SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Número de crianças que estudam dentro de hospitais em SP triplica em cinco anos

Em todo o Estado, há 64 salas hospitalares - 35 delas na capital

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2015 | 14h38

O número de crianças que estudam dentro de hospitais praticamente triplicou em cinco anos. Dados da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo apontam que o número de atendimentos mensais a alunos internados passou de 250, em 2009, para a média de 700 no ano passado. Em todo o Estado, há 64 salas hospitalares - 35 delas na capital.

O serviço pode ser solicitado pelos hospitais, públicos ou privados, que receberão atendimento de professores da rede estadual. Para ter aulas, o paciente deverá estar internado há pelo menos 15 dias. Hospitais como o Graac e o AC Camargo, que tratam de pacientes com câncer, também têm suas próprias salas de aula. Os docentes entram em contato com a escola de origem do estudante para obter a agenda de atividades e, de maneira adaptada,  auxiliam na continuidade da rotina de estudos, podendo até aplicar avaliações. 

A vinda dos docentes e a formação das classes depende da solicitação do hospital. As aulas, que seguem o calendário das escolas e têm início em fevereiro, ocorrem durante a semana e buscam acompanhar o currículo do estudante a partir do momento em que ele deixou de ir à sala regular. Geralmente há mais de um aluno por vez. O desempenho dos alunos ao longo dos cursos é sempre registrado e documentado, para que mais tarde seja enviado à escola onde o estudante está matriculado. O resultado obtido nas aulas conta como avaliação para que o adolescente seja aprovado ou não.  Desta forma, um paciente que fique internado por muitos meses não perderá o ano letivo. 

As salas foram regulamentadas pela lei 10.685, de 30 de novembro de 2000, mas há relatos de atividades semelhantes há mais tempo. “Sabemos que na Santa Casa já havia este tipo de atendimento, de maneira informal, nos anos 30”, contou a responsável pela educação inclusiva da secretaria, Neusa Souza dos Santos Rocca. O “boom” na procura pelos hospitais ocorreu, principalmente, pelo entendimento entre as pastas da saúde e da educação sobre o direito de o aluno poder continuar estudando, além do “alívio” proporcionado à criança durante a internação. 

“A educação é um direito constitucional. Portanto, crianças que não podem frequentar a escola regular devem ter o direito garantido da mesma forma”, argumentou uma das responsável pelas salas hospitalares, a coordenadora da diretoria de ensino centro-oeste, Sônia Soares da Silva. Um dos principais pontos para o atendimento é o contato e parceria com a escola de onde o paciente veio, segundo a coordenadora. “Ainda que a classe não consiga resgatar tudo, amanhã este aluno retornará à sociedade. É preciso ter uma continuidade, pensar na autonomia desse indivíduo”, explicou. 

Histórias. No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, zona oeste de São Paulo, o atendimento ocorre na brinquedoteca, espaço com mesas, cadeiras, computadores com acesso à internet e livros.  Um dos pacientes no local,o estudante Tiago (nome fictício), de 14 anos,  está há cerca de um mês no hospital. Ele tem osteomielite, uma espécie de infecção nos ossos. Fã de ciência, o jovem deve começar as aulas em fevereiro, no retorno do ano letivo. Mesmo antes de iniciar os estudos, ele fez visita à sala e contou às professores dos assuntos que mais gostava. “Gosto daquela série, Caçadores de Mitos (programa de TV americano que envolve ciência e lendas urbanas)”. O jovem diz gostar de ler - conta já ter devorado pelo menos 7 livros.

Ele será atendido pelas professoras Vera Lúcia Guimarães Fernandes e Marta Valéria Spicciati de Lima, que dão expediente no espaço há 11 anos e somam histórias. “A gente ensina, mas também aprende. Um dia nunca é igual ao outro”, contou Vera Lúcia.  Um dos episódios mais marcantes para ela foi o de um estudante com HIV, em processo terminal, que queria “conhecer o mar”. “Ele falava disso em todas as aulas. Um dia nós pedimos autorização para o hospital e o levamos para a Praia Grande. Uma médica foi junto e até emprestou a casa. O menino faleceu depois da viagem”. 

Marta lembra de outra história que relata ter sido uma das mais significativas de sua experiência profissional. Ela contou que a mãe de uma das crianças internadas, também com HIV, era analfabeta e pedia para acompanhar todas as aulas do filho. “Ela também queria aprender a ler e a escrever. Foi quando eu entendi a responsabilidade que tem um professor”, disse. 

A técnica de segurança do trabalho Cristina Torres Rocha contou que seu filho Gabriel, de 10 anos, sequer quis deixar o hospital ao fim de sua internação, que durou 32 dias, em 2013. Diagnosticado com miocárdio não compactado, doença que pode causar até uma parada cardíaca na criança, o estudante precisou abandonar a escola para fazer uma série de exames no Hospital Beneficência Portuguesa, em Bela Vista, região central. “Parecia uma escola, só que mais legal. A gente estudava e brincava”, relatou o menino. 

Já a dona de casa Semiramis Michiles e seu marido, o professor Rodrigo Michiles, vieram de Manaus (AM) para deixar a filha Sabrina, de 8 anos, internada por um ano no mesmo hospital. A criança foi diagnosticada com síndrome nefrótica, doença nos rins que gera inchaço abdominal e falta de proteína no sangue. Como Sabrina precisou passar por tratamento de quimioterapia, as aulas ajudaram não só a não perder o ano letivo, como a ficar mais calma em relação aos procedimentos médicos. “Eu ia pro quarto e ficava triste. Ia para a sala todos os dias”, contou Sabrina. “Só senti muita falta dos meus amigos” - ela estudava em um colégio particular em Manaus. Quando retornou à escola - agora a criança só precisa de atendimento duas vezes por ano, o que é feito no período de férias - ela contou ter sido muito bem recebida. “Todas me abraçaram muito quando eu cheguei”.

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