REUTERS/Darrin Zammit Lupi - 26/02/22
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Renata Cafardo
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O senhor da guerra não gosta de crianças: vidas roubadas na Ucrânia

A guerra não é só geopolítica ou econômica, ela mata crianças, seus pais ou cuidadores, por bombas, fome, falta de água, frio

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 05h00

O senhor da guerra não gosta de crianças, diz a música de Renato Russo composta nos anos 80, tempos de conflitos no Líbano, Irã e Iraque. Parece óbvio e infelizmente recorrente, mas é bom lembrar depois da semana marcada pela invasão russa à Ucrânia. A guerra não é só geopolítica ou econômica, ela mata crianças, seus pais ou cuidadores, por bombas, fome, falta de água, frio. A guerra destrói a casa, os brinquedos, a escola.

Porta-vozes do Fundo das Organizações Unidas para a Infância (Unicef) condenaram prontamente o ataque, como deveria ter feito qualquer cidadão com alguma humanidade, e disseram que 7,5 milhões de crianças na Ucrânia estavam ameaçadas. Pediram para que infraestruturas essenciais das quais elas dependem, como escolas, não sejam bombardeadas. No segundo dia de guerra, no entanto, já havia fotos de instituições de ensino com vidros estilhaçados.

A guerra pode fazer ruir ainda um projeto de educação de qualidade para os ucranianos, ucranianas e minorias, como os russos e húngaros, que estudam no país. Em 2017, como parte da tentativa de aproximar-se dos europeus, a Ucrânia aprovou uma nova lei que aumentava de 11 para 12 os anos de escolaridade obrigatória, ligava o ensino médio ao mercado de trabalho, valorizava o caráter lúdico da educação infantil e a inclusão de alunos com deficiências.

A norma tem elementos que fazem uma educação mais humanista e democrática e fala das competências e habilidades que formam o cidadão para os tempos atuais. Explicita também que a educação de qualidade e acessível é um direito. E ainda prevê mais dinheiro e melhores salários para os professores. É muito do que se vê em sistemas de ensino de sucesso, como nas vizinhas Finlândia e Estônia. A última, também parte da antiga União Soviética, começou uma reforma em 1991 que a colocou no topo da educação mundial.

Enquanto a Estônia com suas escolas autônomas e criativas transformavam os estudantes e o país, mesmo sem abandonar o extenso conteúdo e o rigor, a Ucrânia continuava envolta em uma educação antiquada e corrupta. Um relatório internacional de 2017 falava de suborno para conseguir vagas em escolas, fraude na compra de livros didáticos e apropriação indevida de contribuições dos pais às instituições.

A lei ucraniana deveria ser implementada gradativamente entre 2018 e 2023, mas vieram a pandemia, instabilidades políticas e, agora, o pior. Havia esperança, mas os senhores da guerra não se cansam de deixar as marcas mais brutais e covardes na vida das crianças.

RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADÃO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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