No Norte, nenhuma pós-graduação tem nota 7

Programas com o mais alto conceito da Capes são raros no Nordeste e no Centro-Oeste - eles estão concentrados no Sudeste

Bárbara Ferreira Santos, Estadão.edu

24 Junho 2014 | 12h46

Quase 50 anos após o Brasil implementar a pós-graduação, a Região Norte ainda não tem nenhum curso de qualidade equivalente aos principais programas internacionais. Essa é a única região que não tem nem sequer um programa de pós-graduação (PPG) nota 7, a maior concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência governamental que avalia e regula as pós stricto sensu (mestrado, mestrado profissional e doutorado). 

Nessa mesma faixa de classificação estão apenas um programa do Nordeste - de Saúde Coletiva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) - e um no Centro-Oeste - de Antropologia, da Universidade de Brasília (UnB). Sudeste e Sul concentram a maior parte: 84,6% e 13,7% dos programas com essa nota, respectivamente.

As notas estão classificadas entre 1 e 2 (ruins, que descredenciam uma pós da Capes ), 3 e 4 (desempenho médio), 5 (nota máxima para os programas só com mestrado), 6 (semelhante ao padrão internacional) e 7 (programas consolidados, que se equiparam aos principais do mundo).

Professor e ex-coordenador do único programa nota 6 no Norte - de Geologia e Geoquímica da Universidade Federal do Pará (UFPA) -, Rômulo Simões Angélica diz que as baixas notas se devem à pouca idade da maioria dos programas, ainda não consolidados. Ele explica que a expansão da rede federal no Norte é recente e ainda falta gente qualificada.

“Tínhamos pouquíssimos programas de doutorado e, no passado, o aluno fazia em outro Estado ou outro país. Agora a formação acontece aqui. As instituições de ensino superior são consolidadas com doutores e, portanto, na Amazônia, é importante formá-los, mas é um processo gradual, que exige maturação”, diz.

Ex-aluno de Angélica na graduação da UFPA, Cleyton de Carvalho Carneiro optou por fazer o mestrado e o doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). “Quando terminei a graduação, tive a possibilidade de trabalhar em uma multinacional e poderia permanecer no Pará, mas quis fazer pós e a Unicamp era a melhor opção para minha área de pesquisa”, afirma.

Apesar de ter feito todas as pesquisas de pós fora da Região Norte, Carneiro, professor da Escola Politécnica da USP, conta que sempre procurou estudar a Amazônia. “A minha pesquisa é voltada para lá. Embora seja feita em São Paulo, é elaborada em parceria com pesquisadores de lá.”

Excelência. Na coordenação da pós da UFPA, Angélica descobriu que atingir as notas 6 e 7 na avaliação da Capes dá mais independência financeira ao programa. “O repasse do dinheiro ocorre diretamente para a coordenadoria. Nas notas mais baixas, o dinheiro de financiamento vai primeiro para a pró-reitoria de pesquisa da Capes, que o redistribui.”

Entre os fatores que ele cita para o sucesso do curso da UFPA, que há três triênios de avaliação obtém a nota 6, estão os 40 anos de história e a proximidade com as empresas de mineração e exploração do local. “Essas parcerias eram informais, na forma do relacionamento pessoal entre pesquisadores, mas estão ficando bem profissionais, por meio de parcerias e editais.”

Já no Nordeste, Maria da Glória Teixeira, coordenadora do curso de Saúde Coletiva da UFBA - o único da região com nota 7 -, diz que a participação do programa na reforma sanitária do País e a missão de se voltar para o Sistema Único de Saúde (SUS) foram diferenciais. Ela afirma ainda que, diferentemente dos outros setores da faculdade, o Instituto de Saúde Coletiva não se divide em departamentos, mas em programas de ensino. “Isso diminui a burocracia e não engessa os cursos.” 

Segundo Maria, um dos pontos que pesaram a favor na avaliação da Capes - e que prejudica diversos programas País afora - é o projeto de internacionalização. “Fazemos parceria com as melhores universidades da Europa e dos EUA e recebemos alunos da África. Por aqui, circulam pessoas com diferentes ideias e formações.”

Coordenação. Para o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, embora sejam feitos esforços dos governos para estimular o desenvolvimento do ensino superior nessas regiões, faltam ações integradas. “Há ajuda dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, da Educação e da Defesa, mas é tudo muito fragmentado. Se eu fosse a maior autoridade do País, já teria feito um programa específico para a Amazônia, por exemplo.”

MBAs também serão avaliados 

Após anos de discussão, o Ministério de Educação (MEC) decidiu avaliar e regular também os cursos de pós-graduação lato sensu (especializações, como os MBAs). Até 19 de agosto, todas as instituições de ensino superior do sistema federal deverão inscrever no novo cadastro nacional de cursos de especialização do sistema e-MEC os cursos oferecidos a partir de 2012. Segundo o MEC, uma comissão da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação ainda estuda um novo marco regulatório para a avaliação e regulação desses cursos. Depois de elaborada, a proposta será submetida a audiência pública. Não há prazo para que seja implementada. 

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