No interior paulista, um ano de alojamento custa R$ 37 mil

Em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, 150 jovens sacrificam família e lazer - fim de semana é para simulados

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

01 Junho 2015 | 03h00

Depois das 22h30 não é permitido fazer barulho. Internet e televisão só são liberadas até a meia-noite, e a rotina inclui ao menos 14 horas diárias de estudo e aulas, além de simulados nos fins de semana. Esse foi o ambiente escolhido por 150 adolescentes que se mudaram para um alojamento em São José dos Campos, no interior paulista.

O espaço do Poliedro só abriga meninos. Entre eles, 98 querem ingressar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o restante, em cursos de Medicina de universidades públicas do País. Há ainda 30 adolescentes que cursam o ensino médio no colégio que também estão hospedados no alojamento e seguem a mesma rotina.

Nicholas Frota de Sousa, de 18 anos, diz ter decidido ainda no ensino médio que se dedicaria “para valer” aos estudos, mesmo que para isso tivesse de ficar longe de sua família, que mora no Recife. “O sacrifício se torna pequeno diante da conquista de um sonho”, afirma o estudante.

No entanto, a força de vontade não é o único requisito para permanecer no alojamento. Além das mensalidades do cursinho, de R$ 1.690, é preciso pagar R$ 1,4 mil por mês pela hospedagem. O investimento total para um ano é de R$ 37.080.

Nicholas sempre estudou em escola particular, mas diz ter percebido que se fizesse um cursinho padrão não conseguiria se concentrar o suficiente para se preparar para o vestibular. “Em casa as distrações são maiores. Eu, por exemplo, gosto muito de jogar no computador e perdia muito tempo com isso. Aqui não tenho essa opção”, conta.

Os quartos são divididos por quatro ou cinco garotos. Normalmente, aqueles que vão prestar o mesmo vestibular ficam agrupados. Pietro Guimarães, de 18 anos, divide o quarto com outros aspirantes ao ITA. Apesar de serem de regiões diferentes do País - ele é do Rio e os colegas são de Goiás e São Paulo -, Guimarães diz ter criado uma forte amizade por terem os mesmos objetivos. “Todos estão aqui pensando na mesma coisa, fazendo os mesmos sacrifícios. Isso é um incentivo muito bom, nós nos ajudamos.”

O alojamento tem quadras esportivas e uma piscina. No entanto, os alunos dizem que só sobra tempo para usá-las nos fins de semana, quando também têm autorização para sair.

Acompanhamento. No alojamento, os jovens são acompanhados por monitores, coordenadores pedagógicos e psicólogos. Thiago Cardoso da Costa, professor e coordenador da turma ITA do Curso Poliedro, afirma que a principal preocupação é criar um ambiente de cooperação no alojamento. “Eles são meninos naturalmente competitivos, que gostam de desafio e estavam acostumados a ser os melhores da classe, da escola. Desde o início, nós fazemos palestras e orientamos individualmente para que eles entendam que juntos podem se ajudar.” 

Apesar das regras rígidas e da rotina exaustiva, Costa diz que casos de indisciplina são raros e, no máximo, dez desistem do curso durante o ano, geralmente por dificuldades financeiras. “O aluno que está aqui quer essa disciplina porque está disposto a estudar muito.”

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