GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Olimpíadas de conhecimento têm corte de até 50% na verba

Instituto que faz evento de Matemática ainda não recebeu recurso federal; organizadores já procuram reduzir custos e obter patrocínios alternativos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto a Rio-2016 concentra os holofotes, as olimpíadas escolares de conhecimento – de Matemática, Astronomia e História, entre outras – sofreram corte de verbas de até 50%. Para manter a abrangência nos ensinos fundamental e médio e o nível da competição, os organizadores desses eventos estão procurando formas de reduzir custos e em busca de patrocínios alternativos.

Maior competição do gênero no País, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), que neste ano terá a participação recorde de 18 milhões de alunos de 47 mil escolas, é financiada pelo Instituto Nacional de Matemática Aplicada (Impa).

O evento custa R$ 53 milhões – 60% do orçamento do instituto, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). E neste ano ainda não recebeu nada dos recursos previstos. “Estamos fazendo com recursos que sobraram do ano passado. Cortamos brindes, reduzimos materiais distribuídos ao estritamente necessário para não afetar a qualidade do evento e manter a premiação, que é importante”, diz o presidente do Impa, Marcelo Viana.

Além da competição, a Obmep também tem cursos de formação e capacitação para professores de Matemática, que neste ano sofreram com a redução de custos. Um dos programas, feito a distância, deixou de pagar ajuda de custo aos colaboradores e é feito de forma voluntária. O outro, que previa selecionar 1.800 professores para a capacitação, pode abranger apenas metade, caso não haja a liberação da verba. “O País não aprendeu a se planejar. O Brasil se tornou destaque em olimpíadas internacionais de Matemática e tem cada vez mais alunos interessados na competição. Não podemos deixar que esses eventos sejam desvalorizados.”

Procurado, o MCTIC informou em nota que já liberou R$ 27,6 milhões ao Impa e novos repasses que ainda serão feitos neste ano “permitirão a continuidade dos projetos”.

CNPq. Já a Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) enfrenta corte de 50% da verba que recebeu do CNPq, órgão federal de incentivo à ciência. De R$ 1,2 milhão do custo total, a organização recebeu R$ 580 mil. Para manter a premiação aos 50 mil primeiros alunos, a organização recorreu a uma vaquinha virtual para conseguir comprar as medalhas, que custam R$ 3. 

“Encomendamos no começo do ano porque acreditávamos que iríamos conseguir patrocínio, mas todo mundo tirou o corpo fora. Temos de manter a premiação. Os campeões esportivos são premiados, os científicos também têm de ser”, afirma João Canalle, da comissão organizadora da OBA. 

Com o corte de recursos, a organização da OBA também teve que deixar de custear a viagem dos alunos selecionados em anos anteriores para as competições internacionais. O Colégio Etapa, que teve 4 alunos selecionados para participar da competição na Índia no final do ano, vai ter que custear as despesas da viagem.

Já a Olimpíada Nacional de História, feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), teve corte de 35%. Por isso, a organização reduziu de 1.200 para 1 mil o número de finalistas selecionados para a fase presencial. “A prova final é dissertativa, com alto custo para a correção. Fizemos isso com muita dor no coração”, diz a coordenadora do evento, Cristina Meneguello. 

Neste ano, a competição de história recebeu apenas cerca de R$ 200 mil do CNPq, o valor é quase totalmente gasto para custear a viagem de equipes finalistas de escola pública para a fase final em Campinas. "Custeamos a viagem das cinco primeiro equipes de alunos da rede pública de cada Estado. Isso tem um custo alto, de R$ 130 mil, mas não podemos deixar de fazer porque é o que garante a representatividade de todo o Brasil na nossa competição e o que faz com que ela seja tão rica e importante para os competidores", disse Cristina.

A competição teve neste ano cerca de 50 mil inscritos, mas, segundo Cristina, o impacto da olimpíada é ainda maior por causa dos cursos de formação que oferece aos professores.  "Independentemente do número de competidores daquela escola, o professor vai ter uma formação muito melhor e isso beneficia todos os alunos. Essa é uma competição que ninguém assiste na televisão, mas tem um impacto real na vida de muitos estudantes", disse. 

Em nota, o CNPq confirmou a queda de recursos. No último ano, o valor total investido foi de R$ 2,93 milhões em 13 olimpíadas. No ano anterior, foram R$ 4 milhões para 14 eventos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.