Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Os caminhos de Sandel

Veja resumo das discussões sugeridas pelo professor de Ciência Política Michael Sandel em ciclo experimental de aulas online que conectou alunos em Harvard, Tóquio, Pequim, Nova Délhi e a Direito GV, em São Paulo

Ricardo Zeef Berezin, Especial para o Estado,

10 Dezembro 2012 | 23h08

26 DE OUTUBRO

No primeiro encontro, Michael Sandel quis discutir o valor de um compromisso. Contou aos alunos a história de um casal que não podia ter filhos e pagou US$ 10 mil a uma mulher para gerar uma criança com um óvulo fertilizado pelo pai. Quando o bebê nasceu, porém, a mãe de aluguel quis ficar com ele e apelou à Justiça para não entregá-lo.

Sandel: “Se você fosse o juiz e precisasse decidir a coisa certa a fazer, do ponto de vista moral, o que faria?”, perguntou aos estudantes. “Quem romperia o contrato?”

Americano: “O contrato deveria ser mantido porque não houve coerção. A mãe de aluguel não foi forçada a assinar o documento. Não importa se ela mudou de ideia depois.”

Indiana: “O consentimento não foi verdadeiramente livre porque a mãe não sabia como se sentiria quando a criança nascesse.”

Brasileiro: “A ligação entre mãe e filho precisa ser considerada e o contrato, anulado.”

Sandel: “Esta questão envolve dois argumentos fortes. A pobreza pode ter sido o motivo pelo qual a mulher aceitou o contrato. E o outro é o de que a capacidade reprodutiva das mulheres não pode ser colocada à venda.”

Americano (2): “Bebês não podem ser vistos como produto à venda. Isso é moralmente inaceitável.”

Americana: “As mulheres deveriam ter a chance de escolher vender ou não essa capacidade  reprodutiva de acordo com sua própria consciência. É degradante não deixá-las decidir o que fazer com seus corpos.”

Chinesa: “Mas a pobreza exerce uma pressão coercitiva na hora de a mulher definir um preço.”

2 DE NOVEMBRO

Que princípios você escolheria para guiar uma sociedade caso não soubesse onde se encaixaria nela? Esta foi a principal questão da segunda aula global de Michael Sandel, que colocou de um lado um modelo de Justiça baseado no mérito e outro em que os que têm mais ajudariam os que têm menos.

Sandel: “Nenhum princípio de Justiça deve fazer com que aspectos da vida dependam de fatores arbitrários do ponto de vista da moral. O filósofo John Rawls defendia a tese de que o talento de alguns deveria servir para auxiliar aqueles que não o tem. Isso não significa colocar pedras nos tênis dos mais rápidos, mas fazê-los compartilhar suas vitórias.”

Brasileira: “A teoria é bonitinha, mas eu tenho o direito de ganhar sobre o meu esforço.”

Indiana: “Não é porque compartilhamos que não seremos reconhecidos.”

Chinês: “E as pessoas que, favorecidas pelo sistema, optarão por não trabalhar?”

Brasileira (2): “Poucas farão essa escolha.”

Sandel: “Segundo Rawls, nascer com talento ou com dinheiro é a mesma coisa; ambos são fatores arbitrários que não devem interferir em um princípio de Justiça.”

Japonês: “Mas não podemos eliminar o destino da vida.”

Sandel: “Ele só diz que não devemos aceitá-lo. Não é justo que Bill Gates e Michael Jordan, embora tenham merecido o sucesso que tiveram, paguem mais impostos?”

30 DE NOVEMBRO

A terceira aula abordou dilemas sobre o nacionalismo. “Temos mais responsabilidade sobre as pessoas com quem compartilhamos uma história?”, é a questão de Sandel. O professor, então, para falar de patriotismo, pergunta se os estudantes torcem por seus respectivos países nas Olimpíadas e se esse sentimento é legítimo ou deve ser superado.

Indiana: “Acho que devíamos parar de nos diferenciar por país. Poderíamos ver a todos simplesmente como uma humanidade.”

Brasileiro: “Eu não vejo problema em se sentir conectado com pessoas de sua comunidade e torcer para elas. É um sentimento natural e não machuca ninguém.”

Sandel: Mas, por exemplo, se vocês fossem os competidores e descobrissem que um de seus companheiros está utilizando substâncias proibidas? Vocês o denunciariam?”

Americano: “Sim, porque você tem uma responsabilidade moral com seu país e com as Olimpíadas.”

Chinesa: “Falaria para o treinador ou capitão do time e, se ele não tomasse a atitude correta, não sei o que faria. Seria muita pressão.”

Sandel: “Vamos imaginar, então, que você flagrasse seu amigo ou seu irmão trapaceando no exame final. Vocês o delatariam?”

Americano: “Daí é diferente. Não sei se ele estaria prejudicando alguém.”

Sandel: “O filósofo Jean-Jacques Rousseau sugeriu que a responsabilidade deveria estar restrita a quem nos está próximo. Mas, em um mundo que todos estão conectados, as obrigações continuam as mesmas? De certa forma, mesmo essas aulas, com pessoas de vários países debatendo em tempo real, questionam termos como distância e comunidade.”

 

Bibliografia: Justiça - O que é Fazer a Coisa Certa, de Sandel; Uma Teoria da Justiça, de Rawls; trechos citados de Rousseau estão reunidos em Verbetes Políticos da Enciclopédia.

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