Ricardo Chicarelli/Estadão
Ricardo Chicarelli/Estadão

Cortella: ‘O mundo tem muitas distrações, nos falta o tédio’

Em parceria com Maurício de Sousa, ele lança seu primeiro livro direcionado para crianças e pede reflexão

Entrevista com

Mario Sergio Cortella, fílósofo

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2017 | 05h00

Depois de publicar mais de uma dezena de obras para o público adulto, o professor e filósofo Mario Sergio Cortella lança pela primeira vez um livro voltado para crianças e jovens. Com a intenção de provocar o que chama de um “encantamento filosófico”, Cortella se juntou ao escritor e cartunista Maurício de Sousa para criar Vamos pensar um pouco?

“Fiz um livro com alguém que eu lia quando estava sendo alfabetizado. Os personagens do Maurício fazem parte da minha trajetória. Ele construiu um universo muito encantador que dialoga agora com a Filosofia”, afirmou Cortella. A publicação aborda questões do cotidiano e faz um convite às famílias para estimular crianças e jovens a refletirem. Leia, a seguir, trechos da entrevista de Cortella ao Estado:

O senhor tem vários livros para o público adulto. Por que decidiu se dirigir às crianças dessa vez?

A primeira intenção era trazer um pouco de reflexão filosófica para crianças e jovens sem balizar a reflexão, mas também sem sofisticá-la a ponto de parecer incompreensível. A segunda intenção é que a leitura produzisse algum encantamento filosófico. 

O senhor acha que a forma como vivemos – a educação e a rotina das famílias – estimula pouco a reflexão nos jovens?

Vivemos em um mundo onde há pouca atenção focada e muitas distrações, nos falta um pouco de tédio. O tédio é necessário para que você se dedique mais à reflexão, à meditação. Quando não tínhamos o que fazer, a gente costumava – eu costumo ainda – ficar pensando. Haja visto quando acaba a energia em casa, o Wi-Fi sofre uma queda ou o WhatsApp fica fora do ar: as pessoas precisam se encontrar. O encontro pode se dar com outra pessoa ou com alguma literatura ou reflexão interna. Hoje temos uma convivência muito preenchida de atividades, conexões e obrigações que levam a uma rarefação dos tempos mais específicos para pensar, refletir. Por isso, fizemos o convite de pensar um pouco e não pensar pouco. 

O livro fala sobre a ausência da diversidade criativa. Como ela afeta as crianças?

Alguns pais limitam a capacidade criativa das crianças. Um indício é que é cada vez mais recorrente nas festas de aniversário uma coisa estranhíssima chamada animador de crianças. Desde quando crianças precisam de alguém que as anime? O que anima um grupo de crianças de 10 anos é a ausência de um adulto. Você vai a um hotel, resort ou festa e tem um animador de crianças. Isso é tirar delas a capacidade de inventarem.

O senhor também aborda a intolerância no livro. Ela está mais presente atualmente?

Não estamos mais intolerantes, temos sim contato maior com a diferença. Não pudemos testar em tempos não tão distantes qual era a nossa capacidade de tolerância, afinal não tínhamos acesso a tanta informação e expressão livre da diversidade como agora. Havia uma invisibilidade muito forte dos considerados diferentes. Agora, como eles podem falar, reclamar e se expressar, isso produz para muita gente uma reação negativa. Também temos as redes sociais, que permitiram a quem tivesse algum tipo de percepção imbecil da vida um espaço para dizer isso. Em outros momentos, o imbecil tinha pouco palco para poder ser imbecil. Hoje não mais. Na outra ponta, aquele que não é imbecil também tem mais espaço para se manifestar. Portanto, há um certo equilíbrio, e nós notamos cada vez mais a necessidade de recusar essa intolerância, exatamente porque estamos tendo mais contato com a diversidade. 

O que o senhor gostaria de despertar nas crianças com o livro?

Gostaria que despertasse outras questões. Esse livro é um ponto de partida, não de chegada. Serve para que pais e filhos construam algumas trilhas. Tem muito mais a finalidade de abrir grandes espaços e janelas do que fechar portas.

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