Alex Silva/Estadão - 10/09/20
Fechamento das escolas por causa da pandemia afetou o processo de alfabetização e aumentou as desigualdades entre os estudantes Alex Silva/Estadão - 10/09/20

Número de crianças de 6 e 7 anos que não sabem ler e escrever cresce 66%

Com a pandemia, quantidade estimada de menores nessa faixa etária que não foram alfabetizados aumentou de 1,43 milhão, em 2019, para 2,39 milhões no ano passado

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2022 | 06h00

O número de crianças de 6 a 7 anos que não sabem ler e escrever cresceu 66,3% no Brasil em dois anos. Com a pandemia, a quantidade das que não foram alfabetizadas subiu de 1,43 milhão, em 2019, para 2,39 milhões, em 2021. Conforme o levantamento do Todos Pela Educação, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, entre as crianças com menos condições, o porcentual das que não sabiam ler e escrever saltou de 33,6% para 51% entre 2019 e 2021. Entre as mais ricas, o aumento foi de 11,4% para 16,6%.

“O grande problema está na equidade. Considerando que os mais pobres, os mais afetados, estão nas escolas públicas, é fundamental que se priorize o investimento para dar as condições para essas crianças”, diz Luiz Miguel Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

O levantamento aponta que o porcentual de crianças de 6 e 7 anos que, segundo seus responsáveis, não sabiam ler e escrever foi de 25,1% para 40,8% em dois anos. É o maior patamar do indicador desde o início da série histórica, em 2012. O impacto da pandemia também reforçou a diferença na alfabetização entre crianças brancas e pretas e pardas. Os porcentuais de pretas e pardas que não sabiam ler e escrever passaram de, respectivamente, 28,8% e 28,2% em 2019, para 47,4% e 44,5% em 2021. Entre as brancas, o crescimento foi de 20,3% para 35,1% no período.

“Com o retorno às atividades presenciais no ano passado, ficou bastante nítido que havia uma defasagem muito grande. Os dados confirmam essa sensação”, diz Garcia.

“Tenho uma visão relativamente otimista de que é possível fazer um processo de recuperação (de aprendizado). Mas deve haver inserção de novas metodologias”, reforça ele. “Se a gente conseguir construir essas bases, com envolvimento maior da família, ampliando os investimentos, há uma melhor perspectiva.”

Em nota, o Ministério da Educação informou que “a crise de aprendizagem era uma realidade diagnosticada em escala mundial já em 2018”. “No caso brasileiro, ela já havia sido apontada em 2003, por meio do relatório 'Alfabetização Infantil: os novos caminhos', elaborado por um grupo de trabalho convocado pela Câmara dos Deputados”, diz.

“Em 2019, esse relatório e diversos estudos internacionais serviram de subsídio para formular a Política Nacional de Alfabetização.” Segundo a pasta, com a pandemia da covid, no entanto, as ações que já haviam sido desenhadas foram direcionadas à mitigação dos impactos decorrentes da suspensão das aulas.

O desempregado Jailson Cerqueira, de 43 anos, se diz insatisfeito com o desempenho escolar da filha Júlia Cerqueira, de 8 anos. Desde o início da pandemia do coronavírus, a menina, matriculada em uma escola da rede pública municipal, no bairro de Pituaçu, orla de Salvador, Bahia, está sem aula presencial e também praticamente sem acesso aos conteúdos escolares via internet.

Com isso, Jailson diz que a filha regrediu nos estudos. “Ela lê, mas com dificuldade. Quando estou em casa, ainda me esforço para ajudá-la, tento estimulá-la, mas fica muito a desejar. E acho que esse papel é da escola.” / COLABOROU HELIANA FRAZÃO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

É preciso articular União, Estados e cidades contra desigualdades na Educação; leia análise

Política pública específica para populações mais vulneráveis tem de ser prioridade na pauta do Brasil

Gabriel Corrêa*, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2022 | 06h00

Os dados são mais uma evidência de como a pandemia trouxe impactos bastante graves para a Educação. A alta expressiva no número de crianças de 6 e 7 anos que não sabem ler e escrever reforça o quanto a Educação precisa ser, de fato, prioritária na pauta política do País, para que possamos nos próximos meses e anos mitigar esses efeitos. O fechamento prolongado das escolas, somado às estratégias improvisadas de ensino remoto e o agravamento da pobreza, afetou profundamente o aprendizado de crianças e jovens. E sem políticas públicas específicas para as populações mais vulneráveis, o impacto é maior nos alunos pretos e pardos e naqueles mais pobres, o que é gravíssimo. Precisamos agir com urgência para reverter esse cenário.

Reabrir escolas e garantir a presença de todos os alunos é essencial, mas não é suficiente. É um desafio imenso, mas inicial. Neste momento de volta às aulas é fundamental ter estratégias de recomposição dessas aprendizagens que não aconteceram. Se ignorarmos isso, iremos condenar toda a trajetória escolar de uma geração, e, especialmente, dos mais vulneráveis. Mas não precisa e não pode ser assim.

Sobre os desafios do poder público, é importante lembrar que, de cada 10 crianças nos primeiros anos do ensino fundamental, oito estão em escolas municipais. Isso é um indicativo da responsabilidade que possuem prefeitos e secretarias municipais de Educação. Mas não podemos achar que a responsabilidade está só nas prefeituras. Experiências de sucesso no Brasil mostram o potencial do regime de colaboração, em que governos estaduais apoiam técnica e financeiramente as prefeituras nas suas ações educacionais.

O Ministério da Educação, por sua vez, ainda que tenha indicado em discurso a priorização da alfabetização, teve uma atuação prática inexpressiva frente aos desafios presentes. Não houve apoio consistente do MEC para as Secretarias de Educação, tampouco diálogo efetivo. Na ausência de uma coordenação nacional e de consistente apoio técnico e de recursos, as respostas dos Estados e municípios aos efeitos da pandemia vêm sendo muito desiguais, o que favorece a ampliação das desigualdades, conforme estamos vendo.

* LÍDER DA ÁREA DE POLÍTICAS EDUCACIONAIS DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.