TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Nova disciplina da USP cria jogo online com foco no meio ambiente e combate a fake news

Game ON tem como objetivo fazer alunos refletirem sobre sustentabilidade e disseminação de notícias falsas sob a ótica da Ciência

Davi Medeiros, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 15h00

No mundo dos games, a diferença entre passar de fase e o fim do jogo está na capacidade do jogador de superar desafios. Professores da Universidade de São Paulo (USP) notaram que algo parecido ocorre na vida real, em um planeta que também contém obstáculos capazes de nos tirar de cena, e transformaram a premissa numa disciplina “fora da caixinha”. Em Game ON, os alunos têm de criar um jogo online que trate de temas da atualidade, especialmente fake news e meio ambiente, de modo que instigue o público a pensar em soluções. O produto final vai integrar uma plataforma que ficará à disposição para professores da rede pública que queiram usá-lo em turmas de Ensino Médio.

Aberta a todos os cursos da universidade, a disciplina vai dividir os alunos em grupos multidisciplinares, com integrantes de diversas áreas do conhecimento. Eles terão de entrar em acordo e criar um personagem que se depare com situações-problema, sempre ligadas à Ciência, em cenários do cotidiano. Para guiar esse avatar em suas decisões e avançar no game, os jogadores vão acessar informações científicas que a USP já oferece gratuitamente.

A ideia, segundo os coordenadores do curso, é divulgar o conhecimento produzido pela universidade para adolescentes do Ensino Médio. “Queremos mostrar o que a USP pode oferecer para ajudar a resolver problemas contemporâneos”, afirma Fernando Abdulkader, professor responsável pela disciplina.

O jogo seguirá o formato escape room, popular na internet. Nele, o participante tem de resolver “enigmas” para avançar de um cenário a outro. No produto criado pela USP, esses enigmas serão obrigatoriamente relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Eles estabelecem metas a serem alcançadas pelo planeta em 2030, como redução da desigualdade e mitigação das mudanças climáticas. Em outras palavras, o Game ON servirá de ponte entre adolescentes e os estudos que já tratam desses temas, mas que podem não despertar, para esse público, o mesmo interesse em forma de artigo.

Se, por um lado, pensar o meio ambiente sob a ótica da Ciência garante pontos, as fake news, se o planeta fosse um gráfico de videogame, certamente fariam parte dos vilões que reduzem a barra de sobrevivência. “Sabemos que a desinformação pode ser fatal, e o contrário disso, informação, é o que mais se tem na universidade”, diz Guilherme Marson, coordenador adjunto da disciplina. Ele cita a pandemia para dar um exemplo claro de como a disseminação de mentiras pode custar vidas, e lembra que o mesmo pode ser aplicado às mudanças climáticas.

Por isso, um dos objetivos principais, segundo Abdulkader, é ensinar os jovens a separar a desinformação do conhecimento científico. “Trata-se de um retorno direto e a curtíssimo prazo do investimento na USP para a sociedade”, acrescenta Marson.

INCLUSÃO

Os coordenadores do curso observam que estudantes de escolas públicas tendem a achar impossível ingressar na USP, embora a instituição reserve vagas para eles. Um efeito esperado do jogo é aproximar esse público da universidade, dado que, ao conhecerem pesquisas feitas nos institutos, os adolescentes verão as perspectivas de carreira às quais podem se dedicar após o vestibular.

São muitas. O produto final de Game ON será resultado do trabalho de 124 pessoas de pelo menos 49 cursos da instituição. Pensarão juntas cabeças de Humanas, Biológicas, das engenharias, entre outras. O estudante Alisson Machado, monitor da disciplina, veio da Nutrição. “Em vez de ficar preso aos assuntos de uma área específica, os alunos sairão com uma visão global de temas relacionados à sustentabilidade, graças ao intercâmbio com colegas de outros cursos”, diz.

Alisson considera que isso agrega valor profissional aos futuros egressos, dado que eles podem aplicar em suas próprias graduações o que aprenderem. Marson e Abdulkader lembram que os problemas climáticos contemporâneos extrapolam a separação de áreas do conhecimento. Para o engenheiro, não basta saber construir pontes, é preciso pensar em seu impacto ambiental. “Temos de formar pessoas que falem essa língua”, diz Marson.

A linguagem da programação, por outro lado, não é dominada pela maioria dos matriculados. Ainda assim, os estudantes construirão o jogo do início ao fim, sem pedir ajuda a outros grupos da Universidade. Para isso, eles terão oficinas sobre a estrutura de código aberto H5P, sobre a qual a plataforma do game será criada.

O resultado será um jogo simples, montado no Google Sites e sem sofisticação gráfica, mas compatível para ser rodado pelo celular. Mais do que alcançar o “estado da arte” no desenvolvimento de jogos eletrônicos, a preocupação é inspirar jovens a buscarem um futuro mais sustentável e, quem sabe, trazê-los para a universidade, além de formar profissionais abertos a diferentes visões de mundo. Dos dois lados, perde quem espalhar desinformação, vence quem seguir a Ciência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.