Nota do Enem piora em Matemática, Linguagens e Ciências da Natureza

Nível de participação entre escolas privadas é superior ao da rede pública

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2016 | 11h02
Atualizado 04 Outubro 2016 | 23h46

O desempenho das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2015 piorou em Matemática, Linguagens e Ciências da Natureza. As notas só aumentaram em Ciências Humanas e Redação, em relação à edição do ano anterior. 

A nota de Matemática recuou de 481 pontos em 2014 para 475 pontos. Em Ciências da Natureza, a queda foi de 487 pontos para 478 pontos. Já em Linguagens, saiu de 511 para 504. Em Ciências Humanas, o aumento foi de 546 pontos para 555 pontos. Em Redação, houve a maior mudança (de 52 pontos): a nota subiu de 491 pontos para 543 pontos. 

A redução no desempenho de Matemática é histórica: levantamento realizado pelo Instituto Alfa e Beto apontou que, de 2011 a 2015, todos os Estados apresentaram recuo nas notas da disciplina. As maiores quedas aconteceram no Rio (63 pontos), no Rio Grande do Sul (61 pontos), em Santa Catarina (57 pontos), no Distrito Federal (52 pontos) e em Minas (52). 

Apesar da piora em relação ao Enem 2014, a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Fini, ressaltou “os dados positivos”. As quedas nas notas em Matemática, Linguagens e Ciências da Natureza, para ela, são “lições” que apontam para a “urgência” da reforma do ensino médio. “Hoje temos um currículo conservador e tradicionalista, em que os alunos estão aprendendo muito pouco”, disse Maria Inês.

Ex-presidente do Inep e membro do Conselho Nacional de Educação, Chico Soares acredita que os resultados são “uma grande demonstração da crise crônica do ensino médio”. O modelo atual, critica ele, é muito concentrado na preparação para o ensino superior, e “exclui muita gente.” Segundo ele, as notas das Redação não são comparáveis porque há diferenças de tema e dificuldade. 

Já o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Alavarse acredita que os resultados indicam que a reforma no ensino médio é ‘indevida’. “Mais uma vez o exame revela muito mais as condições sociais e econômicas dos jovens que realizam a prova do que qualquer outra coisa. A reforma iria precarizar ainda mais o ensino. O que precisa ser melhorado, em primeiro lugar, é o ensino fundamental, e não o médio”, afirma. 

Ele diz que é cedo para analisar os motivos que levaram à variação das notas nas áreas específicas. “Pode haver uma flutuação da margem de erro também. O Inep ainda não divulgou a margem de erro dessas notas – que antes podem ter sido subestimadas e agora superestimadas. Isso sempre vai acontecer”, argumenta Alavarse. 

Inclusão. Maria Inês também afirma que os resultados do Enem por Escola revelam uma “enorme desigualdade”, já que as maiores notas são de escolas privadas ou federais – que aplicam um “vestibulinho” para selecionar os melhores alunos. Outro motivo, segundo ela, é o fato de os estudantes de nível socioeconômico baixo terem pouca participação no Enem, ao contrário dos de classes média e alta. “Alunos de estratos inferiores de renda nem se inscrevem”, constatou Fini.

A secretária executiva do Ministério da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, também destacou as diferenças entre as redes. “A autoexclusão é algo a ser combatido. Eles têm autoestima tão baixa que nem sequer se apresentam para fazer a prova, mesmo com a disponibilidade de recursos como bolsas de ProUni e Fies. Não veem o ensino médio como uma chance de promoção pessoal. A reforma vai promover mais equidade”, disse.

Mas a nota dos alunos pobres nem sempre é suficiente para acessar os programas de apoio ao ingresso na faculdade. Das 724 escolas públicas pobres (nível socioeconômico baixo ou muito baixo), 26,7% não teriam 450 pontos de média nas objetivas, requisito mínimo para conseguir financiamento pelo Fies, por exemplo.

Rankings. Ambas criticaram a realização de “rankings” em lista única de resultados, o que classificam como “inapropriado” para indicar à sociedade e aos pais a qualidade do colégio que o aluno frequenta. Por isso, os rankings foram separados em 14 “contextos”, que consideram o índice de permanência na escola, o porte da instituição e indicadores socioeconômicos.

Desempenho da rede pública vem melhorando

A maioria das instituições no top 100 da rede pública está relacionada às redes estaduais. São 66 ligadas aos Estados, ante 36 federais e somente 2 municipais. Além disso, em sua maioria são colégios técnicos ou que pertencem a universidades federais, que têm seleção prévia dos alunos por meio vestibulinho.

A média geral das escolas públicas na prova objetiva foi de 486,5 – e na Redação, de 517,1. Só 756 escolas públicas, das 8.732 participantes, conseguiram atingir a média nacional (considerando públicas e privadas), que foi de 515,8.

Levantamento feito pelo Instituto Alfa e Beto, com base nas notas do Enem, aponta que, apesar das diferenças com as escolas privadas, a rede pública vem melhorando seu desempenho. De 2011 a 2015, praticamente todos os Estados registraram melhora em suas notas, com exceção do Rio de Janeiro, que oscilou 4 pontos, de 494 para 490. Acre, Amazonas, Maranhão, Espírito Santo e Sergipe foram os Estados que mais ganharam pontos no período – 23, 22, 21, 20 e 20 pontos, respectivamente. Na rede privada, dez Estados registraram piora no mesmo período.

Para o presidente do instituto, João Batista Araújo e Oliveira, é preciso melhorar a educação básica como um todo para garantir avanços. “O que vai melhorar o desempenho na escola pública é uma reforma desde a base, na pré-escola”, diz./ EDISON VEIGA, LUIZ FERNANDO TOLEDO, VICTOR VIEIRA e LUÍSA MARTINS

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