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O MEC e a educação midiática

Saber discernir o que é verdadeiro, confiável e válido na enxurrada de informações em que vivemos é uma habilidade que precisa ser ensinada

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 05h00

Depois de uma semana de denúncias na imprensa sobre o Ministério da Educação, iniciadas pelo Estadão e que levaram à investigação de Milton Ribeiro pela Polícia Federal, é espantoso que ele ainda esteja no cargo. Em qualquer democracia séria, o ministro já teria sido afastado, não como presunção de culpa, mas para que as apurações possam ser feitas livremente e para impedir que eventuais crimes de corrupção continuem.

Mas para aquelas pessoas que sorriam e levantavam celulares para Jair Bolsonaro semana passada em Quixadá, no Ceará, isso não é óbvio. O fato de o esquema ter sido denunciado pela imprensa transforma, para muitas delas, tudo em mentira. E a verdade se torna apenas aquela que sai da boca do mandatário que anda de moto sem capacete e, durante o escândalo do MEC, diz que “são três anos e três meses sem corrupção” em seu governo.

Saber discernir o que é verdadeiro, confiável e válido na enxurrada de informações em que vivemos é uma habilidade que precisa ser ensinada. Para crianças, jovens, adultos, velhos. Ela já tem até nome, para quem ainda nunca ouviu falar: educação midiática. Os grandes especialistas, como Renne Hobbs, da Universidade Rhode Island, dizem que “o conceito de alfabetização está se expandindo como resultado das mudanças na mídia, na tecnologia e na natureza do conhecimento”. Não basta ler as palavras, é preciso saber interpretá-las criticamente.

Já há formação para professores e guias, como os do Instituto Palavra Aberta, e muitas pesquisas, mas é preciso disseminar ao máximo esse novo conhecimento. É possível ensinar a analisar as fontes, as intenções, o contexto da informação, para acreditar no que merece crédito e desconfiar do que não é sério.

As crianças, seus pais, avós – e o presidente da República – precisam aprender que demonizar a imprensa enfraquece a democracia. A liberdade é de todos para produzir conteúdos e divulgar, mas são os jornalistas que investigam, entrevistam e só publicam quando checam a veracidade dos fatos.

Milton Ribeiro e seus pastores continuam mandando na educação porque, além dos interesses políticos, o governo sabe que parte da população não acredita em nada do que está sendo dito. O presidente vem ensinando há anos que mensagem de Telegram é mais confiável que jornal.

Um novo ministro ou ministra da educação em um próximo governo não tem apenas que reconstruir a política educacional brasileira e recuperar as incontáveis perdas. Deve investir na educação midiática como pré-requisito para a cidadania e a participação na sociedade.

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