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Ninguém fica para trás

Pesquisas mostram o efeito nefasto da baixa expectativa na aprendizagem dos alunos

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 03h00

Um dos lemas dos países que têm atualmente o melhor desempenho em educação no mundo é não deixar ninguém para trás. Ou seja, acreditar que qualquer criança pode aprender. E mover o ensino para isso. É assim na Estônia, Finlândia, Cingapura. Dão, inclusive, mais atenção e mais recursos aos mais pobres, com pais menos escolarizados, sem acesso a livros. Vários resultados já deixam claro que o Brasil não segue essa máxima. 

Um dos mais tristes é o que demonstra que os professores não acreditam que seus alunos terão um futuro. Dados recentes tabulados pelo Instituto Iede mostram que só 55,2% dos que dão aulas para o 5.º ano, ou seja, para crianças de 10 anos, acham que elas terminarão a escola. E, pior ainda, apenas 13,3% acreditam que elas entrarão na universidade. As declarações foram dadas em questionários DAS provas do Sistema Avaliação da Educação Básica (Saeb) feito pelo Ministério da Educação (MEC) em 2017, em todo o País.

Alunos mais velhos têm ainda menos confiança de seus professores. Os que dão aula no 9.º ano acreditam que só 8% entrarão na faculdade. Os docentes do 3.º ano do ensino médio – talvez por causa da proximidade do ensino superior – sobem sua expectativa para 10% dos estudantes. Numa sala de 40 alunos do último ano da educação básica, só 4 chegarão ao nível superior, segundo quem os ensina.

Diversas pesquisas no mundo todo têm mostrado há décadas o efeito nefasto da baixa expectativa na aprendizagem dos alunos. Crianças desestimuladas têm desempenho pior ou acabam deixando a escola. Um estudo americano antigo escolheu crianças aleatoriamente e informou a seus professores que elas tinham passado por testes que demonstravam alta capacidade intelectual, o que não era verdade. No fim do experimento, elas apresentavam desempenho realmente superior a outras que tinham habilidades e perfis semelhantes. Isso mostrou que a dedicação dos docentes a esse grupo acabou sendo determinante para seu aprendizado.

No Brasil, é comum professores sentenciarem alunos por serem pobres, negros, viverem em favelas ou terem pais presidiários, por exemplo. Na mesma pesquisa tabulada pelo Iede, eles dizem que fatores ligados ao próprio aluno e à família impactam mais nos problemas de aprendizagem do que itens relacionados ao currículo, estrutura e gestão da escola. Mais de 90% citam a falta de ajuda dos pais e o desinteresse do estudante como razões pelo baixo desempenho. Só 16% acreditam que os conteúdos curriculares inadequados podem impedir o aluno de aprender. 

Países no topo da educação mundial têm políticas específicas para estudantes considerados vulneráveis, como acompanhar mais de perto as crianças desde a educação infantil ou trabalhos especiais para aqueles que demonstram que podem vir a repetir de ano. Alunos nas escolas em regiões mais pobres da Finlândia, Estônia e China, por exemplo, tiveram desempenho bem mais alto no Pisa, a avaliação internacional de estudantes, que outros na mesma situação em países que não tomaram medidas para melhorar a aprendizagem dessas crianças. Como o Brasil.

Mas há mudanças mais simples. Outro estudo americano dá dicas para professores promoverem altas expectativas nos estudantes. Entre elas, enfatizar que os alunos são bons em coisas diferentes ou dar tempo suficiente para que a criança com dificuldade dê sua resposta durante explanações para a sala. Um erro fatal é chamar um colega “mais sabido” para completar a resposta que o outro não conseguiu terminar. Não deixar nenhuma criança para trás é mais que uma política pública. É um esforço da sociedade para se livrar de preconceitos e acreditar que todas as suas crianças podem aprender. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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