Alex Silva/Estadão
Famílias relatam dificuldades em apoiar as crianças nas atividades escolares durante o ensino remoto.  Alex Silva/Estadão

Pais analfabetos lutam para que os filhos aprendam a ler na pandemia

Resultado é a mudança de crianças para casas de familiares, defasagem no aprendizado e abandono escolar

Victoria Netto, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 10h00

Samuel, de 7 anos, aprende rápido, é curioso e pergunta muito. Antes da pandemia, ganhou medalha de "aluno destaque" na educação infantil, quando morava na Serra do Mundeu, zona rural do município de Araripe, no Ceará. Mas quando a pandemia de covid-19 interrompeu as aulas presenciais, em março de 2020, ele estacionou. Analfabeta, a agricultora Zenilda Freire Barbosa, de 47 anos, mãe do menino, não conseguia ajudar nas lições que chegavam da escola no ensino a distância. "Eu não sei ler para ensinar o meu filho e aqui não tem quem ensine", conta.

Para que o menino seguisse estudando, a agricultora decidiu enviar Samuel à casa da irmã, tia dele, na região de Pajeú, zona mais urbana de Araripe. Lá, é ensinado pela prima, que já terminou o ensino médio. "Eu não quero que meu filho se crie como eu, sem saber ler; eu quero que ele estude, aqui não ia aprender nada", diz Zenilda, que só pôde estudar até o primeiro ano do ensino fundamental. "É difícil para mim, porque ele é filho único e é tudo na minha vida." 

Há mais de um ano, a agricultora e o marido visitam o filho a cada oito dias. Quando a saudade aperta, fazem uma chamada de vídeo. Para Riqueli Ferreira Barbosa, de 19 anos, jovem que ensina Samuel, a situação é desafiadora. "Uma responsabilidade muito grande: deixo ele fazendo as atividades conforme ele entende e aí, quando ele tem dúvida, eu ajudo", relata. "Ele gosta de estudar, se dedica bastante, mas sente falta da mãe."

Mesmo com todas as dificuldades — as atividades são entregues pela escola essencialmente via WhatsApp e por meio de monitores que distribuem as lições impressas de acordo com a região —, Samuel já sabe ler e escrever um pouco. "Eu vejo que as professoras se preocupam, porque viam ele avançando antes da pandemia", diz Riqueli. 

Segundo a professora Maria D'Deus, que leciona para a turma de Samuel, o caso do menino não é exceção. A maioria dos estudantes da escola tem pais agricultores que são analfabetos ou semianalfabetos. "Tem sido um processo bem difícil alfabetizar na pandemia, muitas vezes eu mando áudio para os pais não desistirem", conta. 

A pedagoga lembra que o primeiro problema foi chegar até as famílias. "Por ser uma zona rural, só conhecíamos as crianças. Depois, o desafio foi entregar as atividades, que voltavam em branco", diz. "Foi quando percebemos que os pais eram analfabetos por completo ou sabiam ler muito pouco." No Brasil, cerca de 11 milhões de pessoas não foram alfabetizadas. Em 2019, a taxa de analfabetismo era de 6,6%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação.

A escola fica a 22 quilômetros de Araripe, já na divisa, a 15 quilômetros do município de Bodocó, em Pernambuco. Cerca de 80% dos 366 alunos do colégio são dessa região, onde a educação é multisseriada — salas de aula com alunos de diferentes séries do ensino fundamental em educação simultânea, adotadas sobretudo na zona rural do País devido ao pequeno número de matrículas. O colégio tradicional mais próximo para esses estudantes ficaria a 60 quilômetros de distância, e não há transporte público. 

"A criança, no meio período, vai para a roça ajudar a capinar com um tempinho pequeno para fazer as atividades. Quando chega uma pandemia como essa, o aluno não tem quem explique, aí escreve que não fez (a atividade) porque não sabe", diz a coordenadora da escola, Clotildes Nunes.

As crianças entre seis e dez anos que vivem em áreas rurais das regiões Norte e Nordeste do País foram as mais atingidas pela exclusão escolar no Brasil durante a pandemia em 2020, segundo o último relatório da Unicef em parceria com o Cenpec.

Conforme o documento, o cenário ocorre devido à precariedade das condições de vida nessas regiões, em especial nas áreas mais isoladas (ver infográfico abaixo). 

Excluídas da educação não só no Norte e Nordeste

Só em 2020, das 5,1 milhões de crianças brasileiras que ficaram sem acesso à educação, mais de 2 milhões (41%) tinham entre 6 e 10 anos, faixa etária mais afetada pela pandemia, segundo levantamento da Unicef, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a infância, em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). 

Emanoel, de 7 anos, é uma das crianças que não tem acesso à educação. Em março de 2020, o menino foi matriculado na escola municipal Teófilo Benedito Ottoni, na zona oeste de São Paulo, mas nunca houve contato com os professores — a irmã, Jéssica Cardoso Pereira, de 26 anos, que tem a guarda do menino, só foi procurada pelo colégio neste ano.

"O Emanoel foi muito afetado, eu acabei ensinando ele a ler e a escrever em casa, ensinei os números, mas vejo muita dificuldade porque não sou professora, não sabia por onde começar", relata. "A minha preocupação era que ele ficasse para trás." 

Além do Emanoel, Jéssica tem outras duas crianças em casa: a irmã, de 16, também sob sua guarda, e o filho de um ano. Quando a pandemia começou, a estoquista de congelados estava grávida e, após o nascimento do bebê, já na licença-maternidade, passou a ensinar o irmão sozinha.

"Ele nunca teve acesso à professora por nenhuma plataforma", conta. Quando foi até a escola se informar, verificaram que o código que ela tinha para o Google Classroom acusava "Sala Inexistente". Neste ano, quando a escola ligou para Jéssica informando que os livros haviam chegado, ela buscou o material para ter uma diretriz no ensino.

A Secretaria Municipal da Educação (SME) informou ao Estadão, em nota, que procurou a família do menino por meio do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA), mas que o endereço cadastrado estava desatualizado. A busca, no entanto, só foi feita após contato da reportagem com a SME. O endereço que constava no sistema ainda era o da mãe do Samuel. 

"A equipe conseguiu contato telefônico com a responsável pelo estudante, que passará a ser acompanhado constantemente pelo NAAPA", diz o texto. O Núcleo desenvolve ações para prestar suporte e auxiliar os alunos e famílias no aprendizado em casa. 

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Alfabetização pelo celular e precariedade na conectividade

Pesquisa aponta que, para 71,58% das professoras entrevistadas, sala de aula na pandemia se reduz à tela de um celular com formação de turmas no WhatsApp

Victoria Netto, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 10h00

A pesquisa "Alfabetização em Rede: Uma investigação sobre o ensino remoto na pandemia de Covid-19", que reúne 29 universidades do Brasil e atingiu 14.730 docentes da educação básica em 18 Estados do País, detalha o cenário de exclusão de alunos e dificuldades no ensino remoto durante a pandemia. 

As informações qualitativas da segunda fase da pesquisa, ainda em andamento, apontam que, para 71,58% das professoras entrevistadas (90% da amostra da pesquisa são mulheres), a sala de aula na pandemia se reduz à tela de um celular com formação de turmas no WhatsApp

A medida foi adotada pelas escolas para que não se perdesse o vínculo com as famílias, já que a plataforma Google Classroom (Google Sala de Aula), instituída pelas secretarias de educação como padrão para o envio de atividades, não teve ampla adesão dos alunos por diferentes dificuldades. 

Para a coordenadora nacional da pesquisa, Maria Socorro Nunes, professora na Universidade Federal de João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o uso do WhatsApp é um indício da precariedade de condições de conectividade, tanto dos estudantes quanto das próprias professoras. 

"Quando falamos de celular, nos referimos a todas as possibilidades, desde aquele que é dividido com vários filhos até um mais potente. Mas a maioria das famílias já indicou a dificuldade de ter um equipamento que possa ser utilizado pelas crianças", afirma. "Isso altera de forma decisiva as relações de ensino e aprendizagem quando são feitas por um aplicativo de celular."

Na turma de 2020 da professora Rosilene Cunha da Trindade, de 43 anos, só 3 dos 28 alunos conseguiram ser alfabetizados. A falta de contato com as crianças é um dos motivos apontados pela docente, que atende crianças das séries primárias no sul de Minas Gerais. "O que eu pude entender é que a interação acontece mais com a mãe, passando a atividade para ela. Contato direto com a criança eu não tenho mais", diz.

Com o ensino remoto, a interação aluno-professor deixou de existir em tempo real e ficou por conta da mediação da família, cenário que a pesquisa sobre alfabetização confirma. Segundo a psicóloga Maria Alice Junqueira, coordenadora do Letra Viva Alfabetiza, programa do Cenpec Educação, é preciso reinventar a alfabetização. 

"Há que trabalhar no ensino remoto de uma forma diferente da que trabalhamos no meio presencial. Vai haver perdas, mas dá para contornar. Com a videochamada, é possível criar vínculos e conduzir práticas a partir de uma série de ferramentas lúdicas", avalia Junqueira. 

O estudo Alfabetização em Rede ainda demonstrou que as professoras consideram que a educação remota não atinge os objetivos escolares (17%), que não é adequada para a etapa de ensino com a qual trabalham (15%) e que gerou sobrecarga para os docentes e para as famílias (22%). Apesar disso, reconhecem que foi a opção possível para a educação na pandemia (44%) e avaliam que tem sido importante para manter o vínculo das crianças com a escola (55%).

Prejuízo no aprendizado

Embora ainda não haja índices oficiais sobre quão atrasadas essas crianças estão, alguns estudos preliminares já apontam que os prejuízos são graves. A projeção do Banco Mundial, divulgada em março, é de que 2 em cada 3 alunos no Brasil não consigam ler um texto simples aos 10 anos. 

Outro estudo do governo de São Paulo, divulgado no final de abril, indica que serão necessários 11 anos para recuperar a aprendizagem perdida em Matemática. Hoje, um aluno de 10 anos tem desempenho pior do que ele mesmo tinha quando estava com 8 anos. Como as crianças passaram por exames amostrais semelhantes ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do governo federal, é possível fazer o comparativo com anos anteriores.

Para a psicóloga Maria Alice Junqueira, a criança que está no 2º ano em 2021 e passou pela alfabetização no 1º em 2020 já está com prejuízo. "Não é a mesma criança que chegou ao segundo ano em 2019. O déficit é muito grande. Vamos precisar de uma força-tarefa para recuperar e de parâmetros para medir isso", avalia. 

A professora Tâmila Carolini Tavares, de 32 anos, que leciona em uma escola municipal de Tartarugalzinho, no Amapá, sentiu a diferença na prática. "O objetivo do ano passado, vamos tentar atingir neste ano", conta ela, que atende turmas de 1º e 2º anos. "As habilidades que eles deveriam ter adquirido no ano passado, estamos engatinhando para ver se eles vão recuperar neste ano."

Silvia Colello, que pesquisa o processo de alfabetização e é professora da pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), avalia que, embora seja possível recuperar o aprendizado após criteriosa avaliação e trabalho insistente, o ritual de ingresso na escola já foi rompido de forma irreversível. 

"A entrada na criança no ensino fundamental é um rito de passagem e é nesse momento que se renova a relação da criança com a escola e com a língua escrita", afirma Sílvia. "Quando isso muda e a criança não está inserida nesse ambiente, tudo se fragiliza e acaba afastando a criança da disponibilidade de aprender."

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