ABMES
Celso Niskier, diretor presidente da Abmes, aponta para necessidade de aulas mais dinâmicas ABMES

No pós-pandemia, câmpus deve ser social, digital e mediador

Universidades devem ensinar o jovem a selecionar o que é ou não é importante em uma nova realidade mais dinâmica e multifacetada

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 05h00

O best seller 21 Lições Para o Século XXI, escrito por Yuval Noah Harari, autor de blockbusters editoriais como Sapiens e Homo Deus, traz um capítulo sobre processos educacionais com observações que podem servir de farol para os desafios do ensino superior no pós-pandemia. Para Harari, a última coisa que um professor precisa dar aos alunos é informação – isso será encontrado a qualquer momento, de qualquer lugar, e em demasia. Em vez disso, deve ajudar os estudantes a desenvolver a capacidade de combinar os múltiplos fragmentos da informação em algo que faça sentido, ensinar o jovem a selecionar o que é ou não é importante na nova realidade dinâmica e multifacetada do mundo.

Acrescenta-se a isso os efeitos ainda imprevisíveis da pandemia, e tem-se uma prévia de como, cada vez mais, a formação universitária deve ir além do conteúdo puro e simples. Aquele check-list padrão da escolha da instituição de ensino – como análise da grade curricular, infraestrutura e perfis de professores – já não é mais suficiente.

O documento "Cenários da Educação Superior Brasileira no contexto da Covid-19", publicado pela Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior (Abmes) traz algumas questões importantes a serem ponderadas no momento de escolher onde fazer a matrícula da graduação. Dentre as propostas que os estudantes devem identificar nas instituições de ensino superior, o documento cita pontos como a valorização da aprendizagem ativa e conteúdos contextualizados e problematizados; novos métodos de avaliação que priorizem o raciocínio e a dúvida; processos de ensino-aprendizagem com foco nos problemas reais da sociedade e do Estado; incorporação do empreendedorismo e a internacionalização da formação acadêmica interdisciplinar; foco na formação baseada na relação professor facilitador e aluno protagonista; e garantias de que se adota a inclusão, a diversidade e a sustentabilidade.

Não é pouca coisa e nem um processo simples. Exige reinvenção e compromisso. "É necessário que as instituições apostem em aulas mais dinâmicas, com metodologias ativas", afirma Celso Niskier, diretor presidente da Abmes. O objetivo deve ser o de "superar o descompasso existente entre a formação oferecida, a formação almejada pelos estudantes e a formação exigida pela sociedade e pelo mercado de trabalho". "Na pandemia houve uma grande evasão de alunos que não se adaptaram ao tipo de modelo remoto conduzido e se desinteressaram. A instituição que é socialmente responsável sabe que deve se readequar para que o aluno se reapaixone pela educação, que veja a formação como algo para a vida inteira e uma volta ao futuro", diz ele.

Tecnologia

O Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp também publicou recomendações para o ensino superior no boletim "Ensino, Pesquisa e Formação na Pós-Covid-19 e a Universidade que Precisamos". O texto sugere medidas com eixo no uso de tecnologias para tornar as universidades totalmente conectadas, com acesso rápido e de boa qualidade para a comunidade externa e com menor burocracia. Isso inclui também melhor gestão e digitalização dos processos, oferecer ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) e formas eficazes de ensino híbrido.

Como exemplo, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) desenhou um plano de transformação digital. A proposta prevê a otimização de processos internos e posterior digitalização e, quando possível, automatização. Isso além de implementar mecanismos de avaliação e melhoria contínua dos serviços prestados aos cidadãos. O grande desafio é pensar na transformação e simplificação, e não apenas na conversão para um canal digital.

"Logicamente, a conversão já traz uma série de vantagens, permite que o cidadão solicite o serviço pela internet, a qualquer hora, sem precisar se deslocar, é um avanço importante. Mas se um processo é pouco otimizado, burocrático, custoso, e você converte isso para o digital, leva todas essas imperfeições", afirma Ruminiki Schmoeller, coordenador de Tecnologia da Informação da Unila. "Entendo a transformação como um processo mais amplo e continuado."

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No ensino particular, modelo híbrido dará o tom no pós-pandemia

Pesquisa mostra que maioria dos alunos quer manter o remoto, mas com momentos presenciais

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 05h00

Será que o ensino superior voltará a ter cursos 100% presenciais? Tudo indica que não, ao menos nas instituições particulares. Se antes da pandemia a escolha dos vestibulandos estava entre dois extremos – totalmente presencial ou totalmente a distância (EaD) –, a partir de 2022 o híbrido dará o tom.

A pesquisa "Adoção de aulas remotas – visão dos alunos" mostra que 53,8% dos alunos de instituições privadas e 56,8% de universidades públicas querem a manutenção da experiência com as aulas remotas, porém com a existência de momentos presenciais. Um levantamento a respeito do sindicato nacional das mantenedoras, o Semesp, foi publicado em agosto. "As aulas remotas foram aprovadas, principalmente, pela melhoria das condições de vida dos alunos e professores, que ganham tempo. Porém, alguns aspectos precisam melhorar para a manutenção de um modelo permanente que combine aulas presenciais e online", afirma a presidente do Semesp, Lúcia Teixeira.

Ela enfatiza que a abordagem centrada no aluno é fundamental na aprendizagem que combina presencial e online e para sua maior efetividade se recomendam espaços flexíveis de aprendizagem, ensino mediado por tecnologias, avaliações formativas e instruções claras dos educadores. "É também importante ouvir os estudantes e considerar todos os aspectos da socialização, saúde mental e comunicação, bem como o desenvolvimento de competências."

Na Fiap, por exemplo, todos os alunos que ingressarem nos cursos presenciais a partir do próximo ano terão aulas em formato híbrido. Os estudantes vão às salas de aula em três dias da semana, terão um dia com aulas a distância ao vivo e outro com aulas assíncronas, nas quais irão acessar remotamente vídeos pré-gravados e outros materiais multimídia. "A pandemia nos trouxe alguns aprendizados, principalmente em relação ao ensino remoto. Discutimos bastante internamente e decidimos por oferecer uma entrega acadêmica com o melhor do presencial e do remoto", explica o pró-reitor Wagner Sanchez.

A instituição investiu em modernização de salas, equipamentos e curadoria de conteúdos. Outro cuidado é com o estado socioemocional dos alunos no pós-pandemia: além da contratação de psicólogos, a instituição utiliza um software que faz análises preditivas de comportamentos, com base na participação dos alunos nas atividades. "Quando o programa sinaliza que o aluno não está interagindo, entramos em contato para entender o que acontece. Em casos de depressão, por exemplo, oferecemos apoio."

Aluno resistente

Se a pesquisa do Semesp mostra que a aprovação ao híbrido cresce entre os alunos já matriculados na graduação, a percepção não parece ser a mesma quando são ouvidos os estudantes que ainda não se matricularam no curso superior. É que muitos deles trazem como repertório a má experiência do ensino médio cursado de forma remota. Moradora da Brasilândia, zona norte paulistana, Elisa Rodrigues da Silva, de 18 anos, sofreu com a dificuldade de acesso. "De vez em quando, a região sofre com apagões de internet e até de energia elétrica. Além disso, compartilho o nosso único computador da casa com a minha mãe, que é professora de fundamental."

Mesmo quem teve acesso à boa estrutura de ensino remoto no ensino médio mostra reticência. Lara Jacinto Rangel, de 17 anos, cursa o 3º ano no Colégio Cervantes e pretende cursar Engenharia de Produção na USP ou na Unicamp. Entre as particulares, sua opção é o Instituto Mauá de Tecnologia.

Para ela, o modelo híbrido é uma opção interessante somente na fase final de um curso de graduação. "Acho que a modalidade não seria o ideal nos primeiros anos do curso superior. É um período de integração e estar presencialmente na faculdade faz parte disso."

Na Faap, uma pesquisa realizada entre os meses de maio e agosto mostrou que 82% do público aprovado no vestibular e que não efetuou a matrícula prefere o ensino presencial. Fatores como a importância de vivenciar o câmpus e usufruir da infraestrutura e do convívio são determinantes. 

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Faculdade no pós-covid impõe desafios a alunos e professores

Ensino superior deve formar para pesquisa de inovações, com sustentabilidade, diversidade e visão social

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 05h00

Sabe as certificações que indicam se a empresa tem compromisso com a sustentabilidade, investe na diversidade de funcionários, preza a satisfação do público interno e é socialmente responsável? Imagine agora um diploma de curso superior com as mesmas informações. Não importa se é Engenharia, Direito, Medicina ou TI. Agora um bom profissional deve sair da universidade preparado para buscar por inovações com base em pesquisas sólidas, ciente da importância da sustentabilidade em todas as etapas de um projeto e responsável por promover e atuar em ambientes com o máximo de diversidade.

Conforme uma pesquisa que ouviu 132 líderes de empresas brasileiras entre abril e maio, feita pelo portal de empregos Indeed e pela agência de marketing digital Sherlock Communications, 83% dos entrevistados acreditam que capacidade de pesquisa será mais importante do que treinamento em conhecimentos específicos e 80% afirmam que grupos mais diversos são mais criativos. São dados que mostram que mais importante do que escolher as profissões em alta, vale considerar a importância de um aprendizado que vá além do domínio técnico. O mercado de trabalho à espera do jovem que ingressa agora no curso superior vai ser composto cada vez mais por equipes multidisciplinares e inovadoras. A boa notícia: tudo isso já se aprende e se vivencia na universidade.

Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), estimula-se os estudantes da graduação a acompanharem os projetos de pesquisas desenvolvidos por pesquisadores da pós. Os alunos de Direito, por exemplo, podem atuar no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (Cepi), órgão que surgiu do debate sobre a relação entre o Direito e as Novas Tecnologias. As linhas de pesquisa abordam assuntos como tecnologia, sociedade, ensino e inovação. Dentre as pesquisas recentes, há uma sobre o futuro do trabalho e gig economy, que envolve as relações entre milhões de trabalhadores autônomos e plataformas de serviços digitais como a Uber. Os alunos refletem sobre condições dignas de trabalho e seguridade; regulação de realidades, modelos de negócio e arquiteturas de plataformas e implementação de boas práticas de transparência em decisões automatizadas nas relações de trabalho.

"Fala-se muito que os futuros profissionais de Direito terão de saber programação. Daí procuramos refletir, expondo aos alunos o que de fato eles precisam se apropriar, com disciplinas conectadas à pesquisa empírica", diz Marina Feferbaum, coordenadora do Cepi da FGV.

Sustentabilidade

E o que remédios, produtos de limpeza e as camisetas em um guarda-roupa têm em comum? O uso de produtos nocivos ao ambiente na produção. Nesse contexto, uma dica preciosa aos alunos interessados em cursos de biológicas, mas que vale também para os outros ramos, é priorizar as opções nas quais as preocupações sustentáveis perpassam as disciplinas e atividades. No programa, essa abordagem recebe o nome de "química verde".

Dentre os princípios orientadores estão a busca pela eficiência de energia, o uso de produtos degradáveis e de fontes de matéria-prima renováveis. "Imagine uma indústria que, após desenvolver um produto e submetê-lo à aprovação de uma agência regulatória, receba um parecer negativo por causa da toxicidade dos componentes. Perdeu-se tempo e dinheiro", explica Cintia Milagre, vice-coordenadora do curso de Química do Instituto de Química da Unesp em Araraquara. "Por outro lado, se nesse caminho houvesse um profissional que selecionasse elementos sustentáveis, a aprovação teria sido mais certa e, consequentemente, há ganhos econômicos."

O Instituto de Química da Unesp foi a primeira instituição de ensino superior brasileira a assinar o Green Chemistry Commitment (GCC), iniciativa global que reúne instituições que buscam desenvolver produtos e processos sustentáveis. Na lista estão a Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), a Universidade Técnica de Berlim (Alemanha) e a Monash University (Austrália), entre outras. Com o compromisso, o instituto ajustou o currículo para apresentar conteúdos sobre "química verde" do primeiro até o último semestre. Os alunos lidam com demandas reais de empresas e laboratórios. Dentre as ações, há a execução de cálculos de emissão de carbono e recomendações para compensação e planos de gerenciamento de resíduos sólidos.

Diversidade

Por fim, as vantagens da diversidade vêm ganhando a academia e os negócios. No relatório "Diversity Wins", publicado no ano passado pela consultoria McKinsey, empresas com maior diversidade de gênero já apresentavam 25% mais probabilidade de ter uma lucratividade acima da média, considerando uma pesquisa em 15 países entre 2014 e 2019. E ao focar em companhias dos EUA e Reino Unido, o estudo aponta que as organizações com mais de 30% de mulheres no corpo executivo têm desempenho financeiro superior. No Brasil, além de a participação feminina ser pequena em cargos de maior qualificação, a remuneração é inferior. Mudar isso depende de promover a diversidade já no berço, ou seja, nos ambientes em que as futuras e futuros profissionais das mais diversas áreas se formam: a universidade.

O exemplo vem da Poli-USP. Desde 2018, a professora Liedi Bernucci é diretora da instituição centenária que já formou mais de 30 mil engenheiros. É a primeira mulher a ocupar a função pela qual já passaram 26 homens. O peso simbólico é grande, em uma área nas quais as mulheres representam apenas 19% dos profissionais, conforme os registros do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Dentre as ações tomadas pela diretora para mudar isso está um trabalho de conscientização do próprio corpo docente. "Temos conversado com os professores e em paralelo fortalecemos a comissão de ética e direitos humanos e a ouvidoria. Um comentário incorreto sobre a participação das mulheres no meio acadêmico, por exemplo, vai ser discutido e exposto. Queremos erradicar problemas como esse, mostrar que não serão aceitos."

Para atrair diversidade, a Poli tem promovido visitas a escolas do ensino médio, com eventos exclusivos para as alunas, como atividades interativas e workshops de programação. Trata-se da iniciativa "Meninas na Poli", conduzida pelo Diretório Acadêmico. Ecoando as mudanças, das 10 unidades que compõem o Diretório Acadêmico estudantil, nove são presididas por mulheres.

Depoimento: 'Queremos ser exemplos para as mulheres das próximas gerações'

Beatriz Bicudo, de 20 anos, aluna do 6º semestre da Poli-USP

"Meu interesse pela engenharia elétrica vem do ensino médio. Tive a chance de estudar em uma escola muito boa na qual davam kits com pilhas, baterias e lâmpadas para que a gente montasse circuitos. E me encantava entender como os aparelhos funcionam e como afetam a vida das pessoas.

Entrei na Politécnica em 2019 e foi muito importante ver uma mulher na direção. Mas, mesmo assim, no início do curso eu ainda não sentia como se o espaço fosse para mim. O máximo que tinha eram quatro meninas.

Logo no início do curso entrei no time de handebol feminino e isso me ajudou a me sentir acolhida. Daí, em setembro de 2019, comecei a ser voluntária no grupo "Elas pelas Exatas", ajudando a fazer workshops de programação para meninas de escolas públicas, para mostrar que o assunto era para elas. Me tornei representante de classe e passei a me engajar ainda mais.

Agora, em 2021, me tornei presidente do Grêmio Politécnico, uma das unidades que compõem o Diretório Acadêmico. Sabemos o quanto o espaço acadêmico nas engenharias pode ser hostil às mulheres e por isso estamos lutando para que seja mais inclusivo. Porque nosso trabalho não deve nada ao feito por homens. Queremos ser exemplos para as próximas gerações, que as "bixetes" vejam nossa liderança e se inspirem.

No futuro quero atuar em engenharia e automação elétrica, também pretendo entender o mercado de venda de energia elétrica e como otimizar esse processo no País."

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Falta de recursos faz faculdades públicas buscarem reinvenção

Criar parcerias com as empresas, sem perder em autonomia, volta a ganhar o centro das discussões

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 05h00

Por onde se vai, ouve-se que é preciso se reinventar e investir em tecnologia, em todas as áreas. Mas o que acontece quando não há recursos disponíveis nem previsão deles? As instituições públicas, principais celeiros das tão necessárias pesquisas que resultam em inovações, enfrentam um grande problema agravado pela pandemia: a redução de verbas.

As universidades federais, por exemplo, sofreram um corte de orçamento de 18,16% em 2021 em relação a 2020, conforme dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma das principais agências por trás do financiamento da ciência brasileira, a verba dedicada às bolsas caiu 12% de 2020 para 2021.

Em julho, as três universidades estaduais de São Paulo, USP, Unicamp e Unesp, enviaram uma carta conjunta ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para pedir a reposição da cota de importação de materiais e equipamentos para pesquisas nacionais. Segundo o documento, o governo federal reduziu o investimento de US$ 300 milhões para US$ 93 milhões neste ano, o que coloca em risco toda a continuidade de projetos.

Diante dessa escassez de recursos, vem à tona o velho debate sobre o estabelecimento de parcerias entre as universidades públicas com empresas. A ideia é defendida no artigo "Adaptação e desafios futuros para as universidades públicas do Brasil diante da pandêmica covid-19", publicado em inglês na plataforma Global University Network for Innovation, ligada à Unesco.

"Dentro das universidades existem segmentos que são bastante refratários a essa relação, por temor de que as universidades poderiam comprometer sua autonomia, por exemplo", comenta Ana Maria Nunes Gimenez, pós-doutoranda no Instituto de Geociências da Unicamp e uma das autoras do artigo, com as pesquisadoras Muriel de Oliveira Gavira e Maria Beatriz Machado Bonacelli. "Mas pode-se pensar em parcerias mutuamente benéficas que possam gerar resultados positivos: novas agendas de pesquisa, desenvolvimentos tecnológicos voltados à solução de problemas específicos, trocas de conhecimento devido à circulação de especialistas da empresa e da universidade."

Papel do Estado

A pesquisadora ressalta, entretanto, o papel do Estado como fonte de recursos de base para equilibrar os orçamentos e possibilitar essa renovação da infraestrutura. "O Estado deve fomentar programas voltados a tecnologias digitais, fazendo encomendas públicas especificamente para a melhoria das capacidades digitais das universidades, financiando pesquisas conjuntas entre universidades e empresas nesse campo."

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Discussão sobre ensino híbrido na rede pública ainda engatinha

Propostas são poucas; recentemente, projeto uniu quatro federais de várias partes do País e agora será replicado para 20

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

07 de outubro de 2021 | 05h00

A receita tradicional do ensino híbrido – com parte das aulas sendo cursadas presencialmente e parte sendo desenvolvida a distância, por meio de metodologias como sala de aula invertida – não faz parte dos editais das instituições públicas para um futuro próximo.

Mas algumas iniciativas já sinalizam o uso do formato, mesmo que de forma pontual. Recentemente, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) conduziu o piloto de um projeto de integração cujo objetivo é possibilitar que os universitários possam cursar de forma remota disciplinas de instituições nas mais variadas regiões do País. Quatro universidades federais participaram da experiência, que agora será replicada para outras 20.

Na Universidade de São Paulo (USP), a adoção do ensino híbrido também não está em pauta, mas a instituição tem incentivado a adoção de novas tecnologias de ensino. Neste ano, por exemplo, foi publicado um edital para a criação de Consórcios Acadêmicos para a Excelência no Ensino de Graduação. A iniciativa contempla recursos de R$ 1,5 milhão para 45 programas organizados em quatro áreas: inovação e integração docente no ensino de graduação; formação de professores para a educação básica no cenário 2030; avaliação como instrumento para aperfeiçoar o ensino de graduação; e políticas de inclusão e ingresso na USP.

O ensino híbrido é abordado em alguns dos projetos escolhidos, como "Utilização de ferramentas digitais, gaming e aprendizagem baseada em problemas no ensino híbrido de Biologia do Desenvolvimento". A proposta é criar uma versão híbrida da disciplina Biologia do Desenvolvimento, hoje alocada no Instituto de Ciências Biomédicas, para que seja aproveitada em outras graduações em Ciências Biológicas e de Saúde da USP.

A proposta visa a integrar o trabalho de docentes em diferentes câmpus da USP com experiência em pesquisa e ensino na área de biologia do desenvolvimento e a aprendizagem colaborativa dos alunos, com o auxílio de videoconferências e trabalhos em grupo virtuais.

Darwin

Para a realização de atividades práticas no ambiente virtual, os pesquisadores estão desenvolvendo um jogo no qual os estudantes poderão recriar as pesquisas de Charles Darwin e reanalisá-las no contexto molecular. "Vamos avaliar os resultados da experiência híbrida. Caso tenha problemas, pelo menos o game permanecerá como ferramenta de apoio remoto às aulas", explica Chao Yun Irene Yan, coordenadora do projeto. "De qualquer forma, nossa proposta é algo ainda novo para a própria USP e termos de discutir bem com a pró-reitoria de graduação e a comunidade acadêmica os próximos passos."

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