No aniversário, USP se volta para o ensino básico

Plano prevê levar 5 mil alunos de 4ª a 8ª série para frequentar laboratórios e salas de aula da universidade

Renata Cafardo, de O Estado de S. Paulo,

23 de janeiro de 2009 | 16h06

No aniversário de 75 anos, a Universidade de São Paulo (USP) se volta para o ensino fundamental. A instituição vai ampliar seu projeto de inclusão com um programa chamado USP Júnior, que abre inscrições em fevereiro. A ideia, segundo a reitora Suely Vilela adiantou ao Estado, é a de levar 5 mil alunos de 4ª a 8ª série para frequentar laboratórios e salas de aula da universidade durante as férias escolares. "Precisamos pegar o aluno na etapa inicial, despertar sua curiosidade com experimentos científicos e construir com ele um projeto de vida", diz.   O USP Júnior surgiu a partir de resultados do programa de inclusão (Inclusp), criado em 2006 para atrair mais alunos de escola pública para a universidade. Em 2008, foi lançada uma avaliação seriada para esse grupo; eles poderiam fazer provas ao fim do ensino médio, que contariam pontos na Fuvest. Cerca de 50 mil se inscreveram e só 8 mil apareceram. "Por que eles não vieram? Se inscreveram, têm uma oportunidade real. Não basta olhar apenas o aluno do ensino médio, não vai conseguir incluí-lo. Há uma cultura de autoexclusão."   Em uma de suas primeiras entrevistas depois de um longo período de reclusão, após o episódio da invasão da reitoria em 2007, ela fala ainda de desfechos dessa crise que considera como o "momento mais difícil" da sua gestão. O mandato de Suely, a primeira reitora da história da USP, termina no fim deste ano. "Saio feliz com o que realizei", complementa.   Mudou algo na USP por ter uma mulher no comando?   Não diria pelo fato de ser mulher, mas pelos projetos e pelos resultados. O nosso objetivo era que a USP tivesse uma sólida e estratégica gestão institucional, com uma mudança de cultura. Implementamos projetos de desburocratização na administração, fazendo uma autoavaliação em cada setor. Os convênios com a USP, por exemplo, eram em papel, hoje todo o processo é feito online. Há algum tempo eu ouvi alguém dizer: "Se tiver que realizar convênio com a USP vai demorar dois anos." Isso me marcou. Hoje, fazemos em um semana. Também estamos descentralizando consultoria jurídica, comunicação social, internacionalização, cada câmpus tem o seu.   Como a senhora vê os resultados do Inclusp (programa de inclusão)?   Ele trouxe para a universidade um olhar diferenciado. A não aplicação de um projeto como o Inclusp estaria diminuindo a cada ano o ingresso de alunos da rede pública na USP. Em 2005, tínhamos 24,7%, em 2007 passou para 26,7% e ficou igual. São 375 alunos a mais. O Inclusp mostra que a universidade não pode olhar somente o aluno do ensino médio porque você dá a oportunidade, mas ele já tem uma cultura da autoexclusão. O Pasusp (avaliação seriada) é um exemplo, 50 mil se inscrevam e vieram 8 mil fazer a prova. Por quê? Eles conhecem, se inscreveram, têm uma oportunidade real. Esse é um dado extremamente importante. Não basta você olhar apenas o aluno do ensino médio, não vai conseguir incluí-lo, temos que pegar a faixa etária abaixo.   O que fazer então?   Vamos lançar em fevereiro o programa USP Júnior. A autoestima desse aluno se constrói no ensino básico todo. Não vai ser simplesmente com projeto de avaliação seriada ou com Embaixadores da USP que isso vai mudar. Temos que pegar os adolescentes da 4ª, 5ª série, 7ª, 8ª e trabalhá-los aqui. Queremos despertar a curiosidade deles. Vamos trazê-los para atividades de experimentos de ciência. Por exemplo, na área de Odontologia, ver o que tem na boca, olhar a cárie, preparar uma lâmina. Mostrar a realidade da cultura, da ciência, para ajudar na decisão da sua opção profissional. E construir um projeto de vida para ir para uma universidade, não necessariamente a USP.   Há convênio com o governo do Estado para o projeto?   Não. O projeto vai ser aberto para quem quiser se inscrever, da rede pública e privada. As inscrições vão começar em fevereiro. Queremos chegar a 5 mil. Será realizado nas férias, em julho. Eles vão passar uma semana na USP. Será realizado em São Paulo, São Carlos e Ribeirão Preto.   Há risco de o Inclusp não continuar na próxima gestão?   Cada reitor define os novos projetos. Mas ele tem de pensar que a universidade tem que oferecer essa inclusão social. Essa diversidade cultural e étnica é uma característica de uma universidade de classe mundial, como a USP é. Ela precisa chegar ao seu centenário consolidada nessa questão. E não é fácil avançar. Você vê que nós, com o Inclusp, estamos a cada etapa crescendo 2%. Se não tivesse, seria um desastre.   Qual foi o resultado da sindicância sobre danos à reitoria depois da invasão de alunos em 2007?   Foi feito um processo administrativo para a apuração dos danos ao patrimônio, gerou uma ação, encaminhada para o Ministério Público, da ordem de R$ 350 mil. Isso está sendo cobrado do DCE e do Sintusp (sindicato dos trabalhadores da USP). Ainda não recebemos, isso vem por vias judiciais.   Como analisa hoje essa crise?   Estávamos no início da gestão. Provocou transtornos na administração, a reitoria ficou parada por 50 dias, com perdas para a evolução da USP. Olhando esses três anos, diria que foi o momento mais difícil da minha gestão.   Houve discordância entre a senhora e o governador José Serra na época sobre como atuar na invasão?   Não há por parte da USP nenhum conflito com relação ao governador José Serra. Temos boas relações institucionais. Do lado da universidade, olhamos o que é bom para a nação. E o governador também sempre olhou a universidade buscando seu desenvolvimento.   Dizia-se à época que sra. não havia gostado da cobertura da imprensa e, desde então, não deu muitas entrevistas.   Eu acho que a mídia tem o papel dela. E somente a ela compete julgar se ela foi justa ou injusta com a reitora. A mídia cumpriu seu papel informando a sociedade, compete a ela julgar se teve um preconceito ou não. É um processo natural se fechar para encontrar soluções e depois, para tentar recuperar o tempo perdido. O tempo passa rápido demais.   Normalmente os candidatos do reitor se elegem. A senhora era a candidata do ex-reitor. Já tem candidato?   A reitora não pode ter candidato. E também não há candidatos declarados. É a cultura da universidade, já que não há inscrições, todos os professores titulares podem se candidatar. Não acho que era candidata do professor Melfi (Adolpho Melfi, ex reitor). Ele sempre foi muito profissional, apesar de meu amigo. Os reitores normalmente não devem ter candidatos declarados, só de coração.   Existe possibilidade de a USP começar a participar do Enade?   Existe sim. Eu defendo a cultura da avaliação. O Enade é importante, a USP quer participar, nós temos divergências com relação aos critérios. Mas avançamos nesse sentido, constituímos uma comissão. A principal divergência era a questão da amostragem, que já está mudando.

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