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O gestor do envelhecimento busca a qualidade de vida em qualquer idade

Conheça as principais áreas de atuação desse profissional, que é considerado uma espécie de guardião da velhice

VIVIANE ZANDONADI- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

23 Junho 2015 | 15h00

A gerontologia é a área de atuação que enxerga a velhice como a sucessão dos dias, o desdobramento do tecido físico, psicológico e social das pessoas. E enxerga assim não só para lidar com as fragilidades quando elas já existem, mas desde o nascimento. É a constatação de que éramos mais jovens há 55 palavras, e também de que quem envelhece pode usar o fio todinho da vida. A questão é: como se faz e quais recursos temos para viver melhor?

O modo como a sociedade lida com o envelhecimento em termos de cuidado e promoção de serviço e atendimento tem relação direta com a qualidade da existência em qualquer idade. Tudo isso situa a profissão, a formação e a trajetória dos chamados gerontólogos (ou gestores do envelhecimento) em cenário de futuro e em uma tendência observada por muitos especialistas em gestão de pessoas e carreiras: a busca por uma ocupação que atrai não só pelas promessas do bom mercado, do salário e a possibilidade de ser “bem-sucedido”, mas por um significado pessoal, um compromisso coletivo, um propósito maior.

Gestores do envelhecimento são formados em cursos de graduação de característica multidisciplinar como os oferecidos pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP Leste, o primeiro do Brasil, criado em 2005) e pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar, implementado em 2009). Dá para dizer que seus egressos estão fazendo história e o farão ainda por um bom tempo, contornando alguns preconceitos e abrindo espaço para as próximas gerações.

As formações bastante novas oferecem uma cobertura abrangente em humanas, exatas e biológicas. Os estudantes aprendem sobre questões médicas, do direito, da fono e da fisioterapia e da economia, entre outros temas. Enquanto gerontólogos, porém, não serão geriatras, fonoaudiólogos nem advogados. A rigor, sairão da escola prontos para integrar o aprendizado às situações da velhice – dos velhos e das pessoas que se relacionam com os velhos. Vão trabalhar na pesquisa acadêmica, em clínicas, asilos e hospitais ou em empresas privadas, nesse caso com uma levada mais administrativa. Há oportunidades também na consultoria familiar e no desenvolvimento de políticas públicas.

Sua função é analisar os casos e ligar os pontos da saúde, do planejamento financeiro, do relacionamento com crianças e famílias. Deve estar disposto a ouvir, favorecer a autonomia possível e compreender a história de cada um. No lugar de disputar território em medicina geriátrica ou assistência social e psicologia, por exemplo, o gestor trabalha junto com essas áreas a fim de contribuir para um atendimento mais eficiente à população.

Tendências – “O gerontólogo atua para atingir objetivos por meio da articulação de cuidado, organizações e pessoas. É importante ressaltar que o termo cuidado tem, nessa afirmação, um significado que ultrapassa as questões de saúde, pois abrange o amplo sentido da atenção”, diz o engenheiro Celeste José Zanon, professor do departamento de gerontologia da UFSCar e líder do grupo de pesquisa Estratégias de Marketing e Operações em Gerontologia.

Zanon explica que o curso da UFSCar tem formação interdisciplinar, voltada para a pesquisa, a gestão da velhice saudável e a gestão da velhice fragilizada, e que atualmente conta com professores formados em enfermagem, fisioterapia, educação física, farmácia-bioquímica, fonoaudiologia, direito, ciências biológicas, medicina, serviço social, terapia ocupacional, ciências sociais e engenharia. “Estou certo que a gerontologia será uma das ciências protagonistas no que diz respeito às mudanças de cultura do envelhecimento. A velocidade do processo de envelhecimento no Brasil, cinco vezes maior do que na França, conforme relatório do Banco Mundial, deve trazer efeitos sociais relevantes a serem considerados pelos órgãos públicos. A gerontologia pode auxiliar nas adequações das atuais políticas sociais e na construção de novas, na valorização e proteção do público e a vencer os estereótipos negativos do envelhecimento.”

Zanon destaca que o gerontólogo contribui na gestão de programas e de instituições que apresentam foco no processo de envelhecimento, realizando melhorias na qualidade de vida, e que isso pode reduzir custos de hospitais, operadoras e outras instituições. “A probabilidade de obter resultados é maior para um profissional que se submeteu a uma formação interdisciplinar.” Segundo o professor, há muitas demandas relacionadas a esse público e, embora sejam recentes, existe também uma aceleração das ofertas de emprego, pois o mercado tem percebido os resultados e constatado a velocidade do envelhecimento, um fator relevante. “Produtos e serviços devem passar por readequações e a comunicação necessita ser repensada. Não podemos esquecer que o público sênior é multifacetado e a segmentação influencia o consumo. (...) Posso citar duas tendências: inovação de produtos e serviços gerontológicos centrada na gerontotecnologia e marketing orientado ao público sênior.”

Gestores do envelhecimento – O bacharelado em gerontologia da USP Leste surgiu justamente em resposta à demanda: o número de velhos está crescendo no Brasil. Hoje eles representam 13% da população, ou 23 milhões de pessoas. Em 2050, haverá mais velhos do que crianças. “Quando a gente fala em envelhecimento, fala do nascimento ao fim da vida. O gerontólogo vai atuar até depois disso, porque ele trabalha com as famílias para lidar com o luto. Isso é a gestão do envelhecimento”, explica a professora Rosa Chubaci, coordenadora do curso. “Cada vez mais precisamos oferecer à população a possibilidade de encaminhar um envelhecimento saudável, de ter uma vida mais proveitosa na velhice e que essa qualidade continue mesmo entre os que vivem nos asilos, com demência e Alzheimer avançado ou algum tipo de deficiência na funcionalidade.”

Rosa explica que o objetivo é que os gerontólogos deixem a USP em condições de lidar com o envelhecimento em diversos contextos, atuando, por exemplo, na consultoria para a família que tem dificuldade de lidar com seu idoso, nos serviços dirigidos aos velhos e no desenvolvimento de políticas públicas, programas e projetos. Eles vão criar situações de convívio e relacionamento em que os velhos sejam tratados do modo como todos desejam ser tratados. Muito bem. Estão entre as possíveis atribuições, portanto, a pesquisa e a educação acadêmica, o fortalecimento de redes de apoio, a divulgação do conhecimento, a atuação em equipe e o reconhecimento dos idosos de uma maneira integrada. A formação generalista e o perfil do estudante farão surgir bons escutadores - profissionais que sabem ouvir.

Formada pela USP Leste, Priscila Pascarelli Pedrico do Nascimento é gerontóloga na Unidade Gerontológica Paulista (UGP), um hospital particular no Cambuci, em São Paulo. Ela conta que foi atraída para o curso pela proposta inovadora, a visão abrangente da profissão. “No começo foi bastante difícil. Eu vinha de uma formação tradicional, com o conhecimento que parte das caixinhas, tudo separado. Adquirir essa visão holística e geral foi um desafio, mas hoje eu já não consigo pensar de outra forma.” Ao longo da graduação, Priscila trabalhou na Universidade Aberta da Terceira Idade, mantida pela USP, e cumpriu os estágios em instituições de saúde e de atendimento social pedidos pela universidade. Na iniciação científica, estudou primeiro a violência e depois a fragilidade da velhice. Fez mestrado e agora está a caminho do doutorado.

Na UGP do Cambuci, começou em cargo administrativo no setor de convênios, onde fazia captação e admissão de pacientes e o contato com a família e a equipe de profissionais do hospital. Hoje convive com os pacientes. “A ideia é quebrar o clima de hospitalização e obter uma qualidade de tempo melhor para eles, porque a média de internação aqui é de 560 dias. Sendo um hospital de retaguarda, geralmente há pacientes crônicos, que têm doença neurológica degenerativa ou que estão em reabilitação de pós-operatório, com alguma indicação de assistência 24 horas.” No espaço compartilhado entre fonoaudióloga, fisioterapeuta, gerontólogas, psicóloga e enfermeiros, o trabalho é pautado pela estimulação cognitiva de linguagem, memória, atenção, cálculo, atividades de estimulação motora, de orientação espacial e temporal.

“Cada profissional tem um olhar dirigido para a especialidade. Meu papel é compreender isso e direcionar o atendimento caso a caso considerando a heterogeneidade e a necessidade do paciente. Antes a proposta de atividades era mais generalizada e muitas vezes desconsiderava as limitações, preferências e características individuais. Uma das coisas que senti necessidade foi de contribuir para essa mudança. Eu não consigo me ver sozinha, sem os outros. Trabalhamos coletivamente e minha formação propiciou essa integração de olhares. Na discussão de um caso, consigo fazer a conexão das várias áreas e tenho os instrumentos para também atuar junto à família, suas dúvidas, culpas e questionamentos. Acho também que melhoramos a linguagem, a comunicação.”

Priscila se lembra de no começo ouvir o uso de termos como ‘perninha’ e ‘bracinho’, em lugar de perna e braço, e de serem adotados nas atividades de estimulação materiais infantis. “Não se percebia que isso reforçava a infantilização dos pacientes ou passava a imagem de que se trata de um ambiente para brincar. Agora, se não tivermos os objetos mais adequados a um perfil, usamos nossa criatividade e fazemos outras propostas de atividade. Isso faz diferença.”

Contemporânea de Priscila na universidade, as duas ingressaram no curso da USP em 2008, Tamiles Mayumi Miyamoto é gerente do Núcleo de Convivência do Idoso Novo Signo, que também fica em São Paulo, na Vila Clementino. Trata-se de uma instituição filantrópica ligada à prefeitura e que atende no período da manhã os que desejam participar de atividades físicas, de artesanato, informática etc. “Cuido de toda a parte estrutural, no sentido de organizar o cronograma, a promoção de oficinas, passeios e festas, e também das coisas de administração e contabilidade. Acho que o curso deu uma boa base para tudo isso. Um dos desafios é saber lidar com um público bastante heterogêneo onde não cabe jamais a generalização, porque são pessoas, indivíduos. Gosto desse contato com eles e de oferecer programas culturais e sociais que tragam novas experiências e os tirem da rotina.”

Para quem pensa em estudar gerontologia, Tamiles acha que é importante saber que há um campo bastante vasto de possibilidades e que a gerontologia é, sim, o estudo do envelhecimento, mas que este se abre para muitas carreiras diferentes em biologia, sociedade e psicologia. “Tenho uma amiga que trabalha em um laboratório e me diz ‘hoje eu abri a cabeça de não sei quantos camundongos para examinar o cérebro e estudar o Alzheimer’. Um trabalho que não tem nada a ver com o meu no núcleo de convivência, por exemplo.”

Na faculdade, Tamiles estagiou nos mais variados serviços e por duas vezes depois de formada conseguiu bolsa de estudos voltados para cuidados e assistência social do idoso no Japão. São bolsas oferecidas pela Japan International Cooperation Agency (Jica), um órgão com foco no desenvolvimento de projetos no país de origem. Paralelamente ao trabalho no núcleo, Tamiles faz um mestrado na Universidade Federal do ABC em que justamente levanta um comparativo dos serviços sociais e assistenciais do Brasil e do Japão. “O Japão é mais antigo e acho que tem um tipo de velhice perfeita. Está muito adiantado e há muitos velhos de mais de 70 anos andando de bicicleta com a maior autonomia. Houve um planejamento maior, desenvolveu-se uma infraestrutura melhor. No laboratório de gerontologia da universidade eu pude usar, por exemplo, um aparelho que acoplamos ao corpo e simulamos o andar de um velho com todas as usa dificuldades. E há muitas outras tecnologias nesse sentido.”

As lições do Japão e a cultura do envelhecimento no Brasil – Das sociedades que se preocupam em ouvir e respeitar os velhos por tradição e não infantilizam as relações com eles nem relegam sua condição à situação de espera pelo fim, o Japão tem experiências inspiradoras. A professora Rosa Chubaci fez por lá um curso de especialização e bem-estar do idoso. No depoimento a seguir, ela fala um pouco desse aprendizado.

 “O Japão é um país em que os idosos, na minha visão, podem viver felizes, porque eles têm uma condição de serviço e de atendimento interligada. Até quinze anos atrás, ou menos, o Japão tinha a mesma situação do Brasil, onde temos modelos excelentes isolados e que se concentram em uma região, e que não atende igualitariamente a população. Aí eles fizeram estudos e visitaram vários países, como Dinamarca, Nova Zelândia, Austrália, França, Alemanha, Holanda e Canadá, para ver o sistema de atendimento ao idoso em cada lugar. Como precisavam de dinheiro para montar esse sistema, criaram um novo seguro para as pessoas acima de 40 anos.

Nesse ‘seguro de bem-estar’, quem tem mais de 40 anos paga uma taxa para o governo que depende do salário. Quando fizemos as contas, o máximo que uma pessoa pagava era 250 reais, isso quem tinha um super salário. Duzentos e cinquenta reais por mês. Esse dinheiro seria exclusivamente para criar serviços para idosos. Então, do montante de 100%, vamos supor, de um centro de convivência, 50% vêm dos recursos do governo, que são os impostos e tal, 40% vêm desse seguro e 10% o idoso paga. Não existe o serviço gratuito, mas pagar 10% sabendo que todos têm uma aposentadoria razoável acaba sendo possível. Criaram portanto um conjunto de serviços que existe em Tóquio e em outros lugares e inclui desde atendimento domiciliar, centros de velhice em que os clientes passam o dia, frequentam para fazer algumas atividades específicas ou moram, hospitais de retaguarda, cuidadores. Todo esse conjunto existe para cada 50 000 habitantes.

Eles investem no envelhecimento saudável, porque viram que não basta criar asilos, é preciso fazer com que os idosos fiquem ativos por um período bem grande, para que se sintam útei. Investem muito em centros públicos de envelhecimento ativo com atividades físicas, manuais, culturais e de lazer. Você vai para o Japão e fala, ‘ah, o Japão é pequenininho e devem ser pequenos esses centros’. São enormes e supermodernos. Nas chamadas instituições de longa permanência, por exemplo, eles tentam manter as características do quarto deles. Fazem questão de trazer móveis que lembrem esses lugares. Algumas têm termas de água quente. E há gestores de gerontologia em todos os locais. O gerontólogo tem, sim, um grande campo e o Japão comprova nessa experiência que precisamos desses profissionais.”

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