Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com pandemia, nº de crianças e adolescentes fora da escola aumenta 171%

Dados do IBGE indicam que 244 mil de 6 a 14 anos não estavam matriculados no 2.º trimestre, um efeito direto da pandemia

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2021 | 06h00

O Brasil registrou aumento no número de crianças e adolescentes fora da escola neste ano: 244 mil meninos e meninas de 6 a 14 anos não estavam matriculados no segundo trimestre – uma alta de 171,1% em relação ao mesmo período de 2019. Esses são os primeiros dados sobre os efeitos da pandemia na Educação brasileira e mostram que, além de dificuldades de garantir aprendizagem durante o ensino remoto, o Brasil também enfrenta problemas em dar acesso à educação. 

Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e foram tabulados pelo movimento Todos pela Educação. Segundo a pesquisa, o Brasil recuou em relação à universalização do atendimento escolar para crianças e adolescentes. O porcentual de crianças e jovens de 6 a 14 anos matriculados no ensino fundamental ou médio ficou em 96,2%, o menor valor desde 2012. Em 2019, o índice era de 98%.

Novos dados, relativos aos últimos meses de 2021, devem ser publicados em breve, mas a expectativa não é de melhora. “Com o fechamento prolongado das escolas no Brasil, houve um distanciamento grande entre crianças, jovens e suas escolas. Isso cria desengajamento e consequentemente leva algumas crianças e jovens, principalmente os mais pobres, a sair da escola”, explica Gabriel Corrêa, líder de políticas educacionais do Todos pela Educação. 

No ano passado, o IBGE estimava que 4,9 milhões de crianças não recebiam lições escolares em meio à pandemia. O aumento da pobreza no Brasil também faz com que crianças e jovens tenham de ajudar financeiramente em casa – o que os afasta das escolas. 

Questões locais

Agora, mesmo com a reabertura das escolas, gestores locais sentem dificuldades em trazer todos para a sala de aula. Até a mobilização para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficou prejudicada pela pressão externa para que os jovens ajudem a colocar comida em casa – o número de inscritos este ano caiu quase pela metade.

“O número de pessoas de baixa renda aumentou. No retorno 100% presencial, parte dos alunos não veio por falta do dinheiro para o transporte”, disse o secretário estadual da Educação do Rio Grande do Norte, Getúlio Marques. O Estado prevê ações para resgatar o vínculo, como oferta de aulas com cursos profissionalizantes.

Na Bahia, um dos efeitos da pandemia foram os pedidos dos adolescentes para a troca de turno – eles querem estudar à noite, para dar conta de outras tarefas durante o dia “Percebemos que os estudantes passaram a ter outras atividades econômicas”, diz Rainer Guimarães, superintendente de gestão da Informação Educacional na Bahia. O Estado ainda não tem balanço de queda nas matrículas.

Sem vínculo com a educação, o risco é de que essas crianças não completem os estudos e fiquem ainda mais vulneráveis a outros problemas, como violência e a insegurança alimentar. Para Corrêa, será preciso identificar crianças que saíram do sistema educacional e ir atrás das famílias – a chamada busca ativa. O segundo passo é garantir a matrícula e outras condições de acesso e permanência, como o transporte e até ajuda financeira para que as famílias consigam deixar os filhos na escola.

Atrasos

Os dados do IBGE também apontam para outro desafio: aumento de crianças e jovens que, embora estejam matriculados, ficaram atrasados na trajetória escolar. Neste ano, o Brasil teve crescimento de estudantes de 6 a 14 anos matriculados na pré-escola, uma etapa voltada para crianças de 4 e 5 anos. Também houve aumento de jovens de 15 a 17 anos ainda no fundamental.

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