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‘O mau uso dos rankings pode trazer efeitos indesejados para a educação’

Entrevista com Eduardo de Carvalho Andrade, pesquisador do Insper

Mariana Mandelli, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2010 | 15h04

Para o economista especialista em educação e professor associado do Insper (ex-Ibmec) Eduardo de Carvalho Andrade, o foco nos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) pode levar a um alvo que não seja a qualidade da educação. Segundo o pesquisador, os rankings feitos pelo Ministério da Educação (MEC) são questionáveis.

 

A seguir, leia a entrevista que ele deu ao Estado sobre sua pesquisa Rankings em Educação: Tipos, Problemas, Informações e Mudanças.

 

A escolha de uma instituição de ensino não deve ser baseada nos rankings?

 

Ela não deve ser orientada apenas pelos rankings. Não precisamos desprezá-los, mas eles estão tendo um impacto excessivo no mercado. Diretores de escolas, alunos e pais estão olhando para eles sem saber como são feitos efetivamente. Para levar um ranking como o do Enem ou o do Enade em consideração, devemos, primeiro, saber como são compostos.

 

Qual as maiores deficiências do ranking do Enem?

 

São várias. Ele não avalia a educação infantil e o ensino fundamental da escola ranqueada. Ou seja, não reflete necessariamente a qualidade da instituição a longo prazo. Além disso, se você coloca só alunos top na escola, é claro que eles vão sair top de lá. Assim, é difícil identificar os valores e o conhecimento que a escola agregou a esses estudantes. Sem contar que existem escolas com a política deliberada de expulsar alunos que não conseguem acompanhar o nível de ensino. Ou seja: você elimina alunos não porque eles não agregam conhecimento, mas sim porque o desempenho deles pode prejudicar a posição da escola no ranking. Isso não é uma política inclusiva.

 

De que forma o ranking não reflete as habilidades adquiridas pelos alunos?

 

Escolas que deem ênfase para habilidades não medidas pelo Enem podem ser prejudicadas no ranking. Por exemplo: o exame não mede a capacidade do aluno de trabalhar em grupo e se expressar oralmente. Os colégios que dão importância para essas competências não vão aparecer no topo, o que não significa, de forma alguma, que sejam ruins. Também não devemos esquecer que, no Enem do ano passado, que teve grande abstenção, não temos como saber se o grupo de alunos que fez a prova realmente representa a escola. O resultado do ranking, portanto, pode ser distorcido.

 

Quais as principais deficiências que você enxerga no ranking do Enade?

 

Basicamente, são duas. O ranking sugere que notas melhores no Enade indicam algum tipo de benefício para o indivíduo ou a sociedade. Mas não temos como provar que o aluno formado por essa instituição é um profissional melhor, que recebe salários maiores e é mais valorizado no mercado de trabalho. Ou seja: mais uma vez, o ranking não reflete a qualidade da educação da instituição avaliada. O que deveria ser ranqueado é o impacto desses formados no mercado. Além disso, o ranking do Enade é formado por diversos componentes, de diferentes pesos, aglutinados num único indicador.

 

Você é contra os rankings?

 

Não. Mas os pais, estudantes e instituições de ensino devem estar atentos a outros aspectos das escolas. Você colocar seu filho na educação infantil de um colégio só porque o ensino médio dele está bem ranqueado é algo passível de discussão. A distância entre essas etapas de ensino é tão grande que a escolha deve ser muito bem pensada. Os rankings deveriam ser apresentados com franqueza, deixando claras as suas deficiências, porque o mau uso deles pode ter efeitos indesejados.

 

QUEM É?

É graduado e mestre em Economia pela PUC-RJ e Ph.D. pela Universidade de Chicago. Pesquisa economia da educação. Foi pesquisador do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard, em 2002.

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