O Haiti vai ser aqui

Depois de terremoto devastar universidades, programa prevê que Brasil receba 500 alunos

Larissa Linder, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2010 | 23h28

O terremoto que destruiu o Haiti em janeiro devastou também o ensino superior do país. A tragédia provocou a morte de 2.906 alunos e 150 professores, destruição nos câmpus e dispersão na comunidade universitária, com migrações para o interior do país ou para a vizinha República Dominicana. Parte da reconstrução do cenário acadêmico será feita no Brasil, em universidades que se dispõem a receber 500 haitianos nos próximos anos.

 

Faculdade no Haiti destruída por terremoto

 

Johny Fontaine, de 27 anos, que cursava Antropologia, é um desses haitianos que sonham em retomar a rotina estudantil. “Os alunos estão abandonados, não há professores: ou morreram ou foram para outros lugares. Está tudo parado”, lamenta.

 

Johny, que ainda está no Haiti, só teme ser barrado pela burocracia e pelo excesso de regras do processo seletivo, que inclui uma série de exigências das faculdades daqui, como apresentar uma extensa documentação ou já ter concluído 40% do curso – ele está no último ano da graduação. “Não sei se vou conseguir, mas seria uma grande chance ir para o Brasil, com certeza.”

 

“Pouco tempo depois do terremoto, os alunos tentaram improvisar, fizeram aulas embaixo de lonas. São pessoas esforçadas, que querem muito retomar as coisas. Eles não têm estrutura capaz de absorvê-los agora. Se ficarem ao relento como estão, correm o risco de se perder”, afirma o pesquisador Sebastião Nascimento, do Departamento de Antropologia da Unicamp. A universidade é uma das quatro instituições que já se cadastraram no programa – as outras são as Federais de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Carlos. “Sem pesquisadores, professores e alunos, não há como reconstruir o país.”

 

Antes do terremoto, local abrigava uma faculdade de Enfermagem

 

Pelo convênio, os estudantes devem ficar os primeiros quatro meses estudando português nas universidades. No Haiti, a língua oficial é o francês, mas a maior parte da população fala o dialeto creole. Depois, vão passar um ano em algum curso de graduação, em áreas estratégicas como Engenharia e Medicina.

 

Nenhum dos haitianos poderá se graduar no Brasil. De acordo com o Itamaraty, a regra foi adotada para atender ao objetivo final do programa, que é dar aos alunos “maiores condições de auxiliar no desenvolvimento social e no incremento do quadro de profissionais de áreas essenciais”.

 

Para facilitar a vida dos estudantes, as universidades brasileiras que concordaram em cooperar prometem fazer um acompanhamento bem de perto. Na UFSC, por exemplo, eles devem receber um tipo de padrinho. “Queremos que eles morem com alguém daqui, em casas de famílias cadastradas para receber intercambistas ou em repúblicas estudantis, para que entrem em contato com a cultura e não fiquem desamparados”, diz Ênio Pedrotti, secretário de Relações Institucionais e Internacionais da universidade.

 

Destruição nos câmpus foi agravada pelo fato de principais faculdades ficarem perto do epicentro do terremoto

 

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) dará um auxílio de R$ 500 para que os haitianos se instalem. Os universitários receberão mais R$ 500 por mês, de ajuda de custo.

 

Até o momento, a Unicamp lidera em oferta de vagas: 81, espalhadas em 19 cursos. A universidade já tinha uma ligação mais próxima com o Haiti. Na época do terremoto, um professor e um grupo de estudantes de Ciências Sociais faziam intercâmbio no país – nenhum deles morreu.

 

“Esperávamos uma cooperação maior por parte das outras instituições, nos surpreendemos”, diz o pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel. Para Nascimento, a baixa adesão das universidades para receber os estudantes está associada à burocracia do processo. Outro motivo seria o interesse pequeno das instituições em ter acordos de cooperação internacional com países de pequena tradição acadêmica.

 

Sem garantias

 

O embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipmann, atribui a burocracia e a morosidade no processo ao governo caribenho. Segundo ele, não é certo que, na volta, os estudantes encontrem uma estrutura pronta para recebê-los, já que a responsabilidade pela reconstrução da infraestrutura das universidades é do Haiti. “Eu espero que sim, mas é algo que não temos como garantir.”

 

As inscrições para os estudantes participarem do programa começaram no dia 20 e vão até 15 de outubro. A divulgação da iniciativa no Haiti foi feita por meio de rádio, jornais, internet e até por telefone. A intenção dos organizadores é que haja tempo hábil para que até moradores de regiões distantes de centros urbanos participem. Após a análise de documentos e de currículos, os estudantes passarão por entrevista feita por uma missão que será enviada ao Caribe pela Capes.

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