Tânia Rêgo/Agência Brasil
Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ocupação prossegue em colégio federal que teve prova do Enem adiada no Rio

Alunos que ocuparam o Colégio Pedro II do Humaitá acreditam que provas remarcadas para dezembro também podem ser afetadas

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 12h39
Atualizado 05 Novembro 2016 | 12h50

RIO - No Colégio Pedro II do Humaitá, na zona sul do Rio de Janeiro, a ocupação de estudantes prossegue independentemente da presença de profissionais do Instituto Nacional de Educação Profissional (Inep), que permanecerão no local até o fim da tarde para orientar estudantes desavisados que cheguem ao local para prestar a prova do Enem.

Dos 13 locais de prova no Estado do Rio que tiveram a realização do exame adiada, oito são unidades do Pedro II, tradicional rede de escolas federais no Rio. No Rio, o número de inscritos no Enem é de 550 mil , segundo o Inep.

De acordo com uma funcionária do Pedro II do Humaitá, que não quis se identificar por não ter sido autorizada a dar entrevista, nenhum desavisado chegou aos portões da escola neste sábado pela manhã.

O colégio está ocupado pelos alunos desde a última segunda-feira, 31, em protesto contra as medidas do governo de Michel Temer na área da educação. Por causa da ocupação, os estudantes que fariam as provas na unidade foram avisados de que teriam a data transferida para 3 e 4 de dezembro. Neste sábado, além de manter funcionários na recepção, o Inep pregou um aviso no portão do colégio comunicando as alterações. 

"Lamento, sinceramente, pelos transtornos causados aos inscritos alcançados por esta alternativa de solução, a única que se apresentou viável para evitar um prejuízo maior", traz o aviso assinado pela presidente do Inep, Maria Inês Fini. O texto informa ainda da "absoluta impossibilidade de efetuar a aplicação do exame com a indispensável segurança para os inscritos", trecho que causou a revolta dos estudantes. 

"Por que insegurança? Eles acham que vamos atacar os estudantes? Somos estudantes também e nunca quisemos atrapalhar o Enem. Tentamos uma comunicação com o governo para tentar que a prova acontecesse junto com a ocupação e não conseguimos nenhum diálogo", disse Isaac Galvão, de 18 anos, aluno do primeiro ano do ensino médio, o único destacado pelo grupo de manifestantes para conversar com a imprensa. 

Ele conta que o número de estudantes do colégio que participam da ocupação varia de 50 a 100, dependendo do dia da semana, e que, pelas reuniões internas realizadas para organizar o movimento, não há perspectiva de desocupação. "Não acredito que teremos saído até o início de dezembro (quando deve acontecer a prova para os alunos que não a realizarem neste fim de semana)", disse Isaac. 

Na manhã deste sábado de chuva no Rio, o único movimento nos portões do Colégio Pedro II do Humaitá era de saída de manifestantes que prestariam o exame em outras unidades. 

Victor Iglesias, de 17 anos, deixou a escola depois de visitar amigos para se dirigir para casa, por volta das 10h, e, em seguida, fazer a sua prova. Ele deixou a ocupação na sexta-feira por causa do exame. "Mas, na verdade, não vejo problema em participar da ocupação e prestar o Enem, porque me preparei o ano inteiro e não na última semana", afirmou. 

O estudante quer ser professor de geografia "para continuar discutindo política dentro da escola". Iglesias conta que estudava em um colégio particular antes de ir para o Pedro II. "No colégio particular, a gente não se mistura com estudantes de outras classes sociais. Não tem debate de nada. Aqui a gente aprende de verdade. A gente aprende a criticar, a pensar e a gente não quer abrir mão disso", disse. 

A ocupação das escolas é um protesto contra duas principais pautas do governo Temer que devem alterar o sistema educacional no País: a Proposta de Emenda Constitucional 241, que cria o teto dos gastos, e a Medida Provisória do Ensino Médio (746). Os estudantes protestam também contra o movimento "Escola sem Partido", que pretende criar restrições para impedir professores de expressarem opiniões e posições políticas em sala de aula.

"Nunca houve participação de partido nas ocupações. A decisão de tomar nossa escola foi nossa, tomada em assembleias de estudantes", afirmou Isaac.

Maior câmpus. A prova do Enem será realizada no principal câmpus da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), na Urca, zona sul da cidade, embora o prédio da reitoria da instituição esteja ocupado desde quinta-feira à noite. 

Na manhã deste sábado, 5, um vigia da universidade indicava aos inscritos no Enem que o local da prova é o campus principal e não o prédio da reitoria. Tanto o campus principal quanto o prédio da reitoria, que também abriga as faculdades de Enfermagem e Nutrição, ficam na mesma avenida, a poucos metros um dos outro.

Ao chegar para realizar a prova na UNI-Rio, a estudante Laura Brandão, de 17 anos, que quer cursar direito, disse que não se vê prejudicada por causa do adiamento para alguns inscritos. Com a atualização deste sábado, subiu para 404 o número de escolas em que o exame será aplicado no mês que vem. No total, 270 mil inscritos no Enem farão a prova em dezembro.

"Quem ganhou um mês para estudar um pouco mais, porque vai fazer a prova em dezembro, em compensação está mais nervoso com as incertezas. Não vai ser em um mês que um aluno vai conseguir estudar todo o conteúdo ensinado em três anos", disse Laura, que entrou no local da prova por volta de 12h20.

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