‘O Estado deve decidir o que quer da USP’, diz ex-reitor Roberto Lobo

Lobo foi reitor entre 1990 e 1993

Bárbara Ferreira Santos,

23 Janeiro 2014 | 03h00

Além de assumir a reitoria da USP, o carioca Roberto Lobo já foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Chegou à universidade com uma crise econômica e empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento a pagar. Em sua gestão houve a criação do campus de Pirassununga, no interior, e a criação dos cursos de Economia, Administração e Contabilidade no campus de Ribeirão Preto. Blogueiro do Estado, ele falou sobre os problemas orçamentários e de expansão que a universidade enfrenta. Reitor entre 1990 e 1993, foi o único a reunciar ao cargo na história da universidade.

Que fatores impulsionaram a USP a ser a maior universidade do País?

De um modo geral, o apoio do estado à universidade durante 80 anos. Isso valoriza e qualquer consolida a instituição. A USP teve crise políticas e financeiras, mas menos que outras instituições. A criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), essa continuidade da valorização do mérito, do conhecimento e da pesquisa foi o fator que fez a USP crescer. Cada vez teve  mais gente querendo ingressar na universidade e a USP foi capaz de fazer seleção muito forte, com essa seleção forte trouxe recursos humanos bons e teve apoio financeiro e conseguiu ser mais ou menos regular. Mas, se chegar a ter 300 mil alunos, não será mais não.

O crescimento da USP terá de ser moderado então? 

Crescimento na melhor das hipóteses. A USP já tem gente demais. As maiores universidades do mundo não tem mais de 40 mil alunos. A USP já tem 100 mil. É complicado gerir uma instituição assim. A não ser que quebre e faça vários pedaços, como fez a Universidade da Califórnia em que cada unidade tem a sua gestão. A  Universidade Autônoma do México perdeu relevância em comparação à USP porque cresceu demais. A de Buenos Aires também perdeu a posição dela porque está com 300 mil alunos. É preciso que o Estado de São Paulo decida o que quer da USP: se quer que seja uma universidade de massa, de fronteira ou que atue no ranking mundial. O que não pode é que a USP tenha que ser tudo e que, por não conseguir, não tenha sido útil para o Brasil.

 Quais são os outros gargalos da universidade?

A USP tem de melhorar os processos de avaliação, tem que se planejar financeira e se planejar cientificamente, falta planejamento e avaliação como instrumentos de gestão mais poderosos. Planejamento científico é a adequação áreas prioritárias, como trabalhar com núcleos de pesquisa, como inserir em um programa de internacionalização mais efetivo e mais amplo. Se olharmos índices de citação, a USP não está bem. Aliás, as universidades brasileiras não estão bem. A gente publica muito, mas é pouco citado.  A gente olha outros países menores e tem índices de impacto científico maiores. A USP terá que planejar como suas pesquisas poderão mais impacto.

Que desafios o Sr. enfrentou no comando da reitoria?

O desafio mais sério foi o financeiro, porque, quando eu entrei, foi um período de altíssima inflação, quando o Collor havia sido recém eleito, congelou os depósitos, não tinha recurso nem nada.  Teve uma queda violentíssima de ICMS ( Imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, que financia a universidade), nós ficamos com dificuldade de pagar salário, atrasamos o pagamento de 13º. A USP teve de tomar dinheiro emprestado para poder cumprir os pagamentos. Foi um período muito difícil financeiramente. E a USP estava começando a sua autonomia, ela não estava nem organizada ainda para gerir o seu próprio orçamento. Com  a queda de ICMS passei dois anos com grande dificuldade financeira. Tive que tomar uma porção de medidas difíceis para poder reequilibrar a universidade. Essa foi a minha entrada triunfal. Nosso orçamento na época era equivalente ao de 365 milhões de dólares equivalentes na época. Hoje, a USP tem mais de 2 bilhões em dólares de orçamento e não cresceu tanto assim. A diferença de orçamento daquela época para hoje era muito grande. Tivemos de tomar medidas, como extinguir vagas, ou seja, a pessoa que saía não era substituída automaticamente, a gente tinha que analisar cada caso e a gente procurou conter o crescimento de pessoal, porque cada vez que saía um para se aposentar, viravam dois. Tivemos que mudar a política de distribuição orçamentária. Fizemos uma distribuição em que a reitoria ficava com recurso e ia liberando os duodécimos. Por exemplo, o orçamento das unidades os diretores podiam distribuir em duodécimos e podiam guardar com a gente, na reitoria, e a gente atualizava pelo ICMS. Na época, tinha inflação de 10% ao mês. Todo mês reajustávamos os salários. Ainda tínhamos, por cima, as construções do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que tínhamos que fazer. Tínhamos um grande empréstimo do BID em que a USP tinha que entrar com a contrapartida. Foi importante para a USP, mas foi um ônus grande. conseguimos um apoio. Foi um período complexo. Tivemos uma discussão sobre a distribuição de ICMS, porque naquela época o governador Fleury fez uma discussão dentro do Palácio, mas legalmente era o conselho de reitores que tinha que fazer. Eu era presidente do conselho. Então teve uma grande luta com ele para recuperar para o conselho de reitores e conseguimos.

E quais foram as realizações da sua gestão?

Nós recuperamos o prédio da Maria Antonia, que estava no governo, e que desde a revolução havia sido tomado. Nós criamos um centro de extensão. Outra coisa que fizemos foi abrir a cidade universitária no fim de semana. As pessoas iam ouvir música, tínhamos um convênio com a TV Cultura, com um programa que passava no fim de semana e as pessoas iam à USP para ver. Era um grande centro de lazer e de cultura nos fins de semana. Não prosseguiu, mas foi um momento interessante. Quando eu saí da universidade, nós tínhamos recuperado financeiramente a universidade. A USP tinha um caixa igual ao déficit financeiro que eu tinha encontrado. Deixei para o sucessor uma situação confortável, porque fizemos um programa de contenção, mas sem perder qualidade. Na contenção, qualquer contratação passava pela reitoria. Tudo discutíamos e tinha que ser mostrado em cima de indicador da universidade. A gente dava o necessário para cada um, mas não ia além disso porque era um período de dificuldade. Demos a possibilidade de diretores se planejarem. Como eles podiam deixar recursos na reitoria, eles podiam juntar para comprar. As unidades começaram  criar autonomia financeira e ao mesmo tempo puderam se planejar. Nós melhoramos a situação financeira da universidade.

Hoje o orçamento é um dos gargalos da universidade. Como a USP tem de adequar esse orçamento?

Quando se fala de orçamento da universidade, normalmente se fala do orçamento que o Estado envia para a USP, mas não é o que ela recebe de todas as fontes. Ela recebe de Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). A parte que vem do Estado que essencialmente serve para pagar a folha e o custeio. A outra para financiar projetos. O orçamento da USP deve estar por volta de 5 bilhões, o que ela tem em caixa. Quando se fala que a USP gasta 90% do orçamento com folha de pagamento, é o orçamento que vem do estado, mas não de tudo do caixa. Nenhuma instituição aguenta pagar 95% de folha e sobreviver. Não dá nem para pagar depreciação e aí fecha. Tem outras fontes. De qualquer forma, mesmo captando recursos fora, o gasto com pessoal deveria manter no máximo até 80%. Tem que fazer um planejamento para reduzir esse gasto, para não estragar o que está funcionando também. Tem que fazer um levantamento da necessidade de pessoal, ver o que precisa, quais são as necessidades. Tudo isso tem que ser analisado para ser otimizado. Outra coisa importante é não crescer indefinidamente, porque se isso acontecer, não há orçamento que aguente.

Como melhorar a internacionalização da USP?

O Brasil tem problema seriíssimo próprio, porque somos extremamente xenófobos. As barreiras de trabalho e diplomáticas são enormes. Contratar professor estrangeiro é uma odisséia. Tem uma isonomia salarial que você não pode pagar a uma pessoa acima dos valores salariais do Brasil, o que os outros países fazem. Além disso, o Brasil tem limitações por causa da nossa grande comunidade de nos comunicar em inglês. Os estrangeiros têm falado que tem dificuldade de mandar professores e alunos porque são poucas as instituições que tem uma certa liberdade de alunos e de professores de se comunicar em inglês. Isso é um obstáculo grande de comunicação. Acho que o Brasil não está preparado para a internacionalização. Aqui é ilegal contratar um diretor ou chefe de departamento de fora porque tem que ser do quadro. O reitor tem que ser do quadro. Só vale quem está dentro. Quem ta fora não entra e quem ta dentro não sai. Isso prejudica essa visão internacional. Internacionalização prevê essa facilidade de troca. Temos de adaptar currículos. Estamos com mudança de ensino nos EUA e Europa. Vamos depois ter dificuldade de adaptar o que fizeram fora para os nossos currículos. Temos que analisar o processo de Bolonha, por exemplo, ver o que a gente faz com ele,  se a gente adota, se adapta ou pelo menos convive, de uma maneira inteligente. É um problema do Brasil, não é culpa da USP.  A USP até que fez alguns esforços. Acho que a USP tem até um nível de internacionalização maior que a maioria das instituições. Talvez a maior do Brasil. Acho que, para trazer mais gente de fora qualificada, a USP teria de travar não só uma luta acadêmica, mas uma luta política, para fazer com que isso se torne mais fácil, para facilitar mecanismos de atração de bons professores.

Sobre as recentes manifestações de alunos, como ampliar o diálogo com os alunos?

Para mim, não pode entrar na reitoria, não existe isso. Essa invasão repetitiva da reitoria da USP na história é uma aberração, é uma doença crônica. Isso não é questão de participação, aliás, 3% dos alunos votaram no primeiro turno. Canais de comunicação são importantes, mas os institucionais. A invasão de reitoria não é uma manifestação legítima. Não cheguei a enfrentar invasão de reitoria, mas ameaças. Para que isso não chegasse a acontecer, ampliei alguns diálogos e reduzi outros. Dialogava com quem queria dialogar. Quem vinha usar meu nome para fazer futrica, não recebia mais. Fiz muitas ações em benefício dos funcionários, o que cria um clima positivo.

Outro polêmico nos últimos anos foi a presença da PM nos câmpus. O senhor é a favor ou contra a presença da PM?

A USP é um espaço público, todo mundo pode entrar, portanto não tem nenhum critério de segurança. Não pode botar pessoas sem nenhuma experiência ou sequer sem nenhuma experiência para enfrentar uma questão de dificuldade para cuidar dos 60 mil alunos. Se não tem segurança, o assassinato de estudante gera uma crise. Se tem segurança, a segurança gera crise. Combina como isso? Não sei como faz? As pessoas querem segurança, mas não querem elementos da segurança. Esse teorema eu não sei demonstrar. A USP pode ter guarda própria, mas treinada e que possa até dar voz de prisão. Se entrar alguém com metralhadora, chama quem? O reitor? Não precisa ter policiamento ostensivo permanente, mas que a PM tenha eventualmente que entrar para a segurança da universidade.

Sobre as cotas, o senhor é contra ou a favor?

Eu vou dizer que cota pode ser aplicada na USP, desde que essa cota premie os melhores que possam entrar. Eu preferia que fosse feito antes da universidade, procurando ajudar estudantes do ensino médio a terem acesso à universidade em boas condições de competitividade. Agora, cota pode ser uma solução temporária. A cota tem que ser baseada na situação socioeconômica do aluno. Existem soluções como se pensar em dar lugares aos melhores alunos do setor público. Existem várias soluções. O grande problema é que estamos trabalhando com competição de conhecimento elitista e a elite é financeira. Essa luta de aumentar a demanda de gente qualificada é demanda justa. A minha dúvida é se é com cota é que se faz isso.

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