O que o maestro Julio Medaglia queria saber aos 21 anos

'Gostaria de acordar amanhã e ter a cabeça que tenho hoje', diz ele. que fez partituras para poemas concretos

Ana Bizzotto, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2009 | 06h05

Aos 71 anos de idade, o maestro Julio Medaglia fala sobre o interesse pela música e os desafios que enfrentou para se tornar maestro. é a seção 'Coisas que eu queria saber aos 21 anos'. Leia relato abaixo:   "Quando a pessoa chega aos 21 anos, a carreira de músico, em geral, já tem que estar pronta do ponto de vista do domínio instrumental e da consciência do que se quer fazer da vida. O que se aprendeu até aí, se aprendeu.   O que acontece dos 21 em diante é uma maturação daquilo que se aprendeu, aplicando esses conhecimentos na própria vida, na arte e no desenvolver das ideias. A área musical é muito rica de informações, existem muitos componentes de várias épocas, países, situações culturais e técnicas que você tem que assimilar.   Procurei correr muito, porque minha formação foi irregular. Vim de um bairro muito popular, não tive uma formação intelectual de base, gostava mesmo era de jogar futebol. A partir dos 15 anos, comecei a me informar que nem louco, a comprar livros e frequentar concertos, exposições, cinemas. Tive amigos e professores que me orientaram. Convivia dois dias por semana com os poetas e pintores concretistas em reuniões na casa do Décio Pignatari, do Haroldo e do Augusto de Campos, do Valdemar Cordeiro. Criei partituras para os poemas concretos. Me interessei pela regência no dia 5 de março de 1956, quando tinha 18 anos. É o dia do aniversário do Villa-Lobos. Criei coragem e fui falar com meu pai que ia ser músico. Foi uma luta brava, ele queria que eu fosse médico, engenheiro, dentista ou advogado.   Regi o primeiro concerto com 21 anos no Teatro Municipal de São Paulo. Até então, sempre tentava entrar pela porta dos fundos, sem pagar. Foi muito bonito quando cheguei de casaca para reger o concerto e o porteiro estava na porta para me receber.   Uma viagem que fiz à Europa contribuiu para a maturação das minhas ideias. Tinha 23 anos. Consegui uma bolsa de estudos na Alemanha e fui lá ter contato com músicos e artistas mais evoluídos, famosos e criadores. A área da regência sinfônica envolve um arcabouço de conhecimentos muito maior e uma maturação e reflexão sobre esse material.   Nessa época, evidentemente, a gente aprende a ter humildade diante da realidade. É típico do estudante achar que já dominou o mundo. É até bom, porque, por não ter consciência de toda a realidade, o jovem tem mais segurança e é mais corajoso. O universo dele acaba ali na esquina e ele tem absoluta segurança de tudo.   Quando relembro os 21 anos, vejo que de fato há uma grande diferença entre ter um conhecimento acadêmico e a vivência desse conhecimento. Essa vivência é o que tenho agora e gostaria de ter tido aos 21 anos. Gostaria de acordar amanhã e ter 21 anos com a cabeça que tenho hoje."

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