Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram
Imagem Rosely Sayão
Colunista
Rosely Sayão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O que o caso Henry nos ensina sobre o mundo dos adultos e o mundo das crianças

Ampla difusão de noticias torna difícil manter filhos afastados de tragédias reais, como a da morte de criança no Rio

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 17h00

O mundo adulto caiu sobre os ombros das crianças faz tempo, algumas décadas, já. E olha que é um peso pesado esse que elas precisam carregar! Nos dias atuais, esse peso se tornou bem maior: acontece todas as vezes em que temos notícias de crianças que morrem vítimas de tragédias que envolvem diretamente os adultos que deveriam ser por elas responsáveis como no caso da morte de Henry, criança de 4 anos cujo padrasto e a mãe são suspeitos pelo crime.

Foi no mundo moderno que a criança se tornou a missão central e prioritária da família. Cuidar dela e educá-la se tornaram as tarefas mais importantes dos adultos de nossa sociedade. Cuidar de uma criança é um conceito amplo, que se transforma de acordo com as mudanças sociais e culturais que experimentamos. Cuidar da criança, até a metade do século passado, era também deixá-la longe do mundo adulto, principalmente de todas as suas mazelas.

Muitos pais de hoje ouviram, quando crianças, a frase: “Isso não é assunto para criança”. Sexo, crimes, tragédias naturais ou humanas, por exemplo, entravam nessa categoria. Não permitir que a criança soubesse da existência dessas questões era uma maneira de protegê-las. Sim, porque é preciso crescer e se desenvolver para criar recursos pessoais para fazer frente a questões tão complexas.

Aliás, é bom reconhecer que, mesmo para adultos, algumas dessas situações são bem difíceis de serem digeridas, não é verdade? São gatilhos para o surgimento de medos, de inseguranças e angústias, de inconformismos, de prostração, de desesperança, que podem ser sensações temporárias, mas que prejudicam o equilíbrio da vida.

Crianças conseguiram ficar distantes dessas situações problemáticas até o surgimento da imagem como transmissora de notícias e acontecimentos. Antes da TV, a criança precisava crescer, se desenvolver e aprender a ler para ter contato com os segredos do mundo adulto. Era preciso se esforçar, portanto, e isso, por si só, já favorece o desenvolvimento da maturidade.

Após o surgimento das telas, as crianças não conseguiram mais não saber o que ocorre no mundo adulto. E temos sinais de que isso criou dificuldades complexas para elas: uma delas foi a constatação em crianças de doenças que, antes, acometiam só adultos. Obesidade, hipertensão, altos índices de colesterol, depressão, ansiedade, problemas gástricos, por exemplo, são algumas doenças consideradas de adultos que hoje crianças apresentam.

Temos um agravante: ao mesmo tempo em que as telas passaram a habitar o mundo infantil e a ter enormes influências sobre as crianças, o mundo adulto adotou para si a ideologia da juventude eterna. Isso significa que, independentemente da idade do adulto, valores da cultura juvenil passaram a ter parte significativa em seus estilos de vida. E pensar em si antes de qualquer outra coisa é uma forte característica do jovem, não é verdade?

Lembra-se, leitor, do filme Esqueceram de mim? Pois é: ele pontuou que, mesmo o adulto fazendo tudo em nome da criança, ela pode ser “esquecida”. Esse fenômeno de a juventude ser mais importante do que a maturidade para o adulto é percebido – sentido - pela criança, que se vê um pouco desamparada e, portanto, insegura nesse contexto. Se o adulto, que dela deveria cuidar e por ela se responsabilizar, está demasiadamente ocupado em viver sua juventude, o que resta a ela?

Voltemos à noticia destes dias: uma criança pequena morre e há suspeitas e indícios fortes de crime com a participação direta da mãe dela e do padrasto. Já passamos por isso anos atrás. E, da mesma maneira, muitas crianças estão, hoje, impactadas com o conhecimento dessa situação. Não há como evitar que elas saibam!

O que fazer? Mães e pais, tias e tios, madrastas e padrastos, madrinhas e padrinhos, avós e avôs, amigas e amigos próximos da família, vizinhos, adultos em geral, todos, todos eles são pessoas em quem a criança deveria confiar, com quem deveria contar. E agora? Como fica ela ao tomar contato com essa notícia? Não temos vacina contra a presença do mundo adulto na infância. Igualmente, não há como retroceder no tempo.  

Elas podem reagir ao conhecimento dessa tragédia sem saber que é isso que tem provocado algumas mudanças em seu comportamento – mais ainda! -, desobediências, birras, dificuldades para dormir e/ou acordar, comer demais ou de menos etc.

Mais do que nunca, precisamos estar a seu lado nesse momento, amorosamente, e comunicar, com palavras e atitudes: “Eu aguento”, “Eu farei tudo para te proteger”, “Sou uma pessoa em quem você pode confiar”. E, acima de tudo, honrar diariamente essas afirmações.

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

Tudo o que sabemos sobre:
ciênciaeducaçãopsicologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.