Alex Silva/Estadão - 14/06/2022
Alex Silva/Estadão - 14/06/2022

O futuro sustentável que passa por sala de aula e conhecer o diferente

Iniciativas ESG ajudam a cumprir a meta global de assegurar educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos

Ocimara Balmant, especial para o Estadão

20 de junho de 2022 | 05h00

Há sete anos, a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável lançou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma agenda mundial composta por 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030. A meta de número 4 é justamente assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Uma das formas para garantir isso no Brasil é a adoção nessa área de práticas ambientais, sociais e de governança – a famosa sigla ESG, para muitos mais ligada ao trabalho do que às salas de aula.

Mas isso aos poucos vem mudando. No Colégio Equipe, em São Paulo, por exemplo, os alunos do ensino médio podem participar de projetos sociais como o “Ver o Mundo”. Todas as terças-feiras, os adolescentes vão até a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Professor Alceu Maynard de Araújo, no Bom Retiro, na região central paulistana. Trata-se literalmente de um estudo de campo em que constroem um repertório comum de brincadeiras com crianças que são filhos e filhas de migrantes e refugiados

“Metade das nossas crianças é de filhas de imigrantes. A maioria é boliviana, mas temos também filhos de peruanos, paraguaios e argentinos”, afirma a diretora da unidade, Simone de Castro Paier. 

Ela explica que, por causa da pandemia do coronavírus, a maioria dessas crianças de 4 e 5 anos não frequentou a escola antes e, por isso, muitos chegaram neste ano à Emei sem falar nada em português. Enquanto ficaram em casa, se comunicavam nas línguas nativas, como o espanhol e o guarani.

Língua e fluência

Por isso, o resultado principal da troca entre os adolescentes e as crianças tem sido o desenvolvimento da fluência no português. “A professora é um adulto, tem a formalidade das regras, dos combinados da escola. O adolescente é uma visita, é muito mais lúdico”, diz Simone.

As diferenças de realidade entre os adolescentes do colégio paulistano e as crianças matriculadas na escola municipal também rendem reflexões e ensinamentos. “Falamos muito sobre as diferenças entre uma infância em Higienópolis (bairro em que o colégio fica localizado) e uma infância de uma criança que, ainda pequena, saiu do seu local de origem, percorreu longas distâncias em situações às vezes não muito favoráveis ao brincar e chegou ao Brasil, em São Paulo. Isso nos leva a outros temas, como a xenofobia, o racismo, como São Paulo recepciona de maneira mais ou menos hostil ou acolhedora, a depender de quem é que está chegando”, afirma a professora Inessa Silva de Oliveira.

Lara D’albuquerque Saponi, de 16 anos, participa da atividade e, para ela, um dos momentos mais especiais é quando fica possível incluir todas as crianças nas brincadeiras. “Um menino tinha dificuldade de brincar e conversar porque só falava espanhol. Mas aos poucos, com paciência, começou a ter vontade de participar mais e até sugeriu brincadeiras que ele tinha com sua família e amigos antes de vir para o Brasil.”

Luciana Fevorini, diretora do Colégio Equipe, reforça que o trabalho não tem viés assistencialista, e que a proposta é de que o projeto funcione como aprendizado mútuo. “O contato com a diversidade cultural, étnica e social só amplia a perspectiva de uma educação crítica. A escola precisa ter um olhar para uma educação mais ampla e contraditória”, afirma.

Ecologia política

Na Escola Móbile, por sua vez, uma das disciplinas eletivas para os alunos do ensino médio é Ecologia Política. O objetivo da aula é ir além das convenções internacionais do meio ambiente e trazer a discussão para uma escala local. 

“O tema traz a carga de justiça ambiental, porque o meio ambiente é um direito, dialoga com violação dos direitos humanos. Estamos vivendo num colapso climático, um problema histórico, que recai sobre qualquer ser humano. É importante entender esses problemas, engajar os jovens e construir ações de enfrentamento”, explica a professora Maisa Sobelman, que leciona a disciplina.

Nas aulas, os estudantes trabalham muito com leitura e discutem temas de interesse que vão aparecendo, como a relação entre desmatamento e veganismo; impacto da extinção das abelhas na agricultura; alternativas para a crise energética; efeitos sociais e ecológicos na produção agrícola. Para encerrar a disciplina, que dura um ano, os alunos precisam definir um tema de pesquisa e produzir uma reportagem, trazendo dados sobre o cenário atual, problematizações e soluções. 

Laura Revoredo, de 15 anos, aluna do 1.º ano do ensino médio do Móbile, produziu uma reportagem sobre as formas de produção de alimentos que podem prejudicar o meio ambiente, abordando as questões relacionadas a agronegócio, recursos hídricos e redução de lençóis freáticos. “Gosto de fazer perguntas sobre os conflitos socioambientais, tenho uma preocupação com a fome, gosto de pensar em alternativas sustentáveis para o futuro.”

A professora Maisa Sobelman reforça que uma formação alinhada a esses temas é imprescindível, pois é cada vez mais latente a necessidade de haver relações mais equilibradas com o meio ambiente. “Lidamos com um público que, no futuro, vai atuar em grandes empresas, no poder público. É essencial abordarmos esses tópicos.”

A gestão da escola também reforça a preocupação em formar um aluno que tenha “repertório teórico para discutir o mundo”. “Cada vez mais, temos essa preocupação, de partir de problemas da contemporaneidade, de discutir como chegamos neles e quais ferramentas temos para mudar, quais as implicações se não mudarmos. É pensar o presente de maneira crítica”, afirma Teresa Chaves, coordenadora pedagógica do Ensino Médio do Colégio Móbile.

 

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