Nilton Fukuda/Estadão
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O futuro de jovens pobres

Escolas de ensino médio com bons resultados são integrais, com mais horas/aula

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 03h00

A educação, independentemente do perfil do aluno, já é um problema de difícil solução. Nos debatemos há anos para conseguir dinheiro, formar bem os professores, ter boa gestão, metas claras, currículo, avaliação. Mais complicado ainda para qualquer país é melhorar a educação oferecidas aos adolescentes da camada pobre da população.

Estudos internacionais indicam grande correlação entre nível socioeconômico e desempenho em avaliações. Quer dizer, já estão em desvantagem e acabam aprendendo menos que os mais ricos. Os alunos vulneráveis estudam ainda nas escolas com professores menos preparados e com piores materiais. Até a quantidade de horas/aula de Ciência é menor: estudantes ricos têm 35 minutos a mais, por semana, do que os pobres, segundo dados do Pisa, exame feito pela OCDE em mais de 30 países.

Na semana passada, foi divulgado um estudo que pretendia mapear escolas públicas que atendem alunos de baixo nível socioeconômico e conseguem ótima aprendizagem no ensino médio. O nome da pesquisa é Excelência com Equidade, mas infelizmente não foi possível identificar algo que pudesse ser chamado de excelente.

Os organizadores do estudo, feito pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Fundação Lemann, Instituto Unibanco e Itaú BBA, tiveram de adaptar a régua da excelência que eles haviam usado no ensino fundamental. Nenhuma escola pública que atende alunos de baixa renda está entre os melhores resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por exemplo. Nenhuma também tem 70% dos alunos com desempenho adequado em Português e Matemática no Saeb, avaliação feita pelo Ministério da Educação

Ao baixar os critérios e considerar escolas com pelo menos bons índices de aprovação e notas próximas da média em provas nacionais, os pesquisadores conseguiram chegar a um total de 100 colégios. Isso equivale a 2% das 5.042 escolas públicas de ensino médio que atendem alunos de baixo nível socioeconômico. 

A maioria está no Ceará (55 delas), seguido por Espírito Santo, Goiás e Pernambuco. Duas delas estão no Estado de São Paulo, em Birigui e Teodoro Sampaio, e são técnicas, não escolas estaduais comuns. Uma amostra desse grupo passou então a ser analisada de perto para se compreender a razão do relativo sucesso.

 

O estudo mostrou claramente que escolas de ensino médio com bons resultados são escolas de ensino integral. Dessas 100, 82 funcionam com mais horas/aula e currículo diversificado, com disciplinas optativas. Apesar da vantagem já conhecida e mais uma vez confirmada, o MEC este ano não repassou os recursos para o programa de ensino integral de escolas em todo o País. 

O ensino que dá certo oferece em seu currículo oportunidades para adolescentes se dedicarem a empreendedorismo, física experimental, oficina de redação e também a elaborar um projeto de vida. Um aluno entrevistado pela repórter Isabela Palhares para o Estado disse que achou ruim quando sua escola se tornou integral porque “estava na idade de trabalhar e ajudar em casa”. “Mas já no primeiro dia de aula os professores me mostraram que eu podia mais, que posso sonhar e ter a profissão que quiser se eu terminar os estudos”, disse Geovanni Alves, de 18 anos.

Ninguém tem dúvidas de que a educação traz benefícios tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Um país mais educado tem economia melhor, mais produtividade, mais equidade. Mas nossos jovens pobres cada vez mais desistem da escola porque não veem sentido nela. Não há como ter esperança de um Brasil melhor sem uma juventude melhor.

 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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