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O dilema da lição de casa

Resultados de pesquisas mostraram que não há relação entre melhor desempenho de um sistema de ensino e mais lição de casa

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 03h00

A reunião de pais ia bem, todos concordando com as explicações da professora sobre os métodos de ensino e progressos da turma, até que se falou de lição de casa. Um pai levantou a lebre, disse que o filho fazia a tarefa em poucos minutos e que, por isso, achava que a atividade extraclasse era insuficiente. Outro alegou que a filha “podia mais” do que estava sendo pedido para casa. Falavam de crianças de 7 anos, que acabaram de se alfabetizar.

Alguns reagiram indignados. “Eles são pequenos, precisam brincar, a quantidade está na medida”, disse uma mãe, exaltada. No fundo da sala, uma comentou com o vizinho de cadeira que, para ela, crianças dessa idade nem sequer deveriam ter lição de casa.

A professora explicou que a atividade, no 2.º ano do fundamental, é uma forma de o aluno adquirir responsabilidade e organização e não apenas de checar conteúdo. E que, por mais que alguns discordassem, ela continuaria a mandar para casa às vezes só uma página de leitura, mesmo que seja concluída em minutos.

A tarefa se tornou assunto polêmico nos últimos anos, desde que os primeiros resultados do Pisa, exame feito pela Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica (OCDE), mostraram o sistema educacional da Finlândia como um dos melhores do mundo. Apesar de estar no topo no ranking, descobriu-se que os alunos do país passavam menos de três horas por semana fazendo lição de casa. Isso daria pouco mais de meia hora por dia útil - para alunos de 15 anos, que são os avaliados pelo Pisa. A média mundial é de cinco horas por semana; na China chega-se a 14 horas por semana.

Nos Estados Unidos, pais passaram a pedir menos lição em escolas públicas. O movimento vem junto à maior valorização do bem-estar da criança, com a constatação - óbvia - de que ela se desenvolve muito também em contato com a família, brincando e até dormindo mais. Em Nova York, por exemplo, cidade em que alunos de 4 anos chegam a levar calhamaços de tarefas para o feriado de Natal, dois alunos do 5.º ano ficaram famosos por escrever uma petição exigindo o fim da lição.

Pesquisa da Universidade Stanford com alunos da Califórnia mostrou que menos de 1% afirmou que lição não era motivo de estresse. Excessivas tarefas também estariam ligadas a privação de sono e outros problemas de saúde, além de menos tempo para amigos e hobbies.

O próprio Pisa passou a pesquisar a influência das lições. Os resultados mostraram que não há relação entre melhor desempenho de um sistema de ensino e mais lição de casa. Outros fatores, como qualidade dos professores ou organização da escola, são muito mais determinantes para um bom resultado.

Há, no entanto, alguns alunos que se beneficiam por passar mais horas fazendo tarefa. Em lugares como Hong Kong e Japão, para cada hora extra estudando Matemática em casa, o aluno consegue 17 pontos a mais no Pisa. Em Ciência, por outro lado, isso não ocorre. Por isso, recomenda a OCDE, pais, professores e autoridades precisam se esforçar não para aumentar o tempo de lição de casa e, sim, para tornar mais produtivo o tempo em sala de aula.

Mas o que seria o tempo ideal de estudo em casa para que o estudante se beneficie disso? Para o professor de Psicologia e Neurociência da Universidade Duke Harris Cooper, a resposta depende da idade e do perfil de cada criança. Para os pequenos, da educação infantil ao 5.º ano, suas pesquisas mostraram pouca ou nenhuma relação entre lição de casa e melhor desempenho. Para os maiores, de 1 hora a 2 horas diárias seria mais que suficiente.

Um erro comum de alguns pais, no entanto, é ignorar as evidências científicas. Tomam decisões conforme a lembrança do que deu ou não certo para eles em seu tempo de estudante, afinal lição de casa “nunca fez mal a ninguém”. Será?

*É repórter especial do Estado e fundadora da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca)

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