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Wether Santana/ Estadão
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Renata Cafardo
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O ano sem escola

Professores de alunos pobres não se perguntam só quando vão voltar, mas quem vai voltar

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 05h00

O ano sem escola está terminando cheio de abismos dos quais nem sequer conseguimos medir a profundidade. Só quando fevereiro chegar ou decretos governamentais pelo País permitirem a volta presencial, milhares de escolas poderão descobrir os reais efeitos da pandemia na educação. Um dos mais tristes é a ampliação da já imensa desigualdade brasileira.

Os professores de alunos pobres pelo Brasil não se perguntam apenas quando vão voltar, mas quem vai voltar. A Unesco estima que 24 milhões de estudantes não devem retornar às escolas no mundo todo depois da covid. Jovens já trocaram os estudos pelo trabalho neste ano de empobrecimento das famílias. Ano também em que a escola – muitas vezes já pouco interessante, sem estrutura, com currículos defasados e professores desmotivados – ficou mais distante ainda. 

Entre as meninas, somam-se a possibilidade de gravidez, o casamento precoce ou necessidade de cuidar de irmãos menores, alerta também a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Andreas Schleicher, responsável pelo Pisa, a maior avaliação de educação do mundo, feita pela OCDE, sugere a países em desenvolvimento que deem até incentivos em dinheiro para que crianças e jovens não deixem a escola. Principalmente para as famílias de jovens mulheres. 

A evasão, no entanto, é problema insignificante entre as camadas mais ricas da população. É ótimo que seja assim, mas deixa clara a diferença entre os setores mais e menos vulneráveis da sociedade. O que não quer dizer que o grupo de crianças e jovens da elite brasileira também não tenha sofrido danos emocionais, sociais e até de aprendizagem durante 2020.

Mas a defasagem educacional entre a maioria e uma ínfima minoria no Brasil já era gritante antes da pandemia. Dados do Pisa divulgados no ano passado mostravam que o desempenho de alunos das chamadas escolas particulares de elite colocaria o Brasil na 5.ª posição do ranking, ao lado do melhor país europeu no exame, a Estônia. Já as notas só dos estudantes de escolas públicas nos levavam a 60 posições abaixo no ranking. 

E, durante a pandemia, foram essas escolas de elite que melhor se saíram em ensino remoto, com aulas diárias ao vivo com o próprio professor da sala – algo raro na rede pública. Com internet rápida em casa para baixar arquivos, imprimir, subir vídeos e fotos em trabalhos enriquecedores. 

Não se pode dizer que as redes municipais e estaduais não se esforçaram. Foram feitas parcerias com Google, empresas telefônicas, organizações nacionais e internacionais. Professores se reinventaram gravando vídeos, correndo atrás de seus alunos via WhatsApp. Mas muitos ficaram alheios a isso tudo, sem apoio, sem internet, sem escola. 

E quando, enfim, a volta presencial ocorreu, foram novamente os privilegiados que puderam experimentar o novo normal escolar. Estima-se que 80% das escolas particulares – e quase 100% das consideradas de elite – abriram com atividades presenciais desde outubro na capital. Elas puderam testar, experimentar, corrigir eventuais erros nos protocolos que só estavam no papel – e que continuam assim na maioria das escolas públicas. Mais uma vez, elas já chegam em vantagem para 2021. Já aprenderam com 2020. 

A maioria das escolas públicas vai começar do zero e ainda tentar aprender ano que vem o que dá certo numa escola com distanciamento, máscara e medo. Os alunos pobres, sempre atrás, sempre em desvantagem, vão torcer mais uma vez para se recuperarem das marcas desse 2020 cruel. E o Brasil, sem plano nacional nem de vacina nem de volta às aulas, vai esperar sentado que a desigualdade não arruíne mais o nosso futuro. 

É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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