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O desafio de se ensinar a empreender no Brasil

Resistência cultural de instituições e alunos é ainda obstáculo para difusão da cultura empreendedora

Cristiane Nascimento, Especial para o Estadão.edu,

29 Outubro 2012 | 23h15

O primeiro contato do atual diretor de empreendedorismo da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Fábio Fowler, com o ensino empreendedor não ocorreu de modo harmônico. Depois de se formar em Engenharia pela mesma instituição, ainda em 1987, o jovem recém-formado foi trabalhar no exterior e de cara teve de lidar com um projeto de milhões de dólares. "Aquilo foi um baque para mim", afirma. Habilidades relacionadas à negociação, ao gerenciamento de pessoas e à liderança de grupos, por exemplo, eram gaps de seu currículo que lhe fizeram falta naquele momento.

Fowler teve de aprender na prática. Depois de cinco anos, achou que era tempo de retornar ao País e abrir o seu próprio negócio. Ele julgava já ter reunido dinheiro e técnica suficientes para assumir o novo desafio. Mais uma vez, teve de lidar com os imprevistos no campo profissional. Pouco tempo depois de ter aberto uma pequena fábrica de baterias para automóveis, teve de encerrar sua atividade, pois o negócio não havia se conservado sustentável. Manteve na ativa apenas uma loja de autopeças que funcionava junto à fábrica. "Detalhes como lógica de mercado e funcionamento de leis são tópicos que poderiam ter sido apresentados a mim já na graduação e me ajudado no gerenciamento da empresa", diz.

Certo dia, um colega de faculdade o encontrou na oficina e estranhou que aquele que um dia julgou "ter se dado bem na vida" estava a sua frente de macacão e sujo de óleo. Fowler contou-lhe sua história e logo depois foi convidado a ministrar aulas na universidade em que havia se formado. Seu colega sabia que era preciso trazer a experiência do mercado para dentro das salas de aula e o caso de Fábio casava com a sua necessidade.

Uma vez na academia, Fowler sabia que tinha de fazer diferente. Não queria que seus alunos tivessem as mesmas frustrações que teve depois de ter recebido seu diploma. O recém-professor foi pesquisar e descobriu aquilo que posteriormente viria a ser chamado de educação empreendedora. Fez workshops, viajou ao exterior e voltou com vários planos. "Tentei implantar um projeto grande, mas a resistência cultural era grande", diz o diretor. Começou então trabalhando junto a alunos da Engenharia que desejavam fazer estágios em pequenas empresas. Na época, a instituição facilitava este contato e orientava e os instruía.

Poucos anos depois, o professor se viu diante da oportunidade que mudou não só a direção de sua vida, mas, principalmente, a da instituição. Visando atender a uma nova demanda, a universidade precisava abrir cursos noturnos. Foi quando Fowler inaugurou um curso de Administração com ênfase em empreendedorismo. No início, ele teve ainda problemas forçados pela cultura da própria organização. Logo virou motivo de piada e passou a ser chamado de professor de "predadorismo". "Não tinha como eu formar um jovem empreendedor, por exemplo, avaliando-o apenas com provas, como era de costume", diz.

Aos poucos o curso foi ganhando adeptos e parceiros. Neste processo, a nota "A" que o curso ganhou em sua primeira avaliação pelo MEC, ainda em 2002, quando a avaliação era medida pelo Provão, fez diferença. "Fui mostrando aos poucos que o empreendedorismo poderia, sim, valer a pena e dar certo", afirma. "Tinha o apoio do reitor da instituição, o que tornou tudo mais fácil."

Em 2010, Fowler foi nomeado diretor da área e no ano seguinte o empreendedorismo passou também a servir como pano de fundo também para as disciplinas ligadas à Engenharia. Em 2012, a instituição inaugurou um Centro de Empreendedorismo, espaço de 640 metros quadrados para que os alunos possam criar e desenvolver novos projetos. "Dificuldades ainda existem, mas hoje elas são menores", diz o diretor. "Temos agora de treinar os alunos e professores das engenharias para que sintam-se à vontade com a cultura empreendedora", afirma.

Histórias como a de Fowler são ouvidas aos montes na Rodada de Educação Empreendedora Brasil (REE BR), evento que reúne docentes empreendedores de todo o País. Promovida pela Endeavor e pelo Sebrae, a edição deste ano aconteceu entre os dias 8 e 10 de outubro, em Florianópolis, Santa Catarina. "A REE visa construir uma cultura empreendedora dentro das universidades e faculdades do País, além de possibilitar a promoção da troca das melhores práticas de ensino", diz Juliano Seabra, diretor de cultura empreendedora da Endeavor Brasil.

De acordo com Marcelo Nakagawa, coordenador do centro de empreendedorismo do Insper, uma das instituições pioneiras no ensino de empreendedorismo na academia, eventos como esse são essenciais para o aporte de pequenas iniciativas que estão espalhas pelo Brasil. "Muitas vezes, é o único momento que professores têm para entrar em contato com outros professores professores da área, trocarem dilemas, dificuldades e também experiências", afirma.

"Até pouco tempo atrás, os cursos de empreendedorismo estavam diretamente ligados a grandes escolas de negócios, mas nos últimos anos, percebemos que há muita gente tentando implementá-los em suas instituições, nas mais diversas especializações", diz Nakagawa. "São professores de faculdades menores, que precisam de apoio e de exemplos, precisam retornar com cases de sucesso e mostrar que seus projetos são, sim, possíveis".

Apesar de todo trajeto percorrido, o coordenador do Insper acha que ainda falta muito para que a cultura empreendedora tome conta das salas de aula brasileiras. "Uma instuição de ensino empreendedor ideal é aquela que não tem uma disciplina de empreendedorismo, mas que essa ideia contemple todas as disciplinas e esteja entre os seus pilares pedagógicos", diz. A seu ver, erroneamente, muitos acreditam que o profissional empreendedor será aquele que abrirá seu próprio negócio, quando na verdade, médicos, advogados, políticos e até mesmo professores devem ter habilidades próprias de um gerenciador de negócios. "Um empreendedor é essencialmente alguém que cria e gerencia projetos e isso é algo que o mercado exige independente da especialização", afirma.

 

* A repórter viajou a convite da Endeavor Brasil

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