WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Pai envolvido na educação do filho estimula desenvolvimento

Estudo mostra que participação melhora funções executivas cerebrais, responsáveis pelo raciocínio, e também comportamentais

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

03 Agosto 2015 | 03h00

O professor Lizandro Crus Chagas, de 38 anos, trabalha fora, faz faxina e as compras no supermercado, cozinha e cuida do filho Thomaz Luiz, de 5. Todas essas atividades de sua rotina são comuns na vida da maioria das mulheres com filhos. A diferença entre ele e elas é que frequentemente o questionam e o elogiam por cumprir tais obrigações.

Outro dia na escola a mãe de uma coleguinha dele me perguntou se eu cozinhava e ficou surpresa quando eu disse que sim. Quando o levo ao médico, sempre me perguntam onde está a mãe. Já me disseram que eu sou um superpai, mas eu só estou cumprindo minha obrigação”, diz Chagas, que tem a guarda do filho há 14 meses.

Relatório divulgado pela organização mundial MenCare reuniu estudos e pesquisas de 20 países, incluindo o Brasil, que indicam que a preocupação e o envolvimento dos homens na educação dos filhos estão diretamente ligados com o desenvolvimento da criança, estimulando as funções executivas cerebrais – responsáveis pelas habilidades de raciocínio – e comportamentais.

Estudo da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, identificou que os resultados da interação de pais e mães no desenvolvimento das funções executivas cerebrais em crianças de 3 anos são similares. No entanto, os pais mais presentes dão mais autonomia para os filhos, o que influencia positivamente o desenvolvimento.

Na pesquisa com 110 pares (pai e filho ou filha), 59% dos pais não interferiram no modo como os filhos decidiram montar um quebra-cabeça. As crianças desse grupo desenvolveram a atividade, em média, em 25% menos tempo do que os filhos dos pais que mais intervieram.

Dos pais que menos interferiram, 70% disseram participar diariamente do cuidado dos filhos. Para o estudo, isso indica que eles passam mais tempo com os filhos e aprenderam a estar mais em “harmonia com a criança e, por isso, tendem a dar um apoio mais autônomo”. De acordo com as conclusões da pesquisa, o resultado contribuiu para a ideia de que a “liberdade para errar” é importante para o desenvolvimento cognitivo.

Gênero. Segundo o relatório, o envolvimento dos homens também faz com que os filhos entendam a igualdade de gênero e que as filhas tenham maior senso de autonomia. Resultados práticos já observados, segundo o estudo, são de que os meninos estão mais propensos a executar atividades domésticas e as meninas a aspirar por empregos menos tradicionais.

“Está enraizado em nossa cultura que o cuidado com as crianças é ligado à maternidade e ao feminino. Mas, não, o cuidado se aprende, independentemente do gênero”, diz Marco Aurélio Martins, coordenador da ONG Promundo, responsável pela coleta de dados no Brasil.

Para Rosana Schwartz, socióloga da Universidade Presbiteriana Mackenzie, só será possível a equidade de gêneros e o máximo bem-estar para as crianças quando não houver mais limitações nas definições de paternidade e maternidade. “Se duas pessoas se comprometem a cuidar de uma criança, ambos devem estar igualmente presentes e responsáveis.”

Rosana disse acreditar que os homens só têm a ganhar com essa interação. “Antes, o que se esperava deles era uma relação distante com os filhos, a única preocupação era a financeira. Agora, eles podem e devem estar mais próximos”.

Felicidade. O relatório da MenCare apontou ainda que os pais que disseram estar envolvidos na criação dos filhos também relataram que esse relacionamento é a sua mais importante fonte de bem-estar e felicidade.

“Sempre quis ser pai e desde que soube da gravidez comecei a me preparar para recebê-lo e atender todas as suas necessidades”, disse Chagas. Ele disse ainda que tem uma relação afetiva muito próxima com o filho, o que ele não teve com o próprio pai. “Beijo, abraço, brinco muito. Sei que isso é muito importante para o desenvolvimento dele e também para mim”.

Os dados coletados pela Promundo no Brasil são de entrevistas com 2 mil pessoas em regiões metropolitanas. Os resultados mostram que 51% dos homens disseram fazer regularmente alguma atividade doméstica e 91% respondeu que está satisfeito com a forma como as tarefas de casa são divididas.


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.