Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

O ensino remoto veio para ficar?

Experiência deve mudar a forma de aprender e ensinar; algumas faculdades já trabalhavam com o modelo híbrido, que pode crescer entre as escolas

Ocimara Balmant e Alex Gomes, Especiais para o Estadão

25 de agosto de 2020 | 05h00

A antiga expressão “do oito ao oitenta” pode resumir o que houve com as escolas de educação básica e as instituições de ensino superior quando foi decretado o isolamento social no País. Com as portas fechadas, todas as aulas presenciais precisaram ser adaptadas para ocorrer a distância ou planejadas para compensação em um futuro que não se sabe quando será.

O que se sabe é que, quando as escolas abrirem fisicamente, será com atendimento gradual e revezamento de alunos. Do improviso no início, surgem sinais de que a experiência com aulas remotas inspirou transformações perenes, como o investimento em modos híbridos de ensino.

“Há mais de cinco meses, todas as escolas, da educação infantil à pós-graduação, têm de executar seus currículos 100% on-line. Isso faz com que todos, estudantes, professores, instituições educacionais e sociedade, tenham de imaginar que ao sair desta pandemia precisaremos discutir como parte do currículo a educação mediada por tecnologia”, afirma Juliano Costa, vice-presidente de produtos educacionais da Pearson na América Latina.

A fala de Costa corrobora os resultados da Global Learner Survey, divulgada recentemente pela multinacional de educação. A pesquisa ouviu 7 mil estudantes com mais de 16 anos em sete países e mostrou que 90% acreditam que não só o ensino superior como o fundamental e o médio irão se valer de metodologias de ensino a distância. 

No ensino superior, já havia instituições que trabalhavam o modelo híbrido e a tendência, para os especialistas, é que a modalidade se torne mais representativa no pós-pandemia - com os alunos e professores menos reticentes e as instituições com infraestrutura mais preparada. 

Nova realidade

Na educação básica, a modalidade 100% presencial deve voltar a valer com o fim da pandemia do novo coronavírus, mas a experiência desses meses deve mudar para sempre a forma de aprender e ensinar.

“Já falávamos sobre metodologias ativas e aula invertida, por exemplo. O período de pandemia acelerou o uso dessas metodologias”, explica Suely Nercessian, diretora pedagógica do Colégio Vital Brazil, na zona oeste de São Paulo. Além do protocolo sanitário, o Vital Brazil já organizou uma grade que prevê a mescla de atividades presenciais e virtuais no momento em que for autorizada a volta gradual dos estudantes para o ambiente físico.

O Colégio Santa Maria, na zona sul da capital paulista, planeja retornar com um processo misto: parte dos alunos em casa e o restante em sala de aula. Antes, no entanto, fará uma enquete com as famílias, da educação infantil ao ensino médio, para conhecer a intenção delas a respeito.

Na rede pública, a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo tem promovido formações contínuas para preparar os docentes para o ambiente digital. O curso Tecnologias na Prática, por exemplo, tem três módulos. No primeiro, apresenta como a tecnologia pode otimizar o trabalho do professor e contribuir com a aprendizagem. No segundo, foca nas chances de interatividade com Google Classroom e Microsoft Teams. Por fim, aborda tecnologias na rotina. Os professores recebem dicas de como criar um roteiro, usar a iluminação e fazer o enquadramento para gravação de videoaulas, além de informações sobre como fazer transmissões ao vivo, criação de cenário e técnicas de edição.

É um olhar que surgiu com a pandemia, mas que proporcionou um amadurecimento sobre os desafios do ensino. “O uso da tecnologia veio para ficar, como política pública de longo prazo. Será fundamental para ações de reforço e na implementação da nova Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio, auxiliando na aplicação das disciplinas eletivas, por exemplo. Isso vai ajudar a estreitar o vínculo do estudante com a escola”, diz Bruna Waitman, coordenadora do Centro de Mídias SP.

Contra o cansaço de aulas online, jogos para aprender brincando

Ninguém estava preparado para a pandemia. Mas as escolas se adaptaram, professores e alunos foram resilientes e, nos colégios mais estruturados, as provas do semestre mostraram que o conteúdo foi aproveitado. Todos, porém, andam cansados de ficar em frente à tela assistindo a uma “aula live”. Na sala convencional, sempre tem a pausa para uma piada de alguém ou a conversa com um colega. Manter a concentração por videochamada é bem mais cansativo.

Por isso, tendem a ganhar espaço as ferramentas que tratam o aprendizado como experiência de entretenimento. A plataforma Eduten Playground, voltada para o ensino de Matemática, é uma delas. Foi desenvolvida por educadores da Universidade de Turku, na Finlândia, e está presente em 33 países, com cerca de 300 mil alunos. No Brasil, é operada pelas empresas de educação Pro4Edu e Base2Edu.

Os exercícios são aplicados como tarefas com objetivos de chegada, pontuação e recompensas. São mais de 17 mil exercícios que permitem realizar 200 mil operações. No formato dos populares jogos de corrida, por exemplo, o aluno deve controlar um carrinho que só avança se o jogador acertar as respostas de fórmulas matemáticas.

No País, uma das escolas que adota a Eduten Playground é o Colégio Filomena de Marco, na zona leste de São Paulo. Lá, Rudnei Silvino, que leciona para turmas do fundamental, usa a ferramenta desde maio. A adoção foi exatamente para facilitar o ensino remoto no isolamento social. “Uma atividade interessante foi aplicar um jogo de cartas com os alunos do 7º ano. A ideia era compreenderem o que são números primos e compostos. Deu muito certo”, conta o professor de Matemática.

Além de colaborar para uma compreensão mais fácil do raciocínio matemático, diz Silvino, esse tipo de plataforma estimula o trabalho em equipe, com atividades colaborativas ou de competição. “Avaliando o rendimento dos alunos, a melhora geral foi de 70%.” 

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