Mariana Correa/ Aquidiocesano
Mariana Correa/ Aquidiocesano

No médio, formação une básicas a eletivas

Além de disciplinas comuns a todos, aluno pode cursar áreas com as quais tem afinidade

Ocimara Balmant, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 05h00

Vírus e bactérias estão nas aulas de Biologia do ensino médio desde sempre. Consequências econômicas e sociais causadas por epidemias que a humanidade atravessou também não são novidade em História. Tampouco a discussão sobre a origem e a dispersão das doenças fica de fora do estudo da Geografia. 

O problema é que tudo isso sempre foi ensinado de forma estanque, talvez em anos letivos distintos, sem contextualização com o momento atual ou sinalização da importância desse conhecimento. O resultado foram décadas de ensino médio conteudista, com alto índice de evasão na rede pública. Nas escolas privadas, a etapa tem sido vista como uma época para decorar temas cobrados no vestibular e que, após a matrícula na universidade, nunca mais virão à tona.

“O modelo antigo, conteudista, não era inteligente. Muito não tinha serventia para a vida futura. Uma coisa é falar dos fenômenos físicos, outra completamente diferente é pedir para calcular”, diz Dionei Andreatta, coordenador do ensino médio do Colégio Arquidiocesano. 

Escolha

A instituição está pronta para implementar em 2021 o Currículo Paulista, formato desenhado pelo Estado de São Paulo para fazer valer a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A principal novidade são os itinerários formativos: o jovem decide a área em que quer aprofundar parte de seus estudos já no ensino médio, o que é uma forma de fortalecer o protagonismo e ajudá-lo a construir seu projeto de vida.

Na prática, mantém-se a formação básica – comum a todos alunos, com todas as disciplinas – e ganham-se itinerários formativos. São cinco, sendo um deles técnico. O aluno pode estudar em uma escola técnica desde o início do médio ou escolher compor parte ou toda a carga horária de itinerário com cursos técnicos. Nessa última, tem ao menos duas possibilidades.

Na primeira, pode cursar as unidades relacionadas à formação básica em uma escola de ensino médio e, na parte destinada aos itinerários, realizar cursos técnicos em instituições parceiras. Há também o ensino médio integrado, em que o estudante pode realizar a formação geral e cursos técnicos no mesmo lugar, de forma integrada. Isso pode possibilitar o melhor aproveitamento de carga horária.

Além da formação técnica, estão entre as opções do médio: Matemática, Ciências Naturais, Linguagem e Ciências Humanas. O itinerário formativo é de escolha do estudante, a partir das possibilidades da escola.

No Arquidiocesano, o estudante pode optar por uma ou por duas áreas simultâneas. Também é possível trocar de itinerários no decorrer do ano. “Todo trimestre há a opção se quer permanecer ou se quer fazer novo hub. O importante é que as habilidades sejam desenvolvidas. O tema muda, mas o modus operandi não”, diz Andreatta. Ele se refere às premissas para todo conteúdo do Arquidiocesano: linguagem digital e habilidades socioemocionais. Digital é a linguagem moderna, e os alunos precisam saber como é constituída. As habilidades sociocomportamentais a escola mapeou na discussão sobre o futuro do mercado de trabalho no Fórum de Davos. Estão na lista: capacidade de resolver problemas complexos, criatividade, trabalho colaborativo, empatia, resiliência e inteligência emocional. “Robôs já fazem muita coisa. Sobra o que é essencialmente humano. No entanto, essas habilidades não são dons divinos, precisam ser desenvolvidas. E a escola é o melhor lugar.”

Avaliação

Na Escola Nossa Senhora das Graças, o Gracinha, a discussão sobre a reforma do médio teve início em 2016 e agora o colégio já introduziu as eletivas, todas interdisciplinares. Esses conteúdos são avaliados a cada ano: o que funcionou e o que precisa melhorar. Neste ano, por exemplo, entre as eletivas estão Dados Abertos, Políticas Públicas, Movimento Hacker – que usa princípios matemáticos para lidar com dados de políticas públicas – e Dinamídia: Bússola para Desinformação e Fake News, que trabalha linguagem, leitura crítica e comunicação. 

“As eletivas chegam com novas abordagens do curso regular, como proposta de iniciação científica”, diz o diretor, Wagner Cafagni Borja.

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Ao dar espaço para o estudante escolher, ele já começa a ganhar autonomia e também a se conhecer
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Wagner Cafagni Borja, diretor da Escola Nossa Senhora das Graças

Aprender empreendedorismo pelo bem do planeta

Tema deve ser abordado, mas para estudantes pensarem em aproveitar melhor os recursos ambientais e sociais

Em março, quando a pandemia parou o comércio, dona Teresa Ragusa precisou fechar as portas da loja de roupas que mantém em um shopping de São Paulo. Quando Maria Clara Ragusa Marcicano soube que o faturamento da avó iria cair, não hesitou. A adolescente de 14 anos usou o que aprendeu nas aulas de empreendedorismo no colégio para reinventar a forma de a empresa se comunicar com clientes. A principal ação foi mudar o Instagram, com hashtags para promoção de fotos, mais postagens e um padrão de cores para o feed. Com isso, aumentou o número de visualizações e, claro, as compras online. 

“É um caso que exemplifica como nossos alunos são protagonistas e põem em prática não só os conceitos de empreendedorismo, como os conteúdos que complementam esse aprendizado, como empatia e resolução de problemas”, diz Juliana Ragusa, coordenadora de Tecnologia Educacional da Escola Internacional de Alphaville.

Lá, os alunos de 1.º e 2.º anos do ensino médio cursam a disciplina Empreendedorismo e Escolhas de Vida. Apoiados em tecnologias inovadoras, são instigados a criar modelos de negócio com base no desenvolvimento de habilidades técnicas e socioemocionais. “Estudamos cases de sucesso e analisamos as causas de fracasso de startups. Mas, acima de tudo, fazemos uma discussão crítica sobre novas tecnologias e tendências, ponderamos as implicações éticas do uso de inteligência artificial, por exemplo”, afirma Juliana.

Ana Carolina de Lima Silva, do 1.º ano do médio, aplicou o que aprendeu para criar a Janelas para o Futuro, plataforma para ensinar inglês a alunos atendidos por um projeto social do colégio. E o engajamento se reflete no visual: ela costura roupas com plástico reciclado.

Sentido

Abordar empreendedorismo não é mais opcional. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é um dos eixos que deve orientar os itinerários formativos dos alunos do ensino médio. Não numa perspectiva de abrir o próprio negócio, mas em uma visão que considere o aproveitamento dos recursos ambientais e sociais do planeta na gestão dos empreendimentos.

“Aqui ninguém aprende a fazer tortinha para vender. Nosso propósito é criar produtos para reduzir o descarte dos resíduos sólidos. Não é só sustentabilidade, mas economia circular, que tem a ver com prolongar o tempo de vida de um determinado objeto”, afirma Márcia Sakay, coordenadora dos projetos de empreendedorismo do Centro Educacional Pioneiro.

Dos 5 Erres da Sustentabilidade – Repensar, Recusar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar –, os projetos da instituição centram foco na reutilização. Entretanto, naquela que cria inovação. “Não é pegar a garrafa PET e fazer virar um carrinho que não anda. Mas é pegar a PET, refilar e, a partir daí, fazer o que quiser”, acrescenta Márcia.

O que os alunos em assembleia decidiram fazer foi almofada para pets com garrafa pet. Como pano de fundo, o crescimento do segmento voltado aos animais domésticos. As garrafas refiladas viraram o recheio da almofada e a capa foi feita com forro externo de guarda-chuva quebrado, material impermeável.

As ideias são sempre apresentadas em formato de pitch – termo próprio do mercado empreendedor, que designa uma apresentação rápida de um produto novo para angariar investidores. Há uma banca avaliadora, que inclui um designer, alguém da academia e um profissional de ONG ou empresa ligada à sustentabilidade.

O novo currículo

A implementação do Currículo Paulista no ensino médio vai ocorrer de forma escalonada: em 2021, com os alunos do 1º ano. Em 2022, para o 1º e o 2º ano; e em 2023, com todo o médio.

São quantas horas?

A etapa terá um total de 3.150, sendo que a formação geral básica percorrerá 1.800 horas ao longo dos três anos. Os itinerários formativos serão ofertados em 1.350 horas.

No que consiste a formação básica?

Ela abarca todos os componentes curriculares: Arte, Educação Física, Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Matemática, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Química, Física e Biologia. Só que todos aparecem com menor carga horária.

E os itinerários formativos?

É a parte flexível do currículo. Se o estudante tem preferência por Ciências da Natureza pode ter mais aulas dos componentes curriculares dessa área de conhecimento (Biologia, Física e Química). O mesmo vale para os que têm preferência pelas áreas de Linguagens (Arte, Educação Física, Língua Portuguesa e Língua Inglesa), Ciências Humanas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia) e Matemática. O aluno também tem a opção de fazer itinerários formativos que integrem duas áreas de conhecimento.

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