Chester Higgins Jr./NYT
Chester Higgins Jr./NYT

Nova York ameaça liderança do Vale do Silício

Centro de tecnologia que mais cresce nos EUA, com 486 empresas iniciantes, cidade supera Boston e conquista 2º lugar

Gustavo Chacra, correspondente de O Estado de S. Paulo,

12 Maio 2012 | 18h24

NOVA YORK - O Silicon Valley e Wall Street se aproximam cada vez mais. E não apenas pelos IPOs (oferta inicial de ações) como o do Facebook, previsto para acontecer ainda neste mês em Nova York. As próprias startups de tecnologia começam a emergir em Manhattan e no Brooklyn, transformando a cidade sinônimo de bancos em um novo hub de tecnologia.

 

“Uma verdadeira revolução tecnológica” está acontecendo em Nova York e, “se você não estiver prestando atenção, deveria”, escreveu Steve Case, fundador da AOL, em um post recente em seu blog, dando um claro sinal de entusiasmo com as startups na cidade dos Yankees, da Goldman Sachs e do Empire State Building.

 

E ele parece ter razão. Semana passada, o Center for Urban Future publicou um estudo indicando que Nova York ultrapassou Boston e se tornou o segundo maior centro de empresas de tecnologia dos Estados Unidos, ficando atrás apenas do Silicon Valley, na Califórnia. Existem ao todo 486 startups na cidade atualmente.

 

De acordo com o levantamento, o crescimento na abertura de novas empresas em Nova York nos últimos quatro anos, posteriores à crise financeira, foi de 32%. Todas as outras regiões consideradas hub de tecnologia tiveram uma redução, incluindo o Silicon Valley, conhecido por ser a sede do Google, Facebook e Apple. Hoje há 10% menos startups ao redor de San Francisco do que em 2007.

 

Abrir startups em Nova York já vem rendendo frutos para estas empresas. Ao menos 82 delas, lançadas depois de 2008, já conseguiram levantar mais de US$ 10 milhões em investimentos. Dez delas atraíram valores acima de US$ 50 milhões, segundo o Center for Urban Future.

 

Uma das grandes estrelas das startups de Nova York é a Gilt, da área de design de roupas na internet, que recebeu US$ 221 milhões em investimentos desde 2007. Em segundo vem a plataforma de blogs Tumblr, com US$ 125 milhões, e a ZocDoc, que ajuda a encontrar e marcar consultas em médicos, com US$ 95 milhões.

 

Em um momento em que a maior preocupação da população americana é com a falta de trabalho, essas empresas também são responsáveis por um crescimento de 28,7% no número de empregos na área de tecnologia, enquanto o total na cidade é de 3,6%. Hoje, há 23 mil pessoas no New York Tech Meetup, que reúne membros dessa comunidade de tecnologia, mais do que o dobro de 2009.

 

“Nova York aparentemente está construindo um setor de tecnologia sustentável, se beneficiando de um ambiente que não existia na primeira onda de crescimento tecnológico nos 1990. Desta vez, a base está justamente nas qualidades naturais da cidade, que está na vanguarda do crescimento da mídia digital, internet e redes sociais”, afirma análise publicada no estudo.

 

Segundo Jim Robinson IV, um dos maiores investidores em empresas de tecnologia nos EUA e que integra o estudo do Center for Urban Future, “Nova York estava em um muito distante terceiro lugar em termos de dólares investidos nas startups. O Silicon Valley estava em um óbvio primeiro lugar e Boston era claramente o segundo. Agora Nova York é claramente o segundo colocado, ultrapassando Boston.”

 

Universidades

 

O Silicon Valley e Boston tradicionalmente se destacaram na área de tecnologia por estarem ao redor de importantes instituições acadêmicas. No primeiro caso, há a Universidade Stanford, historicamente conhecida por produzir prodígios da tecnologia, inclusive mais recentemente os dois fundadores do Instagram, empresa vendida por US$ 1 bilhão para o Facebook. No segundo, há MIT e Harvard, por onde passaram, entre outros, Mark Zuckerberg e Bill Gates.

 

Em Nova York, as duas principais universidades, Columbia e NYU, nunca se focaram na área de tecnologia, tendo uma preocupação maior com as suas escolas de direito, medicina e administração de empresas. Jovens mais ligados às ciências tecnológicas raramente escolhiam essas duas instituições para estudar.

 

Mesmo agora com o advento das startups em Nova York, a maior parte dos empreendedores vem de outras cidades. A universidade com o número mais elevado de estudantes que abriram empresas em Manhattan e no Brooklyn é Harvard.

 

De olho nesse déficit, a Universidade Cornell, uma das mais tradicionais dos EUA e com um câmpus no Estado de Nova York a cerca de cinco horas de Manhattan, decidiu ficar mais perto do centro financeiro e anunciou a abertura de um gigantesco centro de tecnologia na cidade, com o apoio da Prefeitura. Com ela, estará a prestigiosa universidade israelense Technion, que ajudou a transformar Tel Aviv em um dos maiores pólos tecnológicos do mundo.

 

Esse suporte da prefeitura tem sido fundamental. O prefeito Michael Bloomberg instituiu uma série de incentivos fiscais para a abertura de startups na cidade, além de ter sido o grande promotor do câmpus da Cornell. Ele também convenceu o Facebook e o Twitter a abrirem escritórios na cidade.

 

A queda no emprego em outros setores também tem levado muitos jovens a tentar a área de tecnologia em Nova York. Desde a crise de 2008, houve uma redução 5,9% nos postos de trabalho na área financeira, 7% em direito, 15,8% na imprensa e 29,5% na indústria.

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