O peso da tradição

Para ajudar os pais a decidirem onde matricular os filhos, o Estado ouviu depoimentos de ex-alunos de dez escolas de cada região de São Paulo, escolhidas com base no ranking do Enem 2008. A intenção foi traçar um quadro da oferta de educação na cidade que alie duas características, qualidade e localização, valorizadas pela maioria das famílias. Quanto aos ex-alunos, a maioria deles indicados pelas próprias escolas, a intenção foi entrevistar pessoas de diferentes perfis: universitários, jovens bem-sucedidos na carreira e profissionais de renome.   Nesta última categoria está o ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique de Brito Cruz, de 52 anos, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das maiores agências de financiamento da ciência do País. Ele estudou no Colégio Dante Alighieri, em Cerqueira César. Foi lá que o interesse de infância por temas científicos começou a virar coisa séria.   "O professor Wilson Tucci, um físico, apoiava muito os alunos. No 2º ano aceitou dar, de graça, duas horas a mais de aula sobre física moderna para mim e mais quatro ou cinco alunos", diz o cientista. "Então, naquela época, eu já estudava física quântica, teoria da relatividade e teoria atômica."   Brito Cruz considera a passagem pelo Dante fundamental na sua carreira. "Serviu de base para tudo que aprendi na universidade e para as pesquisas que faço até hoje", diz. "Tive acesso a uma educação de muito boa qualidade, exigente, que criava oportunidade para os alunos: íamos ao teatro, ao cinema. Olhando para trás - porque na época eu não tinha essa consciência -, o que faz uma escola ser boa é ter alunos capazes de aprender em um ambiente estimulante."   Um dos dez melhores colégios da região central segundo o Enem, o Dante ocupa o 29º lugar no ranking paulistano. Está exatamente no meio de outros dois colégios tradicionais, o São Luís (28º) e o Rio Branco (30º).   Calouro de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP, Matheus Ferraz, de 18 anos, ainda tem as lembranças do São Luís frescas na memória. "Se não tivesse estudado lá, provavelmente não teria conseguido entrar na Poli. O colégio prepara muito bem os estudantes, não só para o vestibular, mas para a vida", diz Matheus. "Da 6ª à 8ª série, o São Luís está bem mais preocupado com a formação dos alunos. A gente teve aula de história clássica. Os vestibulares não cobram mais isso, mas enriquece a formação. Também tivemos aula de artes até o 1º ano do ensino médio. Estudamos dos clássicos ao modernismo brasileiro, de Da Vinci a Tarsila do Amaral."   Escritor de livros infantis, Jonas Ribeiro, de 39, estudou no Rio Branco e também elogia a formação clássica que recebeu. Diz que o gosto pela leitura foi incentivado no colégio. "O acervo da biblioteca era muito variado. Li Camões, muita poesia. E eles sempre mantinham os lançamentos em evidência", afirma. "A qualificação dos professores e o espaço físico também eram muito bons. Já visitei mais de 900 escolas dando palestras e posso garantir que o ensino lá no Rio Branco é de ponta."   MACKENZIE   Outra instituição tradicional da região é o Mackenzie, fundado em 1870 por presbiterianos, que ajudou Débora Morf, de 18, a entrar no curso de Química da USP no último vestibular da Fuvest. Débora morava em Natal (RN) e optou pelo Mackenzie depois de muita pesquisa. Evangélica, tinha preferência por uma escola com tradição religiosa. "Não tínhamos ensino religioso. Mas as aulas de ética abriam espaço para a reflexão sobre temas como homossexualismo e gravidez na adolescência", conta. "É uma escola que preza pela formação ética, que te permite refletir sobre o mundo depois de sair dela. Evita que você seja um alienado."   Os valores religiosos também são citados pelo técnico de handebol Sergio Hortelan, de 45, como um dos diferenciais do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, no Cambuci. "Ele valoriza o fortalecimento da família." Hortelan entrou no colégio como bolsista, por sugestão do professor de Educação Física Ricardo Faro, que o tinha visto jogando handebol pelo Corinthians. "Se não fosse isso, não seguiria carreira", diz Hortelan, que disputou uma Olimpíada e nove Mundiais como atleta e técnico e atualmente treina a seleção brasileira de juniores.   Com mestrado em prática esportiva na USP, Hortelan foi professor no Nossa Senhora da Glória por oito anos. Matriculou lá as três filhas, de 8, 14 e 16 anos. Aprova a linha construtivista do colégio, mas se preocupa com o futuro das filhas. "A escola tem de preparar para o vestibular."   EXCELÊNCIA TÉCNICA   Tradição e excelência não são exclusividade de escolas particulares. Duas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) e o Liceu de Artes e Ofícios, fundados no século 19, estão entre as dez melhores escolas do centro em desempenho no Enem. A líder desse ranking, aliás, é a Etec São Paulo, na Luz. Aluna do 2º ano de Design na USP, Luciana Heuko, de 21, deixou o Colégio Rainha da Paz, no Alto de Pinheiros, para estudar na Etec São Paulo por influência do irmão, que tinha cursado uma escola técnica federal. "Na Etec havia liberdade. Era uma escola de portas abertas e você decidia se queria se dedicar ou não. Os professores te tratavam mais como adulto."   Luciana gostou do clima politizado da Etec São Paulo, estimulado pelos professores. "O estudante é levado a debater questões políticas e sociais, como um fórum que fizemos sobre o referendo do desarmamento. Tivemos um debate sobre o tema, que foi polêmico, com opiniões divergentes. Os professores são engajados política e socialmente e isso faz com que os estudantes reflitam sobre várias questões, o que talvez não ocorresse em um colégio particular." Apesar dessa boa formação e da qualidade do curso, Luciana teve dificuldades para entrar na USP. "A carga horária do técnico na escola é grande e o ensino médio regular é fraco. Não dá para passar no vestibular", diz. "Fiz um ano de cursinho e tive de estudar muito para conseguir a vaga na USP."   Aluno do 1º ano de Processos de Produção na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), Rafael Vitoretti, de 18 anos, fez parte da última turma do curso de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios, na Luz. Como Luciana, ele acha que o tratamento dispensado pelos professores na instituição fez os alunos amadurecerem. "O ensino é profissionalizante, os professores te tratam de forma mais adulta, porque você vai para o mercado de trabalho", afirma. "Isso mudou a minha vida e a minha forma de ver o mundo."   Durante a passagem pelo Liceu, Rafael conseguiu um estágio na Steck, fabricante de material elétrico, onde pretende seguir carreira. "O Liceu tem tradição de formar bons profissionais para o mercado. Três pessoas que trabalham comigo, entre eles o meu chefe, estudaram lá." Esse é um dos motivos pelos quais ele não se conforma com a desativação do curso de Mecânica. "Alegaram para a gente que não tem mercado. Não sei de onde tiraram isso."   RECÉM-CHEGADO   Com tantas instituições antigas - o Liceu, por exemplo, foi fundado em 1873 -, a região central acaba de "ganhar" uma escola de elite relativamente jovem, o Colégio Equipe, surgido em 1968. O Equipe está de saída do Butantã, zona oeste, e inaugura, em 2010, a nova sede, em Higienópolis. Mas não é só pelo tempo de vida que o Equipe, 25º colocado no ranking geral do Enem na cidade, destoa dos demais. Sua imagem é bem diferente da de escolas como Dante, Rio Branco e Mackenzie, que sempre valorizaram a disciplina.   O fotógrafo Iatã Cannabrava, de 47, estudou no Equipe nos anos 80 porque o colégio foi o único a aceitar sua documentação escolar. Cannabrava tinha acabado de voltar de Cuba com os pais, exilados políticos durante a ditadura. "O Equipe tinha uma visão de esquerda. Aceitou minha matrícula correndo o risco de ser perseguido (pelos militares)." Contemporâneo do cantor Arnaldo Antunes e do jornalista Serginho Groisman, Cannabrava pegou o Equipe em plena efervescência cultural. "Era um ambiente de contracultura, liderado pelos estudantes. O Serginho Groisman era o diretor do Centro Acadêmico e promovia peças de teatro. Eu tinha estudado em escolas públicas, onde o ensino era muito rígido e disciplinado. De repente, estava num centro de rebeldia e questionamento, com gente bonita produzindo música, arte. Melhor, impossível, mas fiquei assustado no início", diz o fotógrafo. "Seria como, hoje, sair do Capão Redondo e entrar no ambiente da elite paulistana."   Indagado sobre eventuais pontos negativos do Equipe, Cannabrava mostra que continua fiel ao espírito questionador da época em que estudou lá. "Nunca fui mau aluno, mas não via a hora de acabar. Nunca concordei com a dinâmica das escolas. É um modelo ultrapassado e repressor."

Isis Brum, especial para O Estado,

15 Outubro 2009 | 10h41

Mais conteúdo sobre:
Ponto edu

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.