertem que a ferramenta não deve ficar restrita à fiscalização. “Normalmente, quando a escola usa tecnologia é para que o pai fiscalize o filho, das faltas ao comportamento. Precisamos ir além disso e prover a essa família conteúdo sobre educação, usar o aplicativo para fomentar um debate saudável sobre a formação dos filhos, disponibilizar um especialista apto ao diálogo”, diz Neide Noffs, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Entenda o PPP e como é feito

Toda escola, em um exercício de autonomia e gestão democrática, deve construir seu Projeto Político Pedagógico (PPP), segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). O PPP deve revelar o que pretende oferecer aos alunos e à comunidade externa: por que a escola existe (sua missão), o que quer ser (sua visão) e o que norteia suas decisões (seus princípios e valores), ou seja, qual é sua política educativa. O ideal é que a escola exponha isso de forma clara, para evitar que ocorram interpretações confusas e conflitos entre as famílias e a instituição. Para a máxima sintonia entre os valores de ambas as partes, o indicado é que a instituição faça seu PPP com a participação das famílias, com debates e proposições.

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