Nuno Ramos diz o que queria saber aos 21 anos

'Talvez foi minha escolha pela dúvida – a identificação com lados meio opostos – que ajudou a ser o que sou', diz o artista

Paulo Saldaña, Especial para o Estadão.edu

26 Janeiro 2010 | 00h21

Aos 49 anos, o artista plástico Nuno Ramos já teve trabalhos expostos pelo Brasil, Europa, EUA e América Latina. Multitalentoso, esse paulista é autor de quatro livros, sendo que o último deles, 'Ó', foi vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2009.   As primeiras mostras de Nuno datam da década de 80, época em que tinha seus vinte e poucos anos. Em entrevista ao Estadão.edu, o artista fala exatamente desta época, na seção Coisas que eu queria saber aos 21, quando ainda esperava ser 'chamado' pela arte e se questionava se a vida era boa quanto parecia. Confira:   "Quando eu tinha 21 anos queria saber se a vida era mesmo tão boa quanto parecia. Eu estava acabando Filosofia, na USP, e tentava não entrar num mestrado. Meu sonho já era ser artista.   Eu estava começando a pintar e fui deixando de escrever. Na verdade, desde menino eu queria é ser poeta. E isso foi até fazer uns 20 anos. Depois, lá pelos 21 mesmo, comecei a me interessar por artes plásticas. Produzia muitas pinturas, às vezes muito ruins, e adorava fazer aquilo.   Lembro que o cinema também tinha uma dimensão incrível na minha vida – como nunca mais teve. Me marcou muito quando assisti a Stalker, do Andrei Tarkovski, ou a O Passageiro - Profissão: Repórter, do Michelangelo Antonioni. O cinema parecia abrir as possibilidades da vida e da vontade de ser diferente. Eu tinha certeza de que arte era meu lance, só não sabia com quais meios – escrever, pintar, filmar, ou o quê... Isso me preocupava e me deixava muito, mas muito ansioso. Porque eu não sabia se ouviria o chamado dessa arte.   No fim, talvez foi minha escolha pela dúvida – a identificação com lados meio opostos – que ajudou a ser o que sou. E acho que sempre fui um pouco assim. Além disso, não faço nada suficientemente bem para poder ficar ali para sempre. Talvez não seja tanto uma escolha, mas um defeito. E quem sabe um pouco da energia da arte, de qualquer arte, venha da tentativa de validar um defeito do próprio artista, torná-lo linguagem.   Se pudesse voltar ao tempo, não faria tudo de novo. Ter uma segunda chance e fazer igualzinho à primeira vez? Que coisa mais sem graça! Não porque tenha errado ou algo assim, mas pela curiosidade de viver outra vida. Mas hoje vejo que uma coisa não mudou: continuo querendo saber se a vida é mesmo tão boa quanto parece."

Mais conteúdo sobre:
pontoedu nuno ramos 21 anos arte literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.