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O risco de uma rasteira

Pais se dividiram entre alertar ou não mencionar a história com medo de ‘dar ideia’

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 05h00

Na semana passada, os chamados grupos de mães do WhatsApp foram tomados de vídeos com crianças e adolescentes dando rasteira uns nos outros. Alguns horríveis, com pessoas inconscientes, no chão, depois de acharem que estavam participando de uma brincadeira. Outros tinham estudantes em pátios de escolas às gargalhadas ao ver o colega cair. Pais e mães se desesperaram, com razão. Ainda mais quando veio a notícia da morte de uma menina em Mossoró (RN) que participou de um “desafio” desse tipo (não agora, em novembro) e sofreu traumatismo craniano.

A repercussão dessa história trágica leva a reflexões sobre a relação entre pais e filhos e também sobre que escola que queremos. Isso tudo começou porque o youtuber Robson Calabianchi, conhecido como Fuinha, fez um vídeo dando uma rasteira por trás na própria mãe. O vídeo viralizou em um aplicativo chinês que muitos adultos nem sequer ouviram falar, o Tik Tok. É uma rede social só com vídeos, que virou mania especialmente entre as crianças.

Em pouco tempo, estudantes de todo o País começaram a fazer o mesmo – dois se posicionavam ao lado de um colega, que era orientado a pular e, então, recebia o golpe por trás. O desafio, claro, era dar a rasteira e postar no Tik Tok.

A Sociedade Brasileira de Neurologia então soltou uma nota avisando que a queda poderia causar danos irreversíveis ao crânio e ao encéfalo. O youtuber pediu desculpas. Os pais se dividiram entre alertar os filhos, arrancar o celular da mão deles ou não mencionar a história com medo de “dar ideia” para a molecada. 

A terceira possibilidade – por mais inofensiva e protetora que possa parecer – lembra movimentos atuais que querem impedir assuntos como sexo e gênero em escolas. O Escola sem Partido, usando um discurso que parece bonito, de defesa do “pluralismo de ideias”, acusa professores de doutrinação porque ensinam sobre Karl Marx, por exemplo. No extremo, há quem acredite que dar bonecas a meninos os transformará em homossexuais.

No episódio das rasteiras, houve famílias que exigiram providências das escolas, como maior vigilância nos momentos de pátio e instruções dos professores sobre a brincadeira perigosa. Mas fato é que, quando as crianças ingressam na escola, acaba aquele controle que os pais acreditavam ter sobre seus filhos. Eles farão coisas e terão conversas que jamais saberemos. 

Somam-se a isso ideias que eles encontram na internet, em sites e aplicativos que nem sempre conseguimos impedir, e o descontrole é total. Notar que vídeos com os “desafios da rasteira” foram gravados em pátios de escolas ou salas de aula aumentou mais o sentimento de impotência dos pais. 

Além disso, os autores das tais brincadeiras sem graça são pré-adolescentes ou adolescentes, idade em que se constrói a identidade por meio de grupos. É como se o grupo fosse um único individuo, todos têm de ter o mesmo comportamento e quem tem opinião diferente é expelido, lembra a psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) Mariana Mies.

Mas o que especialistas garantem é que crianças e adolescentes entendem muito mais do que aparentam. Assim como nossos filhos precisam, na idade certa, aprender sobre os horrores causados pela ditadura ou que o sexo pode levar a gravidez indesejada e doenças, eles devem ouvir que coisas que parecem muito divertidas podem matar. 

Em momentos como esses, conversas francas, sem reprimendas, sem cara de quem desconfia que o adolescente fez algo errado, são a melhor solução. Tanto em casa quanto na escola. O maior desafio é conseguir mostrar algo muito difícil de mensurar quando se tem 12 anos e a vida toda pela frente: que os atos têm sempre consequências. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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