Werther Santana / Estadão
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O que será do Enem?

É preciso rapidamente apaziguar os ânimos em torno da prova e organizar o Ministério da Educação

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 03h00

Chegamos ao meio de abril sem saber o que será do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As inscrições começam em três semanas e faltam menos de sete meses para o primeiro dia de prova. Há mais de 15 dias, a gráfica que imprimia o maior vestibular do País faliu. Para complicar, a notícia chegou quando não havia ninguém na cadeira de presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC) que cuida das avaliações. Uma semana depois, o presidente Jair Bolsonaro mudou também o ministro.

A história da gráfica, infelizmente, não parece envolver apenas má gestão. Como o Estado revelou, há denúncias de irregularidades que falam de um “esquema fraudulento” para favorecer a empresa falida durante dez anos. Desde que o Enem se tornou um vestibular, em 2009, nunca nenhuma outra gráfica fez o serviço. E só houve duas licitações no período; nos outros anos, o contrato foi simplesmente renovado. A prova, que era impressa por cerca de R$ 30 milhões, hoje sai por R$ 120 milhões.

Há denúncias de funcionários do Inep que ganhariam, no mínimo, presentes, vinhos e convites para festas, para manter a gráfica trabalhando para o Enem. Não que a empresa, a multinacional RR Donnalley, não fosse qualificada para o serviço. Mas é difícil acreditar que, com tantos milhões de reais à disposição, nenhuma outra tivesse se aprimorado em uma década para imprimir o Enem com segurança. 

Antes da falta de gráfica, a prova já começava a sofrer de falta de confiança. Em janeiro, Bolsonaro avisou que leria as questões do Enem antes de aplicá-lo porque não gostou nada das perguntas sobre transexuais e feminismo feitas em 2018. Para uma prova que levou anos construindo uma imagem de segurança – depois que, na sua primeira edição, o exame foi roubado – esse era o pior dos mundos. 

O quadro se completou com a instalação de uma comissão de três ilustres desconhecidos, que teriam o poder de vetar questões que eles considerassem inadequadas. A ideia era a de procurar entre as 2 mil perguntas feitas por professores de universidades federais “abordagens controversas com teor ofensivo a segmentos e grupos sociais, símbolos, tradições e costumes nacionais”.

Mas o Enem não é só logística e técnica. Pesquisas mostram que adolescentes prestes a passar por exames concorridos sofrem de sintomas de ansiedade, como dificuldade de concentração, inquietação, dores de cabeça e tonturas. Isso, só pela expectativa da prova, que para um jovem de 17 anos significa o passo mais importante para um futuro de sucesso. Imagine a insegurança da juventude somada às novidades que surgiram desde o início do ano no Enem?

Em sua primeira grande entrevista, publicada pelo Estado, o substituto de Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, ao menos deu um alento. Apesar de outras declarações de cunho ideológico, avisou que não gostou da ideia da comissão que vetaria questões “inadequadas” – o grupo já terminou seus trabalhos, cujo resultado é sigiloso. E disse ainda que Bolsonaro não deveria perder tempo vendo questões do Enem. As mensagens sugerem que a censura à prova, como muitos viram tais iniciativas, pode não ir pra frente.

A educação brasileira tem muitos problemas que precisam ser atacados com urgência. Mas se o novo ministro não quer mais “solavancos” no MEC, como garantiu na entrevista, é preciso rapidamente apaziguar os ânimos em torno do Enem. Organizar o Inep, que continua sem comando, deixar os especialistas em avaliação fazerem seu trabalho sem interferência. E manter a credibilidade da prova, conquistada com muita dificuldade nos últimos dez anos. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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